Quando o bom