Fado de abertura do último programa musical com D.ª Maria Teresa de Noronha na Emissora Nacional, acompanhada pelo conjunto de guitarras de Raul Nery. Apresentado por D. João da Câmara, o programa gravado em 20 ou 25 de Dezembro de 1962, conforme as fontes, só terá ido para o ar na quarta-feira seguinte, 26 de Dezembro, às 22h25, seu dia e hora habitual. Neste programa de despedida, D.ª Maria Teresa de Noronha esmerou-se na escolha do repertório e abriu com este «Fado da Verdade» numa resposta pronta às ideias então defendidas aos microfones da mesma E.N. por Luís Moita, de que o fado era uma «canção decadente da raça», «dormente» e duma «degradante melancolia», ideias que veio a publicar no seu livro «Fado, canção de vencidos». D.ª Maria Teresa de Noronha contrapõe honestamente no «Fado da Verdade» que «é heresia e é pecado dizer tal coisa do fado» e que «quem do fado diz mal, não nasceu em Portugal ou, sem querer, falta à verdade.» Nas palavras de Nuno Lopes (Inéditos Para A História do Fado, Fundação Manuel Simões, Estoril, 2008), «uma clara profissão de fé da fadista que na hora do adeus terá feito questão de acentuar o seu amor a esta canção terna e declara que abençoado país que tem tal preciosidade».
M.ª Teresa de Noronha — Fado da Verdade
(Joaquim Campos, D. António de Bragança)
Houve alguém que disse um dia
Que o fado adormecia
Os que ouvissem seus gemidos
Que o fado tira energias
Que nos leva as alegrias
Que é uma canção de vencidos
É heresia, é pecado
Dizer tal coisa do fado
Fazer tal afirmação
Se o fado é triste cantar
Ele apenas faz chorar
A quem tem um coração
E quem do fado diz mal
Não nasceu em Portugal
Ou sem querer, falta à verdade
O fado, cantar tão terno
Não acaba e é eterno
Para nossa felicidade
Não faz ninguém infeliz
Abençoado País
Que tem tal preciosidade
Do amor, ele é irmão
Tem por pai o coração
E por mãe tem a saudade
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