Um instante na rua. Dois cavalheiros à porta da taberna dão pelo fotógrafo. Há duas senhoras que passam sem ligar; uma até parece que rompeu a meia… Um senhor de chapéu e sobretudo no braço a dois quarteirões da chapelaria Albuquerque? Bem podia ser freguês lá. Talvez comprasse o Diário Popular no Manecas jornaleiro, à Praça do Chile, lá onde fica a Parreirinha. Isto caso lesse o Diário Popular! Se calhar era só A Bola. Ou calhando, nem essa... Mas creio mais que fosse freguês aqui nesta taberna, já que o vejo à porta. Ou talvez não. Talvez haja parado só para o retrato, pois parece dizer ao senhor que o acompanha: — «Deixe-se estar! Deixe-se estar que vão tirar-nos o retrato.» As pessoas que ali vão, foi num instante que seguiram adiante. Mesmo na fotografia pousam os pés fora dela talvez dando um passo para o instante seguinte. O velho prédio de gaveto da Heróis de Quionga com a Cavaleiro de Oliveira — pergunto — deu fundo a quantos mais outros instantes, antes e depois deste e que não sabemos? Pessoas que passaram, peixeiras que venderam, ardinas e cauteleiros que apregoaram, bêbados que cairam. Ou o destino da taberna, por exemplo: — Mantém- -se? Fechou, mudou de ramo?!… E o prédio — pois que ainda lá está 44 anos depois? — Sem ele seria em vazio o instante destas pessoas na cidade em 1964. Quanto durará? Este foi um só instante que se lhe fixou.
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 Rua dos Heróis de Quionga, 71, Lisboa, 1964. Armando Serôdio, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.
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71 Morais Soares. Vou ver.
ResponderEliminarBelissimo texto senhor Bic:)
Livro!Livro! Livre-se de não o editar!
Cumprimentos:)
Ops é na Heróis. Deve ser a rua de Lisboa com prédios mais problemáticos.
ResponderEliminarMuito me conta. Esse que aí vê não está muito bom. Entra-se pela Morais Soares, 105. Cumpts.
ResponderEliminarOs dois senhores parecem, de facto, muito conscientes de estar na mira do fotógrafo. E subscrevo a sua explicação para a invisibilidade dos pés, meu caro Bic: já vão a caminho do instante a seguir... :-)
ResponderEliminarA intenção deles na pose tinha implícita o efeito provocado. A perduração da sua memória (quão consciente não sei). Este modo da recuperação (Internete) é que não poderiam saber. E os instantes perdidos, por que via se poderão recuperar? Se é que alguma vez podem... Cumpts.
ResponderEliminarEu reconheci o prédio. Só não sabia se o 71 estava incluído no restaurante dos Frangos. Está e tem essa porta emparedada. Fotografei e prantei no Dias.
ResponderEliminarOs senhores é que não estavam lá.
Já deve ser difícil achá-los. Alvíssaras! Cumpts.
ResponderEliminarBelo pedaço de vida!
ResponderEliminarMuito obrigado! Cumpts.
ResponderEliminarAgora é a minha vez de dizer que estes são os "meus" posts.
ResponderEliminarSinto-me privilegiado por ter memória desta Lisboa.
Abraço
Huuuuum, aquela malha caída é que me parece pretexto para ficar na focagem da câmara. Ora, estando o sobretudo no braço do Cavalheiro, natural é que fosse princípio da tarde, com solzinho consolador, logo parece provável o Diário Popular. A menos que tivesse simpatia grande pela Oposição, caso em que o Diário de Lisboa... Abraço
ResponderEliminarÉ quando vejo fotografias destas que "vejo" as figuras que faço quando me disponho a pegar na máquina.
ResponderEliminarEsta é mais das suas, sim. Guarde bem essa memória, amigo Manuel. // Muito certo. Este lado da rua fica à sombra de tarde. A malha seria pretexto para a senhora fugir do foco. Vou pelo Popular. // Estou certo que consegue melhor do que admite. // Cumpts.
ResponderEliminarIsso é desculpa, jrd!Faz favor de pegar na máquina!
ResponderEliminarSenhor Bic veja o anúncio das casas que lhe pus no Dias!
ResponderEliminar:) Obrigado!
ResponderEliminarO da direita nos anos 70 era um personagem conhecido por "Senhor Doutor"
ResponderEliminarE era efectivamente um típico Bêbado, ferranho do Benfica e que tratava os miíudos com a expressão "OLHA A BICHARADA".
ResponderEliminarFaleceu algures em princípios dos anos 80. Quem era miúdo da rua, desta rua, nos anos 70 sabe bem quem era a personagem. Sempre muito bem composto de fato e chapéu, sempre.
ResponderEliminarJá não há miúdos de rua na Heróis de Quionga. Nem velhos. Só gente estranha, me parece.
ResponderEliminarSim, senhor!… O «Senhor Doutor»…
ResponderEliminarCumpts.
:)
ResponderEliminarCumpts.