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quinta-feira, 26 de julho de 2012

Ódio a quê?!...

 Um artigo de 17 de Julho no Jornal de Oleiros — «Acordo Ortografico? Não, obrigado» —, pelo advogado dr. António Moreira, provocou uns perdigotos dum João acordita que cuspiu, «a verdadeira base da aversão ao A.O. [de] 90 em Portugal» é o «ódio latente antibrasileiro». — Formidável! — E logo ali, como português contrito de o ser, bolça que a reforma de 1911 é que feriu os brasileirinhos durante décadas, tadinhos; a eles, pobres ostracizados, mai-la sua ortoépia (ele diz prolixamente «traços de fonética e de sintaxe levados pelos 'valentes marinheiros' e 'heróis do mar'») de antigo e genuíno sabor português. Como contraponto, a nós portugueses (quais insectos), borrifa-nos de cacofonia (ele chama-lhe «mal falar»...) pelo castiço nortenho «vâlho» e «Tâjo» (notai já agora que o étimo latino aqui é Tagus — está justificado o «a»).
 Pois bem, por desfastio larguei-lhe lá uma rabecada que vai levar tempo a publicar. E por certo não na há o destinatário de entender. Mas aqui o benévolo leitor entende-me.


« Ódio latente antibrasileiro? Não desvie a questão. Porque haverão os portugueses em Portugal de sujeitar-se a uma grafia brasileira quando o Brasil firmou de livre vontade o Acordo de 45 e não honrou a palavra? Ainda agora, depois desta despropositada e desqualificada reforma [de 90], o Vocabulário da Academia Brasileira ignora imperialmente os neografismos absurdamente portugueses como "receção", "deceção", &c. [v. «Busca, Malaka! Busca!»]
  Pior do que chamar ódio latente antibrasileiro ao sentimento pátrio legítimo dos portugueses (ou não podem já os portugueses pugnar pelo que é seu sem serem enxovalhados como racistas?), pior que isso, dizia, é o comprovado desprezo da Academia Brasileira pelo português legítimo (*) dos portugueses; tão legítimo como o português de qualquer outro. Foi isso que Angola tão bem entendeu e por tal se não sujeitou a ditame tão abrasileirado na forma como no motivo.
  O Brasil roeu a corda ao acordo de 45 e desafio quem quere que seja a mostrar-me uma palavra de ódio antibrasileiro dos portugueses quando se isso deu em 1955. Os brasileiros sim, faltando à palavra, destilaram ódio aos colonizadores portugueses (**) esquecendo-se (ou não no sabendo entender) que os colonizadores do Brasil são aqueles mesmos que lhe regeram e regem o destino. Tratantes falhos de entendimento e sem palavra que intentam agora despudoradamente colonizar Portugal, Angola, &c.
   Em suma, vergar a cerviz em 1990 a quem não teve palavra em 45 e negociar o que já fora negociado rastejar como se nada fosse é duma humilhação inqualificável. Proclamar um presidente de Portugal em 2008 o ratificar da humilhação em terra brasileira, e dizê-lo assim — e dizê-lo assim! — que foi por pressão de algo ou alguém (***), isto então é já qualquer coisa que nem sei dizer o nome! — Mas talvez venham daí os acorditas novíssimos do Restelo esclarecer-me que este presidente de ópera bufa nutre um ódio antiportuguês latente, a verdadeira base da imposição do A.O. de 1990 em Portugal.»


As vergonhas do Malaca
(O. Braga. Série d' «As Vergonhas do Malaca».)


 




(*) O português dos portugueses é por definição legítimo. Por mais abastardado que se torne. O mesmo se diria do brasileiro dos brasileiros...
(**) «[...] à mistura com o Acordo, segundo consta o anedotário, os distintos Senadores brasileiros consumiram largo tempo a discutir os malefícios da colonização lusitana e o ouro levado do Brasil, no tempo de D. João V [...]». António Viriato, «O Trigo e o Joio, a propósito do Desacordo Ortográfico», in Alma Lusíada, 23/III/2011.
(***) «Quando fui ao Brasil em 2008, face à pressão que então se fazia sentir no Brasil, o Governo português disse-me que podia e devia anunciar a ratificação do acordo, o que fiz.» Cavaco Silva sobre o seu papel na ratificação do Acordo Ortográfico («Cavaco elogia Acordo Ortográfico mas confessa que em casa ainda escreve à moda antiga», Público, 22/V/2012.)

