O vídeo corre por aí, para galhofa de uns e pavor de outros. Um moço, que prestava uns serviços ao P.S. e agora é naturalmente enviado da C.N.N. Portugal (é a T.V.I., julgo) à China ou assim, descreve, com os olhitos arregalados de excitação, as proezas do primeiro infectado com a nova e terrível «variante» da covid em Hong-Kong. Sem sair do quarto onde o fecharam, o sujeito conseguiu contaminar o hóspede do quarto em frente: o vírus chinês, entretanto com trajes africanos e habilitações em vodu, desatou a atravessar portas e corredores. Em teoria, esta revelação acabaria com as restrições, dado que doravante nem um bunker para cada indivíduo nos salvará da morte certa. Na prática, a rábula mostra o ridículo a que a «informação» não se importa de descer para catar espectadores. Com raríssimas excepções, o tratamento «jornalístico» da covid, desde o início um circo, está reduzido aos palhaços.
Se não for chalupa de todo, hipótese a debater, suponho que o repórter da T.V.I. se limitava a cumprir ordens. E as ordens, as da televisão e as do governo, são sempre de sentido único: suscitar medo. Há dias, num quadro cómico que pelos vistos comete semanalmente num canal qualquer, Paulo Portas congratulou-se por a população andar assustada. Os «especialistas», que vão de virologistas que afinal são matemáticos a virologistas que afinal são o dr. Portas, passando por virologistas que afinal seguem o dr. Costa e não a ciência, também querem medo. Os partidos, com a ocasional e insuficiente excepção da Iniciativa Liberal, estão alinhadíssimos com o P.S. na necessidade de manter elevados os níveis de pânico. E o prof. Marcelo é o prof. Marcelo. Em horas realmente difíceis, homens dignos dão exemplos de coragem. Nas dificuldades postiças, democratas de fancaria instigam o pânico. Os nossos palhaços são da estirpe assustadora.
A verdade é que o medo convém a quase todos. Antes de falecerem, os media tradicionais sonham cativar a derradeira amostra de audiências pasmadas e histéricas. Os «especialistas», que seguramente levavam porrada na escola, deleitam-se com os holofotes e o estatuto. O governo agradece um bode expiatório para a miséria em que nos enfiou e uma população capaz de consentir a miséria. Os partidos da, digamos, oposição ou possuem vocação repressora ou receiam alienar eleitores se ousarem defender a liberdade dos eleitores. E o bom povo, ao que se depreende, prefere a subjugação mansa aos riscos da liberdade. Não há maior ironia do que, no dia em se despachou a pontapé o que restava do Estado de Direito, um país de súbditos celebrar a Restauração da independência.
Por mim, nem sequer celebro a restauração. Disse-o e, desculpem lá, repito: não volto a nenhum tasco ou similar que exija atestado sanitário para efeitos de segregação. Aliás, não sendo crente prometo converter-me à pressa para rezar pela respectiva falência. Em contrapartida, juro frequentar tanto quanto possa os restaurantes que se recusam a enxovalhar clientes. Vacinei-me porque achei razoável e não tenho certificado porque acho insultuoso. Nunca usei máscara na rua porque me ensinaram que gente honesta não esconde o rosto. Nunca besuntei as mãos porque a gosma suja o volante do carro. Nunca me testei porque nunca tive interesse. Nunca respeitei as «regras». Daqui em diante, tenciono ignorar que existem: dar trela a fascistas é dar-lhes razão. Nas palavras da minha avó Luísa, o que é demais é moléstia.
Mesmo descontando o que ficou para trás, o salto entre os «melhores do mundo» na vacinação e a radical negação da eficácia das vacinas não se compreende nem se tolera. Não vou tolerar. Por vários motivos. Por egoísmo: embora um bocadinho hipocondríaco, não me apetece trocar os escassos prazeres da vida por cautelas impeditivas da dita. Por racionalidade: os factos provam que o perigo da covid é infinitamente inferior ao perigo que a toleima vigente sugere. Por bom senso: confiar nas «medidas» expelidas pelo dr. Costa seria igual a copiar pelo teste de Físico-Química do macaco Adriano. Por princípio: apenas uma alforreca aceita sem hesitação a competência do Estado para decidir comportamentos ideais. Por feitio: se multidões de imbecis defendem X, eu tendo a ficar do lado de Y. Por decência: só velhacos acatam regras que discriminam o semelhante. Por exclusão de partes: não conheço uma pessoa instruída que não seja aquilo que os boçais chamam «negacionista». Por obrigação: face à óbvia ilegalidade, afrontá-la é um dever, e aceitá-la é ser cúmplice.
A legalidade. Numerosos juristas alertam para o evidente abuso do actual «estado de calamidade», que a lei não prevê e a situação não justifica. Infelizmente, a lei e os juristas não constituem obstáculo aos apetites governamentais. Infelizmente, uns 95% dos partidos e dos media deixaram de entrar para as contas da democracia. Infelizmente, em vez de um presidente que cuidasse da Constituição elegemos um banhista. Infelizmente, ou não, estamos entregues a nós: contrariar a oportunidade de tirania oferecida por um surto de psicose colectiva depende de cada um. Eu farei a minha parte, nula para o país mas vital para mim. Gosto de dormir descansado, pelo menos enquanto a «variante» não me fura a parede.Alberto Gonçalves, «A restauração da indecência», in Observidor [isto mesmo], 4/XII/2021.
Avenida da Liberdade, Lisboa, [c. 1955].
Horacio de Novaes, in bibliotheca d' Arte da F.C.G.
domingo, 5 de dezembro de 2021
Farpas da semana
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Cada um escreve o que muito bem entende.
ResponderEliminarFaltou a 'quem tem medo anda a soldo o império farmacêutico'.
Cumpts.
Do que recordo, em 1955 a imagem devia ter sido feita nas vésperas de Natal.
ResponderEliminarCumps
O Citroen 2CV tem matrícula de 1955, mas não me parece ser no mês de Dezembro, deve ser no pino do Verão olhando à vasta ramagem das árvores.
ResponderEliminarCumpts.
Busta a busta, enche o Bourla o papo.
ResponderEliminarCumpts.
Pode ser na Primavera já alta. Pelas roupas não parece de Verão.
ResponderEliminarPode ser como diz, mas em 1955 os homens andavam sempre de casaco mesmo no Verão e se ampliar a imagem verificará atrás do carro de praça ID-... uma senhora com vestido de Verão.
ResponderEliminarOutro pormenor é não aparecer homens de chapéu na cabeça, o que só, normalmente, acontecia nos dias de Verão.
Cumpts.
Bem observado.
ResponderEliminar:)
Cumpts.