O que eu pensei foi o seguinte: uma série de cartas sobre toda a sorte de assuntos, desde a imortalidade da alma ao preço do carvão, escritas por um certo grande homem que viveu aqui há tempos, depois do cerco de Tróia e antes do de Paris e que se chamava Fradique Mendes! Não te lembras dele? Pergunta ao Antero. Ele conheceu-o. Homem distinto, poeta, viajante, filósofo nas horas vagas, dilettante e voluptuoso, este gentleman, nosso amigo, morreu. E eu, que o apreciei e tratei em vida e que pude julgar da pitoresca originalidade daquele espírito, tive a ideia de recolher a sua correspondência -- como se fez para Balzac, Madame de Sévigné, Proudhon, Abélard, Voltaire e outros imortais -- e publico-a ou desejo publicá-la na "Província". Fradique Mendes correspondia-se com toda a sorte de gentes várias, all sorts of men, como se diz na Bíblia desta terra. Ele escreve a poetas como Baudelaire, a homens de estado como Beaconsfield, a filósofos como S. Antero, e a elegantes como (não me lembra agora nenhum elegante a não ser o Barata Loura) e a personagens que não são nada disto, como o Fontes.
Eça de Queiroz a Oliveira Martins, em Brístol, 10/VI/1885. In Correspondência, 2.ª ed., Lello, Porto, p. 96., apud João Gaspar Simões, Vida e Obra de Eça de Queirós, 3.ª ed., Bertrand, Amadora, 1980, p. 612.
Eça caricaturou assim o Fontes. Raphael Bordallo assim caricaturou ambos...
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