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sábado, 2 de fevereiro de 2008

Lisboa, Morais Soares


 Um instante na rua.
 Dois cavalheiros à porta da taberna dão pelo fotógrafo. Há duas senhoras que passam sem ligar; uma até parece que rompeu a meia…
 Um senhor de chapéu e sobretudo no braço a dois quarteirões da chapelaria Albuquerque? Bem podia ser freguês lá. Talvez comprasse o Diário Popular no Manecas jornaleiro, à Praça do Chile, lá onde fica a Parreirinha. Isto caso lesse o Diário Popular! Se calhar era só A Bola. Ou calhando, nem essa... Mas creio mais que fosse freguês aqui nesta taberna, já que o vejo à porta. Ou talvez não. Talvez haja parado só para o retrato, pois parece dizer ao senhor que o acompanha: — «Deixe-se estar! Deixe-se estar que vão tirar-nos o retrato.»
 As pessoas que ali vão, foi num instante que seguiram adiante. Mesmo na fotografia pousam os pés fora dela talvez dando um passo para o instante seguinte.
 O velho prédio de gaveto da Heróis de Quionga com a Cavaleiro de Oliveira — pergunto — deu fundo a quantos mais outros instantes, antes e depois deste e que não sabemos? Pessoas que passaram, peixeiras que venderam, ardinas e cauteleiros que apregoaram, bêbados que cairam. Ou o destino da taberna, por exemplo: — Mantém-
-se? Fechou, mudou de ramo?!…
 E o prédio — pois que ainda lá está 44 anos depois? — Sem ele seria em vazio o instante destas pessoas na cidade em 1964. Quanto durará?
 Este foi um só instante que se lhe fixou.





Rua dos Heróis de Quionga, 71, Lisboa, 1964.
Armando Serôdio, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.



 

22 comentários:

  1. 71 Morais Soares. Vou ver.
    Belissimo texto senhor Bic:)
    Livro!Livro! Livre-se de não o editar!
    Cumprimentos:)

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  2. Ops é na Heróis. Deve ser a rua de Lisboa com prédios mais problemáticos.

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  3. Bic Laranja3/2/08 15:52

    Muito me conta. Esse que aí vê não está muito bom. Entra-se pela Morais Soares, 105. Cumpts.

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  4. Os dois senhores parecem, de facto, muito conscientes de estar na mira do fotógrafo. E subscrevo a sua explicação para a invisibilidade dos pés, meu caro Bic: já vão a caminho do instante a seguir... :-)

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  5. Bic Laranja3/2/08 18:18

    A intenção deles na pose tinha implícita o efeito provocado. A perduração da sua memória (quão consciente não sei). Este modo da recuperação (Internete) é que não poderiam saber. E os instantes perdidos, por que via se poderão recuperar? Se é que alguma vez podem... Cumpts.

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  6. Eu reconheci o prédio. Só não sabia se o 71 estava incluído no restaurante dos Frangos. Está e tem essa porta emparedada. Fotografei e prantei no Dias.
    Os senhores é que não estavam lá.

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  7. Bic Laranja3/2/08 19:34

    Já deve ser difícil achá-los. Alvíssaras! Cumpts.

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  8. Je Maintiendrai3/2/08 20:55

    Belo pedaço de vida!

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  9. Bic Laranja3/2/08 20:57

    Muito obrigado! Cumpts.

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  10. Agora é a minha vez de dizer que estes são os "meus" posts.
    Sinto-me privilegiado por ter memória desta Lisboa.
    Abraço

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  11. Huuuuum, aquela malha caída é que me parece pretexto para ficar na focagem da câmara. Ora, estando o sobretudo no braço do Cavalheiro, natural é que fosse princípio da tarde, com solzinho consolador, logo parece provável o Diário Popular. A menos que tivesse simpatia grande pela Oposição, caso em que o Diário de Lisboa... Abraço

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  12. É quando vejo fotografias destas que "vejo" as figuras que faço quando me disponho a pegar na máquina.

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  13. Bic Laranja3/2/08 23:24

    Esta é mais das suas, sim. Guarde bem essa memória, amigo Manuel. // Muito certo. Este lado da rua fica à sombra de tarde. A malha seria pretexto para a senhora fugir do foco. Vou pelo Popular. // Estou certo que consegue melhor do que admite. // Cumpts.

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  14. Isso é desculpa, jrd!Faz favor de pegar na máquina!

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  15. Senhor Bic veja o anúncio das casas que lhe pus no Dias!

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  16. Bic Laranja5/2/08 12:27

    :) Obrigado!

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  17. O da direita nos anos 70 era um personagem conhecido por "Senhor Doutor"

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  18. E era efectivamente um típico Bêbado, ferranho do Benfica e que tratava os miíudos com a expressão "OLHA A BICHARADA".

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  19. Faleceu algures em princípios dos anos 80. Quem era miúdo da rua, desta rua, nos anos 70 sabe bem quem era a personagem. Sempre muito bem composto de fato e chapéu, sempre.

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  20. Já não há miúdos de rua na Heróis de Quionga. Nem velhos. Só gente estranha, me parece.

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