12 comentários:

  1. caro amigo, na revista brasileira de origem alemã editada em Portugal que dá pelo nome de Super Interessante há pelo menos dois colunistas que das duas uma: ou não escrevem com o aborto ortográfico ou que escrevem quase como obrigados porque a coluna que escrevem é o seu ganha-pão.
    Um deles é o autor (ou autora) da coluna de literatura que não regular (pelo menos no número do mês passado não veio publicada) e no caso de escrever sob protesto contra o AO, mas obrigado por imposição laboral temos o astrofísico Paulo Afonso que explica em vocabulário comum a matéria escura do Universo e suas implicações

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  2. Inspector Jaap27/7/12 11:29

    Eu também li o artigo em causa, via blogo “Perspectivas”, que aproveito para saudar!
    Subscrevendo todo o conteúdo do verbete, caro Bic , cumpre-me apenas dizer que, se bem que, quiçá necessário, continuamos a gastar cera com maus defuntos; tão maus que é bem dessa massa que se forjam as hordas dos vendilhões quando a coisa vira; esse mesmo celenterado que cospe o veneno da maneira que se viu, estaria na primeira linha em 1580 a vociferar impropérios conta D. Afonso Henriques, que não tinha nada que subtrair esta parcela de terreno a um país que tinha muito mais população, etc, etc… e que viva o castelhano, e tal...
    Que nojo!
    Cumpts

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  3. Ninguém tem de se sujeitar a nada. Por força de lei a ortografia portuguesa não pode deixar de ser a do Decreto n.º 35.228 de 8/12/1945, com as alterações do D.L. 32/73 de 6/2. Nenhum foi revogado. Isto é bom que se saiba.
    Cumpts.

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  4. De certo que é com gente dessa qualidade que nos vamos regendo. Mas importa trazer vivo o assunto. Mormente no Jornal de Oleiros que é uma boa terra distante dos areópagos da moda.
    Cumpts.

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  5. Inspector Jaap29/7/12 11:47

    E muito justamente!
    Cumpts

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  6. obrigado pela informação porque eu ainda desconheço a legislação sobre o aborto ortográfico

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  7. A festa do mau português continua impante. A mania que o pessoal tem, incluíndo políticos, quando vai falar às televisões de não conjugar o verbo principal das orações já ultrapassou há muito os limites do mìnimamente aceitável. Há pouquíssimas excepções - o Primeiro Ministro e o Dr. Bagão Félix são duas delas. Haverá pouquíssimas mais. Trata-se de um escândalo que tem de acabar. Será esta desgraça culpa do Malaca, de Bolonha ou do Ministério de (des)Educação?
    Se os culpados deste desafôro tivessem uma gota de vergonha nos focinhos, desapareciam deste país em direcção a Marte.
    Maria

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  8. O argumentário do tal joão limita-se a reproduzir a ideia leninista do "acusa-os daquilo que tu fazes".
    Já em 1823 os brasileiros queriam mudar o nome do idioma para "brasileiro".
    A língua foi uma arma usada pelo nacionalismo daquele país que é fortemente anti-português.
    O que nunca terão pensado - daí a violência do argumentário - foi que o estado português e os seus representantes ( de que se destaca cavaco bnp silva) tivessem tão pouca noção dos seus deveres para com o seu País e acedessem, de braço dado com a maçonaria, a este crime.

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  9. Por força da Lei, do Direito - que é diferente de dispositivo normativo - e do bom senso.

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  10. Sim, sim. Isso tudo. Muito bem posto.
    Obrigado.

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  11. Altamirano19/8/12 16:14

    Ódio anti-brasileiro? Da parte dos portugueses? Devem estar a brincar. Infelizmente o que sucede é precisamente o contrário, uma abertura e condescendência para com o Brasil da nossa parte que não é nada saudável, ainda por cima quando eles possuem um visceral ódio anti-português que qualquer português com acesso à Internet pode constatar (mas isto é só uma amostra...).

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  12. Pois é. Mas dá impressão que só aos portugueses é vedado serem nacionalistas, por xenofobia. O nacionalismo dos outros nunca é tal.
    Cumpts.

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