
[Quem não viu Lisboa, não viu] Coisa Boa, Gare Marítima de Alcântara, 1943-1945.
Painel de Almada de Negreiros; fotografia de M. Novais, s.d.
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Quem não viu Lisboa, não viu. Não viu e já não vê. Nos alvores dos anos 90, que vi, vivi, e já desencantava comparada àquela Lisboa doutras eras, como diz o verso, essa mesma uma Lisboa que não vi nem vivi, mas que era de encanto. A dos 90, mesmo desencantada, ainda era Lisboa, mas só vejo agora [vi vai para um ano, recorda-me agora].
Porém, agora, hoje, já não há Lisboa. Houve, mas acabou. Esta «Lisboa» entre aspas e só de nome, por inércia. Perdeu a graça, mas cuida-se em glória…
Glória…
Glória dum progresso de brinquedo. Brinquedo para excursionistas basbaques e a fazer muito, mas muito arranjo aos ladrões da caixa das esmolas que se desunham à fossanga no meio desta merda toda.
Lisboa tornou-se num parque de diversões. Não é uma cidade. É uma grande Alfácia Disney para os sapiens de fora virem brincar, com os alfacinhas a fazerem de trombalazanas de jardim zoológico: tocam a sineta se lhe derem uma moedinha. Se o parque de diversões se estraga é que é o diabo. Lá se descobre a fraude.
(Revisto e publicado de novo ás quatro e meia da tarde porque o borrão de antes de almôço foi à pressa e… as sardinhas estavam ao lume.)
Tenho para mim que Lisboa se começou a descaracterizar em meados dos anos 60, facto que infiro, pois não me recordo desse tempo, pelos mamarrachos que então começaram a ser semeados nas Avs. da República, Liberdade, Cinco de Outubro e outras mais. O 25 de Abril, e deste já me lembro bem, agravou mais tal situação, fazendo de Lisboa uma cidade feia, porca e mal cheirosa, desprovida de urbanidade e com notórios laivos de terceiro-mundismo; não obstante, o "espírito lisboeta" a que aqui alude terá sobrevivido, ainda que de forma reflexa e cada vez mais debilitada, até ao começo deste século, tendo desaparecido com a desaparição da última geração que o personificava (a das pessoas nascidas no período entre guerras, a de uma Lisboa ainda dos pequenos comércios e serviços de bairro).
ResponderEliminarNão se engana.
ResponderEliminarAs demolições e as mutilação de fachadas para montras de loja e bancos são dessa época.
A descaracterização que diz é só a materialização do fim de Lisboa e de Portugal. Isto é apenas um estaleiro para uma vulgarização de subúrbio que mais não é que um deslumbramento cego com o progresso (moda) que se julgou e julga ainda vir da estranja. Só que a estranja tinha sido arrasada pela guerra. Aqui a guerra tem sido auto-infligida. O archivo da câmara guarda o propósito disso mesmo numa série de fotografias cuja legenda é «prédio para demolir». A pressa era ja muita antes do grande acidente nacional. Mudar a face da cidade e do país, até à vertigem final de mudar a própria gente.
Cumpts.