Ceuta, é sabido, foi conquistada pelos portugueses em 1415. Saiu em
sorte aos castelhanos em 1640 quando o governador da praça covardemente acatou
a soberania de Filipe IV de Espanha em lugar de aclamar el-rei D. João IV de
Portugal. Teve medo de ficar à míngua de abastecimentos de Portugal por
bloqueio da Castela. Nunca Castela defendeu nem teve de defender Ceuta com o
sacrifício com que os portugueses a defenderam dos cercos constantes dos
alarves de Fez e da moirama de Marraquexe enquanto foi terra portuguesa. Nunca
em séculos passados nem agora, como se tem estado a ver.
« E por ventura havia hi tal [alguém] que nunca com tamanha femença [ansiedade] esguardara [contemplara] o de viam os seus muros cheios de gentes estranhas. E com estes pensamentos a tais e outros semelhantes lhe sobrevinham grande chôros. E ora culpavam seus santos, ora Çala-ben-Çala [Sanchez-ben-Sanchez, leia-se hoje] que fôra preguçoso e covarde em sua defensa. Outra vez culpavam seus oficiais [de Bruxelas] e aqueles que primeiramente abriram as suas portas [da Europa]. Ora culpavam sua má ventura até que não achavam já outrem a que pusessem mais culpa.»
(Cap. XCIII).
Melhor nem dizer mais.

Gomes Eannes de Zurara,
Crónica da Tomada de Ceuta por El Rei D. João I, Academia das
Ciências de Lisboa, Lisboa, 1915.
(Imagem de
Leilões Bestnet.)
(Citação acrescentada às 10 da noute.)
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