Em Portugal devemos ser muito ricos. Muito ricos ou loucos. Só gente muito rica ou demente pode ser perdulária assim... — Veja o benévolo leitor! Veja as soberbas mísulas que suportam as varandas das casas geminadas. — Sabe o que lá fizeram?
Av. da República, 25-33, Lisboa, post 1908.
Paulo Guedes, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
Esta parte de Lisboa - Avenidas da Liberdade, Fontes Pereira de Melo, 5 de Outubro e República - lembra-me cada vez mais as feias, frias e incaracterísticas cidades da zona ocidental da Alemanha. Porém, no caso destas últimas, até se percebe qual a razão de ser da sua falta de homogeneidade: as pavorosas destruições causadas pelos bombardeamentos aéreos da II Guerra Mundial e a subsequente reconstrução apressada - por razões de maximização económica - operada ao longos dos anos 50/60. Ora, não tendo Lisboa sofrido qualquer bombardeamento aéreo, nem Portugal intervindo na II Guerra Mundial, ainda mais difícil se torna perceber racionalmente a amplitude da destruição constatada na capital portuguesa. E isto dá muitíssima pena, quando nos recordamos que cidades que ao longo do século XX tiveram uma existência muito mais atribulada que a de Lisboa, têm a quase totalidade do seu património histórico perfeitamente salvaguardado. Assim de repente, recordo-me de Barcelona, Paris, Praga ou Budapeste.
ResponderEliminarEntretanto, fui "passear" por aquelas bandas. Vejamos a coisa pelo lado positivo: a farmácia continua no mesmo sítio...
ResponderEliminarhttp://maps.google.pt/maps?hl=pt-PT&bav=on.2,or.r_gc.r_pw.r_qf.,cf.osb&biw=1024&bih=600&wrapid=tlif134346896179810&q=avenida+da+rep%C3%BAblica,+n%C2%BA+25,+Lisboa&um=1&ie=UTF-8&hq=&hnear=0xd19330a81bbebb9:0x31599e6cd4d4f262,Avenida+da+Rep%C3%BAblica+25&gl=pt&sa=X&ei=wbUTUIiKGoWkiQfN-ICADQ&ved=0CAcQ8gEwAA
Algo perene. Uma boa notìciazinha, apesar de tudo.
ResponderEliminarCumpts.
A Av. da República era uma preciosidade no que à urbanização e construção em geral, diziam respeito. Prédios e moradias, havia-os/as múltiplas e lindíssimas. Era muito novinha mas lembro-me perfeitamente de lá passar com a minha mãe e ficar maravilhada com o seu esplendor. Cada uma era mais elegante e bela do que a anterior. As demolições começaram, se não estou em erro, já antes dos abrileiros cá porem as 'patas', mas em pequeníssima escala, porque tenho ideia de haver imensas casas e moradias do fim do séc. dezanove e princípios do vinte ao longo desta Avenida. Art Nouveau e Art Decô havia-as às dúzias, mais aquelas do que estas. Tanto o eram moradias como edifícios de poucos andares. O pior veio depois d'Abril. Realmente quem pratica tais crimes de lesa-património merecia a prisão.
ResponderEliminarTudo quanto estas nefandas criaturas fazem ao chegar às 'democracias', que ademais os mesmos impõem à força, entre outros males e em troca dos milhões que as construtoras lhes metem nos bolsos (corruptos e corruptores, que são), é destruir tudo o que de valioso e belo possa existir nesses países. Duma cajadada matam dois coelhos: primeiro destróiem a anterior sólida e correcta urbanização substituíndo-a por construções pavorosas, estradas pèssimamente alcatroadas, passeios horrendamente calcetados cujos primorosos desenhos precedentes, em calcário branco e preto, são/foram mal e porcamente restaurados ou pura e simplesmente descartados; depois e ainda não satisfeitos com o descalabro, em simultâneo tentam apagar da vida das populações, neste caso de Lisboa, "lembranças de tudo quanto seja estèticamente magnificente" o que as reportaria d'imediato para o 'antigamente' - coisa tenebrosa!, como sabemos - forçando-as de um modo subtil a esquecer hábitos e tradições, tais como agradáveis passeios e visitas turísticas de naturais e estrangeiros, pelas avenidas, praças e lugares mais emblemáticos da cidade, para, por exemplo, tirar fotografias na (que foi) belíssima avenida da República e/ou a tomar uma chávena de chá nas prestigiadas pastelarias ou almoçar/jantar em óptimos e elegantes restaurantes - vide a inigualável Versailles - que felizmente se conserva quase igual - onde tantas vezes fui (e ainda vou, mas agora raramente porque me fica distante) lanchar e também almoçar com a minha Avó e minha Mãe - que ombreavam com os magníficos restantes estilos arquitectónicos, os quais deixaram uma marca indelével na cidade de Lisboa e que, graças aos seus competentes governantes, autarcas e habitantes, foram durante décadas e décadas religiosamente preservados. Até que, para mal dos nossos pecados, chegaram os malditos do presente.
