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quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Portugal, 2024

Portugal — © 2024
Ex-Portugal — © 2024


 


 Esta manhã topei-me com isto à porta da central de atendimento telefónico call centre center duma companhia de seguros estrangeira, multinacional. Dá no mesmo. Parece que agora é tudo uma raça pegada.
 Bem que seja multinacional, o caso é que as ouço (às pessoas que o lá puseram) tagarelar em português enquando fumam o seu cigarrinho à porta. O boneco é para inglês ver, mas da aculturação que sofre nem esta gente se dá conta. A água do Luso no anúncio antigo era tão natural como a sua sêde. Isto agora, as modas amaricanas e os dizeres sempre e só em bárbaro saem já tão naturais como um arroto. Ou pior…
 Já cheira mal!


 Ontem ou anteontem havia um comentário dum leitor no Observidor a propósito do defunto Odair (no crioulo brasileiro seria Aldair, corrupção de Aldo, dizem; no de Cabo-Verde já se adiantou mais; é como soar e na forma possível). Escreveu o leitor, pois, do Odair — que reste [sic] em paz.
 Outro leitor estranhou; que era aquilo — reste em paz?
 Era do verbo restar, respondeu o primeiro.
 O resto da conversa não foi zero logo ali, como devia, porque ainda contrapôs o replicante que, bom, o português diz descanse em paz. Havia decerto naquilo influência do inglês R.I.P. — rest in peace.
 É para o que dá: o inglês; do amaricano, de preferência. Nunca por nunca o latim requiescat in pace haveria de ocorrer, haveria lá ele!… Impossível! Só em delírio…
 Ainda assim o replicante ou um terceiro em diálogo com eles, não sei, concluiu que esta gente que se exprime assim anda a ser colonizada, mas até gosta.
 É verdade! Gosta, pois! Não se dá conta, mas gosta mesmo!
 E como gosta, não me admira ao depois o outro caso que anda a dar que falar: O de virem uns bifes ou camones por aqui com o rei na barriga, anteontem, como vieram no caso do Amendoim do Sportem. O rei na barriga, de seu natural, e milhões na carteira porque sempre foram uns judeus em contas. Mas é, em muito, desta nossa gente com mente de lacaio que se deixa colonizar tão empenhadamente que intuem os tais bifes poder chegar cá numa quarta-feira, tomar o Amendoim do Sportem mai-los amendoinzinhos adjuntos todos, e terem-nos logo, logo a treinadores (ou milagreiros) em Manchester no sábado contra o Chelsea.
 Pensam assim, pois, estes ricaços da estranja que isto cá é tudo deles e é só dispor, e é verdade. Dantes não era assim, mas isso, era dantes!…
 Deste caso assim medido sempre tiro, ao cabo e ao resto, alguns cuja têmpera não deixa porem-se tão serviçalmente a jeito para sim, senhor, é para já!  São os que ainda dizem alto lá! mas são poucos e podem muito pouco, na verdade. Mostram um resto de carácter, ao menos, pelo menos neste pormenor.
 Pois é o que sobra cá: o Amendoim vai, mas não vai já a correr e a saltar como deslumbradamente se dispunha.
 Dantes isto não era assim…


 

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

País – notícias, opinião, rádio, fotos e podcasts [sic]

São jovens, não são juvens. Joventude, portanto.


 


Observador, 30/X/24



 Ao depois, as mediadas de financiamento são as cinco medidas metidas na tal carta, muito bem medidas pela média da joventude que se quer incluir na COP[OFONIA?]29 das alterações climá®️ticas.


 Calculo eu, mas… É fazer as contas.

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Alice Vieira, Esta Lisboa

Esta Lisboa / Alice Vieira, António Pedro Ferreira (fot.). — [Lisboa] : Caminho, [1993]. — 200 p. : Il.; 31cm


 


 Um livro muito bem escrito: viajo no mito que é Lisboa pela poesia dum livro, porque Lisboa hoje não é já nada do que a A. tão bem soube escrever.
 Melhor assim, pois viajo deste modo em sonho por uma Lisboa de lenda e história; vogo pelas águas do Tejo, sorvo as dos chafarizes e das fontes; ando pela a Baixa dos terramotos (não houve só aquele…); delicio-me na gastronomia, entretenho-me no fado, nos cafés; sigo a fé nas procissões; acompanho a burguesia pelo Chiado; as gentes nas vilas, pátios, bairros, feiras; vejo as modas no Passeio Público, na Avenida, nos jardins; ouço poetas, escritores; assisto a revoltas e reviravoltas da História; visito monumentos e museus em bilhete postal…
 Sonho datado. Vem-me duma Lisboa dos alvores dos anos 90, que vi, vivi e me desencantava já, quando a comparava com outras épocas que não vi nem vivi. Mas era Lisboa. Revejo-a agora com saudade enquanto leio, porque…
 Porque?…
 Enfim!…

 Um erro — o Carmo não viu o presidente Thomaz em 25 de Abril; uma gralha — D. Afonso V, o Africano vem por D. Afonso IV, o Bravo do Salado a propósito do Paço do Lumiar; e meu pai, que aparece nos Restauradores na p. 113.


