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sábado, 20 de junho de 2026

O Ari McLaren

 Certa vez, era eu pequenino, e uns rapazolas lá da rua estavam com uma conversa de entendidos sobre automóveis. Tinha dado uma corrida de Porsches na televisão. Só de Porsches. Eu não sabia nada de Porsches. Sabia dos carros que via na rua: Ópeis, Fores, Volksevagens, minis e até mini cúperes. De Porsches, não. Mas tinha visto a tal corrida na televisão e percebi da conversa daqueles lá da rua sobre ela que os carros naquela corrida eram Porsches.
 Diziam que os Porsches eram os melhores carros. E eram os que andavam mais. Por isso eram carros de corridas. Das marcas todas, os Porsches eram os que andavam mais, diziam uns as outros: o Rui, o Fernando «orelhas», o Beto. Eu ouvia-os atento. É que eles eram já espigadotes, muito mais crescidos do que eu. Tinham só menos um ano que o meu irmão; o Beto menos dois ou três, mas dava igual. Por isso eles sabiam. 
 Sabiam bem eles, claro, e assim fiquei eu logo a saber também. O melhor carro era Porsche; o que andava mais.
 Ao depois lá em casa fui ter com o meu irmão que também era assim espigadote como eles, já até na idade do armário (fosse lá isso o que fosse), mas que nem devia imaginar. De carros é que ele não sabia nada; não se interessava. E com isto que eu ficara a saber confrontei-o sobre qual era o carro que andava mais. Quanto mim, ele nem sonhava.
 — Mano! Sabes qual é o carro que anda mais?
 — O carro que anda mais?!… Qual é?!… — disse com enfado.
 — É o Porsche.
 — O Porsche?! — Riu-se.
 — É o Porsche, é!
 — Não é nada. — O enfado era já desdém.
 — É o Porsche, é, sim senhor! Deu na corrida da televisão. Era só Porsches porque são os carros que andam mais.
 — Não é nada o Porsche o carro que anda mais.
 — Ai não?! Então dize lá um carro que ande mais que o Porsche! Não sabes?
 — Sei. O Ari McLaren.
 — O Ari… quê?!!
 Não me respondeu e voltou-me as costas. Deixou-me para ali, mas eu fui atrás dele.
 — Ari quê? Que carro é esse.
 Não me respondeu. Nem quando horas, dias, semanas depois lhe tornei a preguntar. Nada. Nem uma palavra. Nunca mais um som, uma resposta, até hoje.
 Mais tarde descobri. Muito mais tarde. Mas também nunca lhe disse.

Yardley McLaren M19C, Brands Hatch, 1972. Stuart Dent, in Livro das Fuças.
Yardley McLaren M19C, Brands Hatch, 1972.
Stuart Dent, in Livro das Fuças.

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