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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Do Pátio do Salema a Belfast ou de enfiar ou não a cabeça no saco

 A Irlanda está em polvorosa. Um selvagem importado como refugiado quase cortou a cabeça a um irlandês do Ulster. Foi mesmo assim: queria decapitá-lo, embora o noticiário institucional o conte como «tentativa de homicídio após ataque brutal com faca». Nada de decapitações, portanto. Salvo decapitar a notícia…
 Onde já ouvi eu duma história assim?!…
 Olha! No Pátio do Salema. Ali quando se vem do Largo de São Domingos, encosta de Sant' Anna acima. Não houve por lá um cadáver achado sem cabeça? O caso deu nas notícias por cá e teve um ou dois episódios. Diz que dias depois a cabeça foi entregue pelo… 
 (Como se chamará um indivíduo que corta cabeça a outros? Não há palavra específica, pois não? Talvez de não ser necessária; o vocabulário tende a seguir os hábitos e as tradições da gente, não é? O que não existe não carece de palavras. — Os papuas da Nova Guiné, os malaios de Sarawak ou os indonésios das bandas lá de Timor tinham certas tribos de caçadores de cabeças… Tudo uma raças de gente normalmente vistas com as fuças e os lombos retintos de desenhos e pinturas guerreiras e ossos cravados nas ventas e nas beiças. Mais ou menos como o que se vem vindo a ver nos nativos das cidades da ex-Europa de há uns aninhos para cá?)
 À falta de de nome, tornemos ao nosso cortador de cabeças do Pátio do Salema. Diz que era estudante, dum poiso qualquer de África, já me não lembra qual. É bonito! A notícia a dizer que era estudante amacia muito o macabro da coisa e o facto — que era o que eu ia a dizer — de ter entregue muito diligentemente a cabeça num saco de plástico no banco do Hospital de S. José dias depois.
 No meio deste episódio macabro  aduziam os jornalistas à notícia que o homicida se enraiveceu com o sujeito que acabou sem cabeça por causa dumas certas propostas, aliciamento ou tentativas de levar a cabo consigo actos de…paneleirage. É um pormenor importante, este, porquanto é sabido como certa gente de África, das Arábias ou doutras paragens até para lá de Marte encara a paneleirage: aquilo merece castigo a preceito;  cabeça fora, no mínimo! A coisa tem tanto de natural para essa gente alienígena como água do Luso e a sêde naquele velho anúncio da televisão. E só assim se compreende.
 E é preciso que todos compreendamos.
 Vai daqui e ligando as pontas, pode bem ser que o britânico da Irlanda do Norte que por pouco ia ficando sem cabeça às mãos do selvagem asilado em Belfast (diz que oriundo do planeta Sudão, na constelação subsariana das Áfricas) haja sido vítima da pena de tabela ou do catálogo daquela civilização alienígena para este crime de paneleiragem. Uma coisa que na pré-história dos naturais da Europa também se viu — embora dela não conste cortar fora cabeças, que se saiba — mas que com o tempo foi polida dos maus aos bons costumes pela civilização. Ùltimamente tem-se-a visto muito bem lavada pelo Omo da imprensa, e meigamente amaciada pelo Soflan do orgulho. Tornou-se quási um dever de virtude teologal, quando não um devir teleológico depois do fim da Era Cristã.
 Ponho o caso assim, mas não passa duma minha mera conjectura. Um devaneio de extrema perturbação psicológica, concedo, à luz da cultura que se impõe. 
 O que resta dizer é que o estranho caso do cadáver decapitado no Pátio de Salema, em Lisboa, passou à opinião publicada como mais uma dessas excentricidades de faca e alguidar. Nessa medida não despertou na opinião pública mais que a costumeira coscuvilhice com que se olha diàriamente para as gordas da primeira página do Correio da Manhã. — Gordas, incluindo as do pontapé na bola e a fotografia da lasca despida que compõe o guião. 
 Como tal, nem a entrega formal da cabeça do decapitado pelo cortador dela no banco do Hospital de S. José não passou disso mesmo: um elemento do guião da notícia e o último passo do institucional procedimento administrativo em vigor. Ver-se no jornal, meses depois, que o tal estudante procurou diligentemente entregar a cabeça cortada no Centro de Saúde da Alameda antes de ser dali encaminhado para o banco de urgências do Hospital de S. José é a necessária notinha de rodapé, típica, dos despachos destes aborrecimentos burocráticos pelo funcionalismo público oficial.
 Pois foram burocracias e procedimentos administrativos indiferentes às necessidades e clamores dos povos que revoltaram agora os Irlandeses, fartos de os obrigarem a olhar quietos e cheios de bondade para decapitações como estas na sua própria pátria por estranhos doutras galáxias.

 Para o caso, as capas de três matutinos portugueses de hoje: nem um pio.

«Público», «Jornal de Notícias», «Diário de Notícias», Portugal, 11/VI/2026

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