 Um belo livro de ver e sobretudo de ler.


 




«Esta Lisboa» / Alice Vieira, António Pedro Ferreira (fot.). — [Lisboa] : Caminho, [1993]. — 200 p. : Il.; 31cm.


(1/X/24.)

domingo, 27 de outubro de 2024

Camões

Camões: Os Lusíadas e a Renascença em Portugal / Oliveira Martins. — 4.ª ed. — Lisboa : Guimarães, 1986.


 


 Tenho este Camões desde não sei quando (*). Peguei-lhe no princípio de Agosto. Andei com ele até há pedaço. Pegava-lhe e largava-o. Às vezes lembrava-me de lhe tornar, e ao depois parece que me falhava a vontade, tantos os caprichos que nos hoje tolhem o tempo.
 De modo que, li-o aos bochechos.


 A propósito do título do livro — melhor, do Luís Vaz — contei à senhora quando o tirei da estante para o ir ler, a história do Vítor, o primo brasileiro do Jaime. O Vítor, os pais emigraram para o Rio de Janeiro. Não sei se nasceu cá, mas era carioca no falar e em tudo; parece-me que até pela cara.
 Pois bem, quando peguei no livro aqui, lembrei-me dele, do Vítor, porque para si e para o seu ouvido afeito a todas as sílabas átonas abertas do português carioca, o português dos portugueses (o autêntico) descreveu-mo numa frase dum tom que tinha até, talvez, uma pitadinha de desdém, mas que só me fez rir.
 — Vocês falam assim… Dizem Câmões.


*   *   *



 Que jeito me teria dado este ensaio de Oliveira Martins aos 15. Mas teria de ser 50 anos mais maduro e séculos mais sábio. Com aquela idade não sabia nada e a cabeça ainda era no ar (hoje não será menos, é pior…)
 Por conseguinte ainda me admira a erudição do ensaio. Hoje ninguém escreve nada assim, muito menos quando o seu embrião (Os Lusíadas: ensaio sobre Camões e a sua obra, em relação à sociedade portuguesa e ao movimento da Renascença, Porto, 1872) não teve senão o A. que umas Obras de Camões da «Biblioteca Portuguesa», e uma edição escolar do Vergílio. E os seus próprios dons.
 O ensaio original foi refundido por 1888 no que está e que foi publicado em 1891.
 Pel' «Os Lusíadas» o A. percorre a gesta dos Portugueses, descreve-nos o carácter, estriba-no-lo em Celtas e Romanos, compara-nos às nações da Cristandade, fundamenta-nos a autonomia, firma-nos o patriotismo, determina-nos os fados.
 Camões é o génio que canta o génio da sua gente.
 Oliveira Martins um romântico cheio de inspiração.


 O índice é um bom sumário com o plano da obra, que ajuda a uma consulta mais directa aos tópicos abordados.


 




(*) Comprei-o em 2002; custou 790$00.

Enigma é…

Gisela Ildefonso, «D. Sebastião: o regresso do enigma», [s.l.], [ed. de A.], 2023]


 


 Aparato documental dado ao leitor de maneira a mais adensar o enigma que a resolvê-lo. A tese proposta pode conjecturar-se (com imaginação) dum ou outro documento ou de todos e mais algum — aquele que el-rei D. Sebastião diz que redigiu estando cativo e não morto, mas que se não acha nem achou.
 A tradução e transcrição dos documentos coevos da batalha facilitam a leitura. A ortografia foi actualizada. Presumo o mesmo dalgum vocabulário e da sintaxe. A A. não no-lo diz, porém. Uma ou outra conjugação verbal da 2.ª pessoa do plural falha, o que nos nossos dias não espanta, mas é triste verificá-lo.
 A arenga sobre o Estado Novo na introdução é de cartilha. Totalmente despropositada e contraditória com o nacionalismo que subjaz à tese e que é expresso nas considerações finais.
 Uma espécie de romance de crime e mistério ou intriga palaciana com a História Política do séc. XVI. Como «tese de doutoramento», nem imagino a arguição que teve (terá, teria…)


 


(29/IX/24, pela manhã.)


