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domingo, 10 de junho de 2018

Saudades da Pátria

 Há uma história do prof. Hermano Saraiva, contada por quem no acompanhava nas filmagens de seus programas, em como ele «obrigou» a equipa a filmar num 10 de Junho, dia feriado, porque era o próprio dia de Portugal e de Camões, tema inspirador do programa.
 Creio que o programa há-de ter sido este, das Saudades da Pátria, gravado no próprio dia de Camões de 2003.
 O prof. Hermano Saraiva era mesmo assim: para si, tempo e espaço da História, que o tanto inspirava no presente, fundiam a própria alma e a gente que a fez (à História) consigo, que a eloquentemente contava; uma coisa mística, onde o professor encontrava a sua própria inspiração para chegar ao seu mais verdadeiro sentir do passado — neste caso, do Poeta, cujo dia comemorava. Um rito como que de abrir uma porta temporal para ir ao encontro de Luís Vaz, de Portugal, da Gesta: eis a Alma e a Gente, sua, nossa.



José Hermano Saraiva, Saudades da Pátria
(A Alma e a Gente, I-21, R.T.P., 12/VII/2003.)

*   *   *


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(Canção XIII, i.é Canção IX — na ed. de 1595)

12 comentários:

  1. Mais logo, se tiver tempo, deixarei aqui uma notinha sobre este excelso Historiador e Grande Português cujos belíssimos programas televisivos (sem esquecer os seus livros de História) tanto nos maravilharam.
    Maria

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  2. Este programa, invocando um canção autobiográfica de um Camões perdido, entediado, desesperado, em 1555,

    Junto de um seco, fero e estéril monte,
    inútil e despido, calvo, informe,
    da natureza em tudo aborrecido;
    onde nem ave voa, ou fera dorme,
    nem rio claro corre, ou ferve fonte,
    nem verde ramo faz doce ruído [...]


    ... imagem viva da tórrida, árida e inóspita região entre o corno de África e a Arábia, na embocadura do Mar Roxo (moderna e menos encatadamente Mar Vermelho), quase nos quase leva a sentir na pele a solidão desoladora que tocava o Poeta experimentou desgarrado ali naqueles dias e semanas da navegação das portas do estreiro. Camões há-de ter escrito a canção XIII duma penada, entre o tédio desinspirador do mar alto no golfo de Adém, a caloraça iemenita, e a saudade que lhe aflorava nas gotas de suor que lhe desciam nas frontes com toda aquela desolação.
    O cenário pedregoso do Cabo Espichel foi um achado para materializar a cinco séculos de distância o que deve ter visto Camões nalguma aguada da armada em que seguia por aquelas costas, ali, naquele ano de 1555.
    Eis uma vez mais o tempo e a alma unindo tão eloquentemente o prof. Saraiva e a História de Portugal. A nós, basta deixarmo-nos ir na sua boleia.

    Cumpts.

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  3. Que bonito o que escreveu. Parabéns.

    Esta nota vai abreviada, mais tarde alongar-me-ei um pouco mais sobre a maravilha que era ouvir o Prof. Hermano Saraiva a descrever os mais relevantes períodos da nossa Gloriosa História de um modo extremamente interessante e que encantava não só os portugueses em Portugal como os milhões espalhados pelo mundo, os quais, eu sei, não perdiam um único episódio das várias séries sobre o mesmo tema que o Professor havia concebido e apresentava como só ele o sabia fazer.
    Maria

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  4. Havia de tê-lo relido mais uma vez. Demaisadas gralhas.
    Paciência!
    Mas, obrigado! É sempre generosa demais comigo.

    :)

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  5. Não vi gralha alguma, mas pronto:-)
    Maria

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  6. "... gralha alguma no seu texto", queria eu dizer!
    Maria

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  7. ... menos encantadamente...
    quase nos leva a sentir na pele a solidão desoladora que o Poeta experimentou desgarrado ali naqueles dias e semanas da navegação das portas do estreito.


    ----

    E veja o aspecto do cabo de Guardafui...

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  8. Uma pequena maravilha!
    Maria

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  9. Deixe-me ser mais específica.

    Estava-se então perante Terras desoladoras e inóspitas e tremendamente tristes, exactamente como Camões as encontrou e tão bem descreveu. Mas visto com olhos do presente e por estranho que pareça vejo nelas qualquer coisa de belo. Talvez diga isto por saber que o nosso Herói por lá andou e tanto penou, mas onde de certeza deixou um pedacinho da sua alma, tão grandiosa quão inquieta e sofredora.

    O vídeo que deixou e que mais uma vez adorei, embora já o tivesse visto na altura em que passou na TV e ainda voltei a vê-lo tempos depois, é uma verdadeira obra de arte não só pelo conteúdo selecto, mas também e sobretudo pela paixão patriótica contagiante como o Professor o apresenta.
    Maria

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  10. Não posso deixar de me penitenciar por uma falha minha inicial. Acredite que só ontem fui ver as lindíssimas imagens em sequência do Cabo de Guadarfui, tal como é no presente.

    Claro que vi logo a primeira que postou, de uma/s montanha/s árida/s e agreste/s e mentalizei-me ser a única que havia para ver!!! "Erro meu, má fortuna", mas tratou-se sobretudo de uma distracção minha inadmissível. É o que dá ter pressa. Tinha que sair e antes disso queria ler ainda alguns textos. Mas o pior, mesmo, é que pensei estùpidamente não haver mais imagens para ver..., mas sobretudo ter pouca experiência(ainda) para abrir d'imediato PDF's e preciosidades internéticas do estilo.

    Escusado será dizer que as seguintes imagens são lindas de morrer. Um sonho de praias(?) a perder de vista e de um mar calmo e um céu azul deslumbrante. Na verdade hoje o tal Cabo de Guardafui deve ser um lugar deslumbrante.
    Maria

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  11. Aqueles mares andam infestados de piratas. A nossa Marinha de Guerra tem andado por lá integrada numa qualquer «força internacional», a única coisa que ainda permite que haja Forças Armadas neste rectângulo do futebol cervejeiro e brunícola.

    No tempo de Camões patrulhávamos nós, os portugueses, por inteiro para tolher o comércio turco do Oriente ao Mediterrâneo através do Mar Vermelho. A ilha de Socotorá, ante o cabo de Guardafui, foi conquistada em 1507 e construímos lá um forte, parece que com madeira aparelhada levada de Portugal. Mas a aridez daquelas terras, a fome que assolava as guanições, a dificuldade dos abastecimentos e a inospitalidade da moirama circundante levaram ao desmantelamento do forte.
    Camões andou por lá nestes trabalhos. Do que descreve na canção, desesperou.

    Cumpts.

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  12. Uma pequenina informação que é uma delícia de se ler. Obrigada por esta sua preciosa achega.
    Maria

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