Havia um com boca de xarroco que se estava a cagar para o segredo de justiça, não é verdade?
Pois este não é menos boca de xarroco. Só se está cagando mais em geral.
Em 6 de Janeiro do ano de 18 escrevi «O prestidigitador da vantagem» sobre o intruja que se já via este Sentino.
Vou cá traçar-lhe outra vez o retrato.

A imagem deformada acima é por haver sido tirada de esguelha à televisão duma vez que ele estava a dar. Não teve maldade. Tem ainda o mérito de mostrá-lo com arzinho de ter comido um calduço como os que apanhava na escola, até das tipas, quando ia abrir a boca e mesmo antes que saísse asneira. É um retrato cru da alma em estado puro que viu no trabalhador português uma mercadoria barata para oferecer em saldo a qualquer gestor que quisesse pagar pouco.
Portugal é bom para fazer investimentos porque «os portugueses são os que mais horas trabalham na Europa», além de serem muito baratos quando comparados com os franceses, por exemplo — disse ontem o ministro das Finanças a uma plateia de gestores, em Lisboa.
(Luís Reis Ribeiro, «Centeno: portugueses trabalham muito e são baratos», in Diário de Notícias, 16/VI/16.)
Pois chegou a ministro das Finanças.
Com aquela conversa esta alma deve ter vivido à grande, como negreiro, nalguma encarnação passada. Neste século reencarnou mais ou menos no mesmo. Para não entrarmos em linguagem chula, chamemos-lhe só videirinho. O caso é que do antigo negreiro ao moderno videirinho pode haver diferença, mas não no que toca a mamar por conta.
E em mamar à grande nunca se fez rogado. Nem ainda agora faz. O Sentino é mesmo um lambão.
Em tempo cravou descaradamente bilhetes para um Benfica-Porto, Nada menos que para o camarote real (i.é, presidencial que isto cá é uma república).
A coisa deu brado na imprensa e o artifício do aldrabão, à época, foi explicar à gente barata que trabalhava muito (nós) e que era por isso posta à venda ao desbarato (por si, qual negreiro) que um bilhete para o camarote presidencial do Benfica «não tem valor por não estar à venda».
(Alguém que lhe falasse do que não está à venda!…)
É como dizer que o ar não tem valor porque é de borla. Mas o ar tem valor para quem o respira, e mais que isso para quem o exala para traficar influências.
Com esta mesma lábia de traficou-se ao Eurogrupo, que o comprou!
Lembra-me de na ocasião uma TV nos vender o gajo com uma reportagem bonita, típica das da bola à porta do estádio. Um pé de microfone foi mandado à terrinha do então novo «herói» do Eurogrupo, entrevistou lá um colega de escola, a empregada (fino!) e mais um cão ou gato que havia inter-àààgido com a vedeta enquanto moço. Rejubilámos todos em ficar a saber dali que o gajo fôra campeão da carica lá na Vila Real de Santo António e que comia quatro carcaças com manteiga ao pequeno almoço.
Um lambão, já então, em moço.
Só faltou saber se o leite era com Toddy ou com Nesquik. Mas certamente que beberia a lata toda.
Soubemos que este campeão da carica se reformou agora, aos 59 aninhos, por c. 10 000 € (em dinheiro, 2 000 contos!) Por mês.
No tempo do Vasquinho da Anatomia, a fortuna das tias ricas eram oitocentos contos. — Oitocentos contos! — repetia o alfaiate. — Oitocentos contos que eram a fortuna duma vida. Ou duas, que duas eram as tias.
Hoje, este Sentino, com 2/3 ou menos dela reforma-se com dois mil deles, contos, após estas histórias e mais outras de cativações que não de austeridade, e com alta noção dos compatriotas, que trabalham muito e são baratos. Pouco lhe importará é que hajam de continuar a trabalhar muito e barato até poderem reformar-se só quando forem da idade. Prova de que o carácter do negreiro se não perdeu, apenas se refinou em chulo do erário.
É só mais um, desgraçadamente.
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