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sábado, 30 de agosto de 2014

Da cultura nacional



O Centro Nacional de Cultura tem uma certa... graça. Tem um blogo onde publica trabalhos seleccionados. Um excerto de um desses:



 Data de 1888 a inauguração do então chamado T[h]eatro da Avenida e esta designação refle[c]te a própria cronologia urbana, digamos assim: o teatro, inaugurado com uma comédia, constituiu o primeira [sic] edifício referencial de cultura, na recentíssima Avenida da Liberdade, que se ia construindo a partir da destruição do Passeio Publico [sic], dois anos antes. Mas esta circunstância acabou por não valorizar nem o edifício, nem a sua a[c]tividade cultural, sem embargo de época de maior destaque ou qualidade.
  O Teatro Avenida duraria até 1967: em 13 de Dezembro [sic], um incêndio deixou-o inoperacional, não obstante ter sobrevivido grande parte da estrutura da sala. Seria demolido a partir de 1970 (...)


Duarte Ivo Cruz, «Os mais antigos teatros de Lisboa -- VI. O Teatro Avenida», Blogo do C.N.C., 27/VIII/14.



 O que tem graça nem é a grafia de analfabetos, que não tem graça nenhuma; é o estilinho palavroso a arrimar ao erudito, mas oco; a informação concreta que se dele tira cabia em duas frases curtas: o Theatro da Avenida foi inaugurado em 1888 na novíssima Avenida da Liberdade. Ardeu em 1967 e foi demolido em 1970.
 O resto é nada, inflado de coisa nenhuma:



  • «[...] constituiu o primeiro edificio referencial de cultura na Avenida»; dando de barato o prolixo «edificio referencial de cultura» -- e então o Theatro Novo da Rua do Condes, também de 1888?!

  • «inaugurado com uma comédia»; qual? Se não diz qual, que adianta dizê-lo?

  • «Mas esta circunstância [de estar na Avenida] acabou por não valorizar nem o edifício, nem a sua actividade cultural...»; que diabo?! Então não dizia que era um «referencial de cultura»?! Em que ficamos?...

  • «Seria demollido a partir de 1970 [...]»; já acabaram de o demolir?


 Cultura nacional, meus senhores, como expelida pelo centro oficial da dita... Bom!... Norberto Araújo apenas soube dizer, do Theatro da Avenida, isto:



 Do lado nascente, no enfiamento do Salitre [Av. da Liberdade, 150], subsiste ainda [1939] o Teatro Avenida.
 O Teatro Avenida foi construído nuns terrenos que aqui possuía João Salgado Dias por inciativa dêste, ligado a Alexandre Mó, e a Ernesto Desforges. Inaugurou-se em 11 de Fevereiro de 1888 com as comédias «O Tio Torcato» em que entrou Taborda, e «De Herodes para Pilatos», com António Pedro.
 Esta casa de espectáculos -- que nunca caiu em cinema -- também está ligada à história do teatro português; foi o grande teatro de Sousa Bastos, e o palco de glória de Palmira Bastos, na mocidade.
 Não possue êste teatro, que alguns restauros sumários tem recebido, um maior interêsse artístico.


(Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, 2.ª ed., Vega, 1993, p. 39.)



Ajuizai vós da fatuidade da cultura em cima e em baixo...

Theatro da Avenida, Lisboa (J. Benoliel, s.d.)

Fotografias: Theatro da Avenida, Lisboa. Perspectiva de cima Horácio de Novais, 1930, in B.A.F.C.G; perspectiva de baixo, Joshua Benoliel, [s.d.], in A.F.C.M.L.

(Revisto.)

Adenda: O Teatro Avenida de Lisboa.

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