Olhando à volta e verificando a calamidade que se me depara a cada esquina, recordo com uma saudade infinita a grandeza de Lisboa doutros tempos e a completa decadência em que, desde há três décadas, se foi tornando aquela que já fora considerada a cidade mais limpa e uma das mais bonitas da Europa. Perante todo o mal que os governantes permitiram e os autarcas (todos eles 'democratas' da mais pura água) executaram em Portugal inteiro e muito particularmente em Lisboa, aproveito para deixar um intenso queixume que perpassa num só verso de uma famosa e linda canção romântico-poética d'Aznavour e que traduz à perfeição o meu estado d'alma relativamente a esta cidade adorada: "... je te regarde... et mon coeur au bout des larmes".
Obrigada por nos trazer tão fantásticas fotografias. Que o são pela impecabilidade dos ângulos, pela sua beleza intrínseca, pela nitidez d'imagem e pela mestria como foram tiradas.
Maria
A desgraça desta zona da cidade remonta à segunda metade dos anos 60 e ao mau gosto da construção de pato-bravo então prevalecente, característica da época marcelista. A inflação do pós-25 de Abril e a especulação imobiliária iniciada na segunda metade dos anos 80 prosseguiram tal desgraça, e acabaram o serviço que aqueles patos-bravos haviam iniciado.
ResponderEliminarO que me diz resume tudo muito bem. O crescendo de estupidez e de falta de cultura continuam a espiral de destruição. Fazemos tudo sem guerra e matamo-nos a alma. É assim acabamos.
ResponderEliminarMuito triste!
Cumpts.
O clamor azedo dos antigos contra o odioso prédio de rendimento nas avenidas novas parece harmoniosa melodia aos meus ouvidos. Tornassem eles cá morriam outra vez...
ResponderEliminarCumpts.
Cara Maria:
ResponderEliminarA galinha da vizinha é sempre melhor (pior?) que a minha.
Ao que vejo, somos confrades na desgraça; tendo lido atentamente este seu belo trecho, sempre lhe digo que me aconteceu a mesmíssima coisa em relação à minha querida Av. dos Aliados da bela cidade “Inbicta”, depois das obras do Metro do Porto e do programa Polis/ Porto, capital da Cultura, etc, etc, a saber:
Onde estão os passeios e a sua magnífica calçada portuguesa de que os tripeiros tanto se orgulhavam e os estrangeiros tanto gostavam e elogiavam???
Onde param os magníficos jardim que embelezavam a sua divisória central???
Quando ela voltou a estar disponível ao público e lá pude voltar, pois foi também o que me aconteceu, “Je te regarde… et mon cœ au bout des larmes” e não me envergonho de tal.
Ficaram intactos (ou quase) os edifícios, mas, com as montras do que já foi a nata do comércio portuense, vazias, sujas, quando não entaipadas e, para variar, devidamente grafitadas… Hoje, chega-se lá, fecham-se os olhos, e poderemos estar numa qualquer europeia cidade descaracterizada, dessas de que se fala acima e com toda a propriedade; para completar o quadro, o “assassínio” desta pérola, teve como autor um arquitecto (se calhar, “arquiteto” filho da cidade…
Tristes tempos estes que vivemos.
Obrigado pelo seu contributo.
Obrigada sou eu pelo seu comentário.
ResponderEliminarBem a propósito: porque é que os tripeiros não se juntaram em bloco para se manifestar contra esse atentado urbanístico, um crime de lesa-património, indubitàvelmente?! É que a cidade do Porto, embora tendo só estado lá de passagem, não a conheço o suficiente para me manifestar a favor ou contra, mas pelo que me dizem desde há muitos anos e também pelo que vejo nas reportagens e documentários, é uma maravilha em todos os aspectos, fazendo lembrar - no tipo de construção e pelo belo e acinzentado granito com que foram edificadas - até a estatuária da cidade também é granítica, se não estou em erro - algumas cidades da Grã-Bretanha, ainda que neste caso com materiais completamente diferentes, naturalmente.