 

Sr.ª da Hora

Senhora da Hora, Bouças (A. n/ id. 1887).
S.ra da Hora, Bouças, 1887.
A. n/ id. in Flickr.

sábado, 26 de outubro de 2024

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Contra-luz e sombra

Estefânia, Lisboa — © MMXXIV
Estefânia, Lisboa — © MMXXIV


 

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Não encostal no vídeo

«Por Favor. Não Encostal no vídeo», Lisboa — © MMXXIV
«Por Favor. Não Encostal no vídeo», Lisboa — © MMXXIV

Jornalismo de causas

Sempre a dar voz às minorias.


«Dizem que não vão parar até materem um polícia». A segunda noite violenta no B.º do Zambujal, «Observador», 23/X/2024
(Observ[i]dor, 23/X/24.)

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Lisboa a precisar de portugueses

Lisboa a precisar de portugueses, Portugal — © MMXXIV
Precisa-se bom grelhador ou cozinheira para cozinha tradicional portuguesa, Lisboa — © MMXXIV

domingo, 20 de outubro de 2024

Palacete do n.º 12 do Saldanha

Palacete de Nuno Pereira de Oliveira, Saldanha (J. Benoliel, 191...)
Casa de Nuno Pereira de Oliveira, Lisboa, 191…
Joshua Benoliel, in archivo photographico da C.M.L.


 


Em tempos falei nele. Num post scriptum referi-me aos frescos dos frontões sôbre  os andares cimeiros e também aos dos arcos das janelas, em friso, entre o 1.º andar e a cimalha. O caso era que foram apagados por um novo proprietário c. de 1939, segundo a nota histórico-artística da D.G.P.C. Marcas da involução do gôsto, comentei então.


 


Palacete do Saldanha, 12 (lado Pr. Duque de Saldanha), Lisboa — © MMXXIV
Palacete do Saldanha, 12 (lado da Pr. Duque de Saldanha), Lisboa — © MMXXIV


 


Palacete do Saldanha, 12 (lado da Av. da Praia da Victoria), Lisboa — © MMXXIV
Palacete do Saldanha, 12 (lado da Av. da Praia da Victoria), Lisboa — © MMXXIV


 


 Dá-se que passei por ele há dias e notei-o em acabamentos de restauro. Os frescos da fachada foram restaurados. Noto que o gôsto vai e volta, o que não é novidade; são as modas! No caso, ainda bem. Também reparei nos novos candeeiros da entrada… Não vi os interiores…


 


Palacete do Saldanha, 12; novos candeeiros e portas entrada, Lisboa — © MMXXIV
Palacete do Saldanha, 12; novos candeeiros e ferro forjado original, Lisboa — © MMXXIV


 


 Cuido que há épocas em que o gôsto foi que foi e épocas em que o gôsto é o possível.


 

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Lisboa, uma saüdade sem fim

Lisboa


Depois da chuva de ontem, esta Lisboa que amanheceu hoje, fresca e lavada, deu-me para assoviar e no assovio vinha aquela



Lisboa, terra que me encanta
Terra das cantigas, e dos arraiais
Lisboa, onde tudo canta
Desde as raparigas, até os pardais...


 



 
A Canção de Lisboa, Cottinelli Telmo
(1933)


 (Pardais vejo agora, pardos são, mas são outros…
 São dez e meia. O sol encobriu-se!…)


 


A saüdade



Cidade jardim
Que o Tejo azul vem beijar
Uma saüdade sem fim
De te deixar

Cidade de amor
Tudo em ti prende e seduz
Até o céu tem mais côr
E o Sol mais luz

Alegre como um pregão
Acordas sempre a cantar
E é linda a canção
Do teu despertar

A graça e esplendor
Não tens no mundo rival
Lisboa brilha essa côr
De Portugal


 


*   *   *



(E no fim, o assovio)



 Revisitando agora os segmentos com a sua música de fundo, conseguimos perceber a forma como as componentes visuais e sonora se complementam. O plano 01 inicia-se com as primeiras notas de A Canção de Lisboa, cantada por uma voz feminina acompanhada por orquestra. O ritmo musical parece ser ecoado visualmente pelo ritmo dos pilares da Praça do Comércio. Um momento de mudança no ritmo coincide com os planos curtos (03 e 04), preparando o início da melodia principal, que coincide com o desenvolvimento da panorâmica no plano 05. Neste plano, a relação imagem-som é reforçada através da associação entre os dois primeiros versos da estrofe («Cidade-jardim / Que o Tejo azul vem beijar») e a presença da alegoria do Rio Tejo no plano. Em seguida, o ritmo da música parece articular-se com o das imagens até ao plano 15. Na transição para o plano 18, a melodia principal é retomada por um assobiar acompanhado de um delicado acompanhamento no piano […]


Hugo Barreira, «Imagens sonoras: uma proposta de leitura para a Canção de Lisboa», in Revista Livre de Cinema, v. 5, n. 1, p. 94-136, Jan.-Abr...., 2018.


 



(16/X/2024, às 10h40 da manhã.)