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quarta-feira, 3 de abril de 2024

Redacção sobre a bola

 Uma indisposição desgraçada pregou ontem comigo no estaleiro. Melhorzinho à hora da ceia — obrigado! — animei-me a passar do canal dos bebés, com que passei a tarde e passo o tempo todo que tenha a televisão ligada e — olha! — estava a dar a bola na Radiotelevisão. Assim, como antigamente, e logo um Benfica-Sportem!


 Bem, bem que bola à terça-feira não seja como antigamente. Havia bola à quarta, quando havia a taça dos campeões europeus, a taça das taças e a taça das feiras, ou das cidades com feira — que ao depois crismaram U.E.F.A. não sei se por vaidade se por vergonha do nome —, e havia bola aos domingos à tarde. Lá por uma vez ou outra havia um jogo ao sábado à noite a dar na televisão. Ao sábado à noite para não concorrer com os jogos de domingo à tarde, a tirar-lhes o público. Bola na televisão em domingo à tarde só a final da Taça de Portugal.


 Ou em dia feriado, no 10 de Junho.


 Isto, quando o mundo tinha uma certa ordem, ou pelo menos como eu o entendia e memória mo põe.


 Pois ontem, era para a Taça. Um Benfica-Sporting. À terça-feira e uma 2.ª mão — outra modernice, de certo ditada pelo cheiro… a cifrões.


 O primeiro Benfica-Sporting que vi foi ainda no tempo do Manuel Fernandes e do Jordão, mas já não foi do Damas e do Yazalde. Fui ver ao campo da Luz. Chamavam-lhe estádio, mas era um campo. Estádio era o Nacional, o Universitário e o de Alvalade, que tinham pistas de atletismo. O do Benfica era só o campo.


 Vi primeiro um Benfica-Sporting do que um Sporting-Benfica. Tinha o passo da Carris e fui sòzinho no autocarro. Entrar no estádio para ver o jogo não custava porque os miúdos entravam sempre sem pagar se acompanhados dum adulto, de maneira que não precisei de dinheiro para ir à bola. Pedi a um adulto qualquer — Ó vizinho, deixe-me entrar consigo! — e o porteiro nem disse nada. Agora até  os bebés pagam. Até para ver em casa se paga… Dessa vez o Sporting perdeu 2-0, acho…


 O meu primeiro Sporting-Benfica foi só ao depois. Fui com meu pai ao estádio de Alvalade; de metro até Alvalade e no 7 extraordinário, de Alvalade ao estádio, que era de Alvalade, mas era para lá do Campo Grande (e ainda é de Alvalade, como é ainda para lá do Campo Grande, mas é só um campo, como o da Luz era e também não deixou de ser).


 O meu primeiro Sporting-Benfica foi assim. Mas o primeiro Sporting-Benfica de que me lembro é do tempo do Damas e do Yazalde; foi um que o Benfica ganhou por 5-3 e que meu pai me não levou a ver; e lembra-me dele por a minha mãe me ter comentado ao ouvir o resultado, no fim do relato na telefonia:


 — Ena, o Sporting perdeu 5 a 3! O teu pai há-de vir pior que estragado.


Uma fase do jogo de futebol realizado entre o Sporting e o Benfica no Estádio José de Alvalade, Lisboa, [1973/74 ?]. A. n/ id., in A.N.T.T., Flama, Positivos, pt. n.º 2549, 091.
Uma fase do jogo de futebol realizado entre o Sporting e o Benfica no Estádio José de Alvalade, Lisboa, [1973/74].
A. n/ id., in A.N.T.T., Flama, Positivos, pt. n.º 2549, 091.


 Com melhor desfecho há outra história, mas é dum Belenenses-Sporting, que o Sportem ganhou e foi campeão, e o meu pai ao chegar a casa, ao depois, trazia pastéis de Belém. Mas essa outra redacção, não é do meu tempo, e o meu irmão é que a sabe.