Pois, digo isto mas contra os lisboetas falo. Mal fizeram estes, logo no início quando o camartelo entrou furiosamente em acção, ao não terem protestado violentamente contra actos sucessivos desta índole relativamente ao seu valioso património arquitectónico e urbanístico, hoje destruído irremediàvelmente.
Agora é tarde demais para as duas cidades e porventura para o país. Já nada do destruído pode ser recuperado.
(Aos responsáveis deste inferno) malditos sejam e diabos os levem.
Maria
Terá sido então como diz.
ResponderEliminarA todos eles, aos patos bravos de ontem e aos seus zelosos seguidores de hoje, apenas um conselho: ponham-se na alheta antes que os portugueses acordem do longo torpor, caiam em si e vos chamem à pedra pelos crimes cometidos. Patrimoniais e urbanísticos. Mas não só.
Maria
Aquilo foi mais um caso de fazer as coisas “à surrelfa ”; eu ouvi uns zunzuns, mas nada de concreto; quando vi é que me caiu o coração aos pés; acho que os tripeiros foram “levados”.
ResponderEliminarAgradeço, em nome de todos os tripeiros, os elogios que faz à cidade de Porto que é maravilhosa, como muito justamente diz, e, uma coisa rara, tem carácter; ora acontece que parte dele foi delapidado pelo camartelo, como muito apropriadamente diz.
No que respeita à estatuária, tem a minha Amiga toda a razão; para utilizar a classificação oficial do Guia Michelin, “vale a viagem”; por que não vem até cá para lho poder demonstrar “in loco”?
Prometo brevemente mandar-lhe umas ligações que ilustram tudo o que disse.
Cumprimentos.
P.S. Dei agora por uma gralha tipográfica, fruto da pressa com que lhe respondi: leia-se cœur, naturalmente!
Cara Maria:
ResponderEliminarCantando um filho do Porto, "o prometido é devido" e os tripeiros (mesmo de adopção, como é o meu caso) não gostam de dever; assim, cá vão as ligações prometidas:
O antes:
http://www.google.pt/imgres?q=avenida+dos+aliados&hl=pt-PT&sa=X&rlz=1C1GGGE_pt-PTPT462PT462&biw=1440&bih=755&tbm=isch&prmd=imvns&tbnid=tySRw9_g3x0nGM:&imgrefurl=http://www.panoramio.com/photo/208023&docid=5HB_ig8TsOwlBM&imgurl=http://mw2.google.com/mw-panoramio/photos/medium/208023.jpg&w=500&h=375&ei=WsEWULbML9O7hAez74DQDA&zoom=1&iact=hc&vpx=1140&vpy=290&dur=142&hovh=194&hovw=259&tx=106&ty=121&sig=106240798084931734192&page=2&tbnh=133&tbnw=195&start=15&ndsp=30&ved=1t:429,r:23,s:15,i:207
http://www.google.pt/imgres?q=avenida+dos+aliados&hl=pt-PT&sa=X&rlz=1C1GGGE_pt-PTPT462PT462&biw=1440&bih=755&tbm=isch&prmd=imvns&tbnid=I_zadkM-olIZ5M:&imgrefurl=http://magisterio6971.blogs.sapo.pt/2006/01/&docid=UjlYoDdmPVUBqM&imgurl=http://magisterio6971.blogs.sapo.pt/arquivo/avenida.jpg&w=480&h=360&ei=4MEWUNPOGNSJhQfppYCwDg&zoom=1&iact=rc&dur=356&sig=106240798084931734192&page=1&tbnh=167&tbnw=249&start=0&ndsp=15&ved=1t:429,r:13,s:0,i:126&tx=118&ty=84
http://www.google.pt/imgres?q=avenida+dos+aliados&hl=pt-PT&sa=X&rlz=1C1GGGE_pt-PTPT462PT462&biw=1440&bih=755&tbm=isch&prmd=imvns&tbnid=mWpk3-RFaY1xfM:&imgrefurl=http://monumentosdesaparecidos.blogspot.com/2012/05/jardins-da-avenida-dos-aliados-porto.html&docid=2JmqgSpU9aCs7M&imgurl=http://1.bp.blogspot.com/-xh7yqor1GaI/T8JL3wlhhTI/AAAAAAAAEaU/Yq5pPXPHXI8/s1600/Aliados%252Bvarios%252Bangulos.jpg&w=650&h=458&ei=4MEWUNPOGNSJhQfppYCwDg&zoom=1&iact=rc&dur=301&sig=106240798084931734192&page=3&tbnh=136&tbnw=181&start=45&ndsp=35&ved=1t:429,r:10,s:45,i:262&tx=27&ty=100
e o depois:
