| início |

domingo, 5 de dezembro de 2021

Farpas da semana


 O vídeo corre por aí, para galhofa de uns e pavor de outros. Um moço, que prestava uns serviços ao P.S. e agora é naturalmente enviado da C.N.N. Portugal (é a T.V.I., julgo) à China ou assim, descreve, com os olhitos arregalados de excitação, as proezas do primeiro infectado com a nova e terrível «variante» da covid em Hong-Kong. Sem sair do quarto onde o fecharam, o sujeito conseguiu contaminar o hóspede do quarto em frente: o vírus chinês, entretanto com trajes africanos e habilitações em vodu, desatou a atravessar portas e corredores. Em teoria, esta revelação acabaria com as restrições, dado que doravante nem um bunker para cada indivíduo nos salvará da morte certa. Na prática, a rábula mostra o ridículo a que a «informação» não se importa de descer para catar espectadores. Com raríssimas excepções, o tratamento «jornalístico» da covid, desde o início um circo, está reduzido aos palhaços.
 Se não for chalupa de todo, hipótese a debater, suponho que o repórter da T.V.I. se limitava a cumprir ordens. E as ordens, as da televisão e as do governo, são sempre de sentido único: suscitar medo. Há dias, num quadro cómico que pelos vistos comete semanalmente num canal qualquer, Paulo Portas congratulou-se por a população andar assustada. Os «especialistas», que vão de virologistas que afinal são matemáticos a virologistas que afinal são o dr. Portas, passando por virologistas que afinal seguem o dr. Costa e não a ciência, também querem medo. Os partidos, com a ocasional e insuficiente excepção da Iniciativa Liberal, estão alinhadíssimos com o P.S. na necessidade de manter elevados os níveis de pânico. E o prof. Marcelo é o prof. Marcelo. Em horas realmente difíceis, homens dignos dão exemplos de coragem. Nas dificuldades postiças, democratas de fancaria instigam o pânico. Os nossos palhaços são da estirpe assustadora.
 A verdade é que o medo convém a quase todos. Antes de falecerem, os
media tradicionais sonham cativar a derradeira amostra de audiências pasmadas e histéricas. Os «especialistas», que seguramente levavam porrada na escola, deleitam-se com os holofotes e o estatuto. O governo agradece um bode expiatório para a miséria em que nos enfiou e uma população capaz de consentir a miséria. Os partidos da, digamos, oposição ou possuem vocação repressora ou receiam alienar eleitores se ousarem defender a liberdade dos eleitores. E o bom povo, ao que se depreende, prefere a subjugação mansa aos riscos da liberdade. Não há maior ironia do que, no dia em se despachou a pontapé o que restava do Estado de Direito, um país de súbditos celebrar a Restauração da independência.
 Por mim, nem sequer celebro a restauração. Disse-o e, desculpem lá, repito: não volto a nenhum tasco ou similar que exija atestado sanitário para efeitos de segregação. Aliás, não sendo crente prometo converter-me à pressa para rezar pela respectiva falência. Em contrapartida, juro frequentar tanto quanto possa os restaurantes que se recusam a enxovalhar clientes. Vacinei-me porque achei razoável e não tenho certificado porque acho insultuoso. Nunca usei máscara na rua porque me ensinaram que gente honesta não esconde o rosto. Nunca besuntei as mãos porque a gosma suja o volante do carro. Nunca me testei porque nunca tive interesse. Nunca respeitei as «regras». Daqui em diante, tenciono ignorar que existem: dar trela a fascistas é dar-lhes razão. Nas palavras da minha avó Luísa, o que é demais é moléstia.
 Mesmo descontando o que ficou para trás, o salto entre os «melhores do mundo» na vacinação e a radical negação da eficácia das vacinas não se compreende nem se tolera. Não vou tolerar. Por vários motivos. Por egoísmo: embora um bocadinho hipocondríaco, não me apetece trocar os escassos prazeres da vida por cautelas impeditivas da dita. Por racionalidade: os factos provam que o perigo da covid é infinitamente inferior ao perigo que a toleima vigente sugere. Por bom senso: confiar nas «medidas» expelidas pelo dr. Costa seria igual a copiar pelo teste de Físico-Química do macaco Adriano. Por princípio: apenas uma alforreca aceita sem hesitação a competência do Estado para decidir comportamentos ideais. Por feitio: se multidões de imbecis defendem X, eu tendo a ficar do lado de Y. Por decência: só velhacos acatam regras que discriminam o semelhante. Por exclusão de partes: não conheço uma pessoa instruída que não seja aquilo que os boçais chamam «negacionista». Por obrigação: face à óbvia ilegalidade, afrontá-la é um dever, e aceitá-la é ser cúmplice.
 A legalidade. Numerosos juristas alertam para o evidente abuso do actual «estado de calamidade», que a lei não prevê e a situação não justifica. Infelizmente, a lei e os juristas não constituem obstáculo aos apetites governamentais. Infelizmente, uns 95% dos partidos e dos
media deixaram de entrar para as contas da democracia. Infelizmente, em vez de um presidente que cuidasse da Constituição elegemos um banhista. Infelizmente, ou não, estamos entregues a nós: contrariar a oportunidade de tirania oferecida por um surto de psicose colectiva depende de cada um. Eu farei a minha parte, nula para o país mas vital para mim. Gosto de dormir descansado, pelo menos enquanto a «variante» não me fura a parede.


Alberto Gonçalves, «A restauração da indecência», in Observidor [isto mesmo], 4/XII/2021.




 


Av. da Liberdade, Lisboa (H. Novais, c. 1955)


Avenida da Liberdade, Lisboa, [c. 1955]. 
Horacio de Novaes, in bibliotheca d' Arte da F.C.G.

7 comentários:

  1. Cada um escreve o que muito bem entende.
    Faltou a 'quem tem medo anda a soldo o império farmacêutico'.

    Cumpts.

    ResponderEliminar
  2. Do que recordo, em 1955 a imagem devia ter sido feita nas vésperas de Natal.
    Cumps

    ResponderEliminar
  3. O Citroen 2CV tem matrícula de 1955, mas não me parece ser no mês de Dezembro, deve ser no pino do Verão olhando à vasta ramagem das árvores.

    Cumpts.

    ResponderEliminar
  4. Busta a busta, enche o Bourla o papo.
    Cumpts.

    ResponderEliminar
  5. Pode ser na Primavera já alta. Pelas roupas não parece de Verão.

    ResponderEliminar
  6. Pode ser como diz, mas em 1955 os homens andavam sempre de casaco mesmo no Verão e se ampliar a imagem verificará atrás do carro de praça ID-... uma senhora com vestido de Verão.
    Outro pormenor é não aparecer homens de chapéu na cabeça, o que só, normalmente, acontecia nos dias de Verão.

    Cumpts.

    ResponderEliminar