Tenho este Camões desde não sei quando (*). Peguei-lhe no princípio de Agosto. Andei com ele até há pedaço. Pegava-lhe e largava-o. Às vezes lembrava-me de lhe tornar, e ao depois parece que me falhava a vontade, tantos os caprichos que nos hoje tolhem o tempo.
De modo que, li-o aos bochechos.
A propósito do título do livro — melhor, do Luís Vaz — contei à senhora quando o tirei da estante para o ir ler, a história do Vítor, o primo brasileiro do Jaime. O Vítor, os pais emigraram para o Rio de Janeiro. Não sei se nasceu cá, mas era carioca no falar e em tudo; parece-me que até pela cara.
Pois bem, quando peguei no livro aqui, lembrei-me dele, do Vítor, porque para si e para o seu ouvido afeito a todas as sílabas átonas abertas do português carioca, o português dos portugueses (o autêntico) descreveu-mo numa frase dum tom que tinha até, talvez, uma pitadinha de desdém, mas que só me fez rir.
— Vocês falam assim… Dizem Câmões.
* * *
Que jeito me teria dado este ensaio de Oliveira Martins aos 15. Mas teria de ser 50 anos mais maduro e séculos mais sábio. Com aquela idade não sabia nada e a cabeça ainda era no ar (hoje não será menos, é pior…)
Por conseguinte ainda me admira a erudição do ensaio. Hoje ninguém escreve nada assim, muito menos quando o seu embrião (Os Lusíadas: ensaio sobre Camões e a sua obra, em relação à sociedade portuguesa e ao movimento da Renascença, Porto, 1872) não teve senão o A. que umas Obras de Camões da «Biblioteca Portuguesa», e uma edição escolar do Vergílio. E os seus próprios dons.
O ensaio original foi refundido por 1888 no que está e que foi publicado em 1891.
Pel' «Os Lusíadas» o A. percorre a gesta dos Portugueses, descreve-nos o carácter, estriba-no-lo em Celtas e Romanos, compara-nos às nações da Cristandade, fundamenta-nos a autonomia, firma-nos o patriotismo, determina-nos os fados.
Camões é o génio que canta o génio da sua gente.
Oliveira Martins um romântico cheio de inspiração.
O índice é um bom sumário com o plano da obra, que ajuda a uma consulta mais directa aos tópicos abordados.
(*) Comprei-o em 2002; custou 790$00.

Tem uma bela capa esse Camões,mas certamente que o conteùdo é o mais importante,mesmo que seja aos bochechos.
ResponderEliminarÉ a conhecida imagem de Camões na prisão em Goa, c. 1558. É uma sobrecapa. A capa é que tem o retrato de Oliveira Martins desenhado pelo escultor Ant.º Duarte que se acha nas «Obras Completas» da edição da Guimarães. A leitura dispersa fica mais desatenta. Mas quando retomava dava-me gosto correr numerosos trechos d’ «Os Lusíadas» estribado na prosa de Oliveira Martins. Cheguei a lêr em voz alta quando me o entusiasmo dava.
ResponderEliminarCumpts.