http://www.google.pt/imgres?q=avenida+dos+aliados&hl=pt-PT&sa=X&rlz=1C1GGGE_pt-PTPT462PT462&biw=1440&bih=755&tbm=isch&prmd=imvns&tbnid=0l4wbXJzMH6hPM:&imgrefurl=http://www.cm-porto.pt/gen.pl%3Fsid%3Dcmp.sections/63&docid=Yx0MBcrIYvfGJM&imgurl=http://www.cm-porto.pt/users/0/58/18aa83cc.jpeg&w=1024&h=727&ei=WsEWULbML9O7hAez74DQDA&zoom=1&iact=rc&dur=257&sig=106240798084931734192&page=1&tbnh=162&tbnw=226&start=0&ndsp=15&ved=1t:429,r:1,s:0,i:88&tx=67&ty=97
E, quanto à calçada portuguesa, olhe só o que a veio substituir:
http://www.google.pt/imgres?q=avenida+dos+aliados&hl=pt-PT&sa=X&rlz=1C1GGGE_pt-PTPT462PT462&biw=1440&bih=755&tbm=isch&prmd=imvns&tbnid=4ITNsWd_aekioM:&imgrefurl=http://palavras-arquitectura.com/2007/01/23/avenida-dos-aliados/&docid=I4cHTCt-YzBthM&imgurl=http://asimplemind.wordpress.com/files/2007/01/aliados_07.jpg&w=500&h=291&ei=gMQWULu1C8Ow0QWg9ICgDg&zoom=1&iact=rc&dur=351&sig=106240798084931734192&page=3&tbnh=96&tbnw=165&start=45&ndsp=35&ved=1t:429,r:4,s:45,i:243&tx=68&ty=44
palavras, para quê?
Cumprimentos
Uf! Vai ser moroso mas muito compensador ver todas estas ligações! Contudo demorarei algum tempinho, isso é certo. Muito agradecida pela sua intensa pesquisa, I'm sure!
ResponderEliminarMaria
Take your time... there is no rush, whatsoever!
ResponderEliminarE, no que respeita ás ligações, é só copiá-las uma por uma e colocá-las no seu navegador... e já está!
Cumprimentos
Estas duas moradias geminadas são uma beleza. Assim como o é a que imediatamente se lhes segue. A perfeição e os pormenores da construção e dos materiais nobres usados, as linhas impecáveis (já em plena ART DECO), as bem concebidas e delicadas varandas envidraçadas, aquelas peanhas (ou mísulas) que suportam dois pequeninos e bonitos elefantes esculpidos, também em pedra, tudo aqui está perfeito e em harmonia.
ResponderEliminarQuem dera que voltassem a fazer prédios e moradias com esta categoria.
Olha-se para esta foto e mais parece estarmos perante três casinhas em miniatura, daquelas raras e caríssimas que se encontram em antiquários de luxo, tal o realismo que irradiam mesmo tratando-se de uma foto. Foto que aliás possui uma qualidade sem par.
Grandes arquitectos, esses, dos tempos que já lá vão. Mas como aqueles infelizmente não os haverá mais.
Maria
É uma cidade irreal, não lhe parece?
ResponderEliminarTempos paupérrimos, os de hoje.
Cumpts.
Nessas 2 vivendas /palacetes vivia a familia Portela(medicos e advogados), no predio do lado direito nº 33 viviam pessoas menos ricas . No 3º andar vivia a mãe da atriz Maria do Ceu Guerra, no 2º andar vivia uma velhota D.Cacilda e filho Francisco Chaves (caixa no BES Saldanha) No 1º andar vivia uma medica Ginecologista e marido com 2 filhas , no r/c vivia um Comandante da avição venuzuelano , mulher e filhos e na cave que são as 2 janelas rentes ao chão eu , a minha avó (costureira), a minha mãe (domestica) e o meu pai (funcionario publico). No predio (onde era uma farmacia)antes das vivendas viviam varias pessoas de rendimentos medios mas tinham filhos a estudar nas escolas oficiais e não em colegios privados. Naquela avenida havia varios tipos de pessoas os ricos,os medios e os remediados. Finalmente aqueles 2 palacetes já vinham do tempo dos reis e aquela familia apenas comprou.No predio ao lado nº 35 que não se vê na foto viviam desde policias a bombeiros e professor ....enfim outros tempos
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