13 comentários:

  1. Ainda vi jogar Damas, Yazalde e obviamente também Manuel Fernandes e Jordão. Ontem um empate chegou para o resultado ser a meu gosto. Não tivesse o Sporting desperdiçado meia dúzia de golos cantados na primeira mão e ontem seria só para cumprir calendário. Sábado em Alvalade, espero que o meu Sporting esteja mais afinado, mas palpita-me que para o campeonato, vamos ter mais um rol de roubos de catedral. Espero estar enganado.
    Esse 3-5 de que fala, foi o de 73/74?
    Não faz mal. O Sporting foi campeão :)
    Cumprimentos.

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  2. Há muito que deixei a bola. Acho que desde o Malcolm Allison, de maneira que…
    De maneira que fiquei com uma série de nomes na memória que me dão uma salada cromos da bola: Damas, Yazalde, Dinis (o das pernas tortas), Fraguito, Marinho, Nelson, Chico, Manaca, Alhinho, Laranjeira, Manel Fernandes, Manoel, Jordão.
    E de contraponto, Zé Henriques, Artur (o ruço), Humberto Coelho, Vítor Martins, Vítor Baptista (que apareceu nos treinos a cavalo e acabou como coveiro), Moinhos, Alhinho (irmão do outro), Bastos Lopes, Nené…
    O Eusébio já só no Beira-Mar.
    Nesse tempo não dava o Porto além do Cubillas.

    O jogo dos 5-3 foi bem este: o da aclamação fervorosa ao Prof. Marcello Caetano em 31 de Março de 74. Aclamação pelos mesmos adesivos que nem um mês depois aclamaram um levantamento de rancho.
    Não faz mal. O Sportem ganhou o campeonato e a Taça de Portugal (embora Portugal, sei-o agora, já tivesse acabado mês e meio antes).

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  3. Ah e acho isto importante! Nesse tempo os jogadores tinham camisolas com os números 1 a 11, 12 a 16 para os suplentes, não essa numerologia de futebol amaricano que se vê agora.
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  4. Americanado, é certo, mas desta forma os jogadores têm sempre o mesmo número durante a época toda. É bom para o negócio da venda de camisolas.

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  5. Ora cá está, sim senhor! Boa recordação, apesar do resultado.
    Obrigado!

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  6. Com número e nome nas costas é bonito. E o rèclamo à frente também…
    :)
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  7. Espero que a passagem à final do nosso Sportem lhe tenha aligeirado a indisposição e já esteja recomposto.
    Um abraço
    Manuel

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  8. Já recuperado, obrigado!
    ☺️
    Abraço.

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  9. Anónimo3/4/24 18:42

    Julgo que em 1982 foi a equipa do Varzim a primeira da usar publicidade à MACONDE nas camisolas.
    Mas a CUF e RIOPELE já faziam publicidade "descarada".
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  10. Do Varzim e da Maconde acredito.Nos casos da C.U.F. e do Riopele também, mas a doutrina divide-se. Pode defender-se que a agremiação desportiva e a comercial eram na essência um e o mesmo ente. Juridìcamente diferentes entidades, todavia, antecipando a promiscuidade dos clubes e das S.A. desportivas que «inventaram» os génios pós modernos.Porém uma coisa é o clube exibir patrocinadores, outra bem diferente é o adepto comprar uma camisola por amor ao clube e acabar escaparate «gracioso» de publicidade comercial a terceiros. Feito parvo, diria.
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  11. Anónimo4/4/24 12:41

    Pois, mas a grande habilidade "desportiva" é vender a camisola com publicidade.
    Faz lembrar os sacos dos supermercados que são pagos. Ainda, uma vez, tentei aplicar a de 'então embrulhe as compras como fazem em qualquer estabelecimento comercial', mas nada e tive de pagar o saco ou 'traga de casa uma alcofa' disseram.
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  12. A intrujice já deu em epidemia. Como com a «pandemia», é só monos. Daí que não haja cura. Só descaramento. E «vacinas»…
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