Esta manhã topei-me com isto à porta da central de atendimento telefónico call centre center duma companhia de seguros estrangeira, multinacional. Dá no mesmo. Parece que agora é tudo uma raça pegada.
Bem que seja multinacional, o caso é que as ouço (às pessoas que o lá puseram) tagarelar em português enquando fumam o seu cigarrinho à porta. O boneco é para inglês ver, mas da aculturação que sofre nem esta gente se dá conta. A água do Luso no anúncio antigo era tão natural como a sua sêde. Isto agora, as modas amaricanas e os dizeres sempre e só em bárbaro saem já tão naturais como um arroto. Ou pior…
Já cheira mal!
Ontem ou anteontem havia um comentário dum leitor no Observidor a propósito do defunto Odair (no crioulo brasileiro seria Aldair, corrupção de Aldo, dizem; no de Cabo-Verde já se adiantou mais; é como soar e na forma possível). Escreveu o leitor, pois, do Odair — que reste [sic] em paz.
Outro leitor estranhou; que era aquilo — reste em paz?
Era do verbo restar, respondeu o primeiro.
O resto da conversa não foi zero logo ali, como devia, porque ainda contrapôs o replicante que, bom, o português diz descanse em paz. Havia decerto naquilo influência do inglês R.I.P. — rest in peace.
É para o que dá: o inglês; do amaricano, de preferência. Nunca por nunca o latim requiescat in pace haveria de ocorrer, haveria lá ele!… Impossível! Só em delírio…
Ainda assim o replicante ou um terceiro em diálogo com eles, não sei, concluiu que esta gente que se exprime assim anda a ser colonizada, mas até gosta.
É verdade! Gosta, pois! Não se dá conta, mas gosta mesmo!
E como gosta, não me admira ao depois o outro caso que anda a dar que falar: O de virem uns bifes ou camones por aqui com o rei na barriga, anteontem, como vieram no caso do Amendoim do Sportem. O rei na barriga, de seu natural, e milhões na carteira porque sempre foram uns judeus em contas. Mas é, em muito, desta nossa gente com mente de lacaio que se deixa colonizar tão empenhadamente que intuem os tais bifes poder chegar cá numa quarta-feira, tomar o Amendoim do Sportem mai-los amendoinzinhos adjuntos todos, e terem-nos logo, logo a treinadores (ou milagreiros) em Manchester no sábado contra o Chelsea.
Pensam assim, pois, estes ricaços da estranja que isto cá é tudo deles e é só dispor, e é verdade. Dantes não era assim, mas isso, era dantes!…
Deste caso assim medido sempre tiro, ao cabo e ao resto, alguns cuja têmpera não deixa porem-se tão serviçalmente a jeito para sim, senhor, é para já! São os que ainda dizem alto lá! mas são poucos e podem muito pouco, na verdade. Mostram um resto de carácter, ao menos, pelo menos neste pormenor.
Pois é o que sobra cá: o Amendoim vai, mas não vai já a correr e a saltar como deslumbradamente se dispunha.
Dantes isto não era assim…

![Esta Lisboa / Alice Vieira, António Pedro Ferreira (fot.). — [Lisboa] : Caminho, [1993]. — 200 p. : Il.; 31cm](https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gf5172c1b/22701413_ZVj1z.jpeg)

![Gisela Ildefonso, «D. Sebastião: o regresso do enigma», [s.l.], [ed. de A.], 2023]](https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gec17d7e7/22700862_sR6Mw.jpeg)









