Um artigo de 17 de Julho no Jornal de Oleiros — «Acordo Ortografico? Não, obrigado» —, pelo advogado dr. António Moreira, provocou uns perdigotos dum João acordita que cuspiu, «a verdadeira base da aversão ao A.O. [de] 90 em Portugal» é o «ódio latente antibrasileiro». — Formidável! — E logo ali, como português contrito de o ser, bolça que a reforma de 1911 é que feriu os brasileirinhos durante décadas, tadinhos; a eles, pobres ostracizados, mai-la sua ortoépia (ele diz prolixamente «traços de fonética e de sintaxe levados pelos 'valentes marinheiros' e 'heróis do mar'») de antigo e genuíno sabor português. Como contraponto, a nós portugueses (quais insectos), borrifa-nos de cacofonia (ele chama-lhe «mal falar»...) pelo castiço nortenho «vâlho» e «Tâjo» (notai já agora que o étimo latino aqui é Tagus — está justificado o «a»).
Pois bem, por desfastio larguei-lhe lá uma rabecada que vai levar tempo a publicar. E por certo não na há o destinatário de entender. Mas aqui o benévolo leitor entende-me.
« Ódio latente antibrasileiro? Não desvie a questão. Porque haverão os portugueses em Portugal de sujeitar-se a uma grafia brasileira quando o Brasil firmou de livre vontade o Acordo de 45 e não honrou a palavra? Ainda agora, depois desta despropositada e desqualificada reforma [de 90], o Vocabulário da Academia Brasileira ignora imperialmente os neografismos absurdamente portugueses como "receção", "deceção", &c. [v. «Busca, Malaka! Busca!»]
Pior do que chamar ódio latente antibrasileiro ao sentimento pátrio legítimo dos portugueses (ou não podem já os portugueses pugnar pelo que é seu sem serem enxovalhados como racistas?), pior que isso, dizia, é o comprovado desprezo da Academia Brasileira pelo português legítimo (*) dos portugueses; tão legítimo como o português de qualquer outro. Foi isso que Angola tão bem entendeu e por tal se não sujeitou a ditame tão abrasileirado na forma como no motivo.
O Brasil roeu a corda ao acordo de 45 e desafio quem quere que seja a mostrar-me uma palavra de ódio antibrasileiro dos portugueses quando se isso deu em 1955. Os brasileiros sim, faltando à palavra, destilaram ódio aos colonizadores portugueses (**) esquecendo-se (ou não no sabendo entender) que os colonizadores do Brasil são aqueles mesmos que lhe regeram e regem o destino. Tratantes falhos de entendimento e sem palavra que intentam agora despudoradamente colonizar Portugal, Angola, &c.
Em suma, vergar a cerviz em 1990 a quem não teve palavra em 45 e negociar o que já fora negociado rastejar como se nada fosse é duma humilhação inqualificável. Proclamar um presidente de Portugal em 2008 o ratificar da humilhação em terra brasileira, e dizê-lo assim — e dizê-lo assim! — que foi por pressão de algo ou alguém (***), isto então é já qualquer coisa que nem sei dizer o nome! — Mas talvez venham daí os acorditas novíssimos do Restelo esclarecer-me que este presidente de ópera bufa nutre um ódio antiportuguês latente, a verdadeira base da imposição do A.O. de 1990 em Portugal.»

(O. Braga. Série d' «As Vergonhas do Malaca».)
(*) O português dos portugueses é por definição legítimo. Por mais abastardado que se torne. O mesmo se diria do brasileiro dos brasileiros...
(**) «[...] à mistura com o Acordo, segundo consta o anedotário, os distintos Senadores brasileiros consumiram largo tempo a discutir os malefícios da colonização lusitana e o ouro levado do Brasil, no tempo de D. João V [...]». António Viriato, «O Trigo e o Joio, a propósito do Desacordo Ortográfico», in Alma Lusíada, 23/III/2011.
(***) «Quando fui ao Brasil em 2008, face à pressão que então se fazia sentir no Brasil, o Governo português disse-me que podia e devia anunciar a ratificação do acordo, o que fiz.» Cavaco Silva sobre o seu papel na ratificação do Acordo Ortográfico («Cavaco elogia Acordo Ortográfico mas confessa que em casa ainda escreve à moda antiga», Público, 22/V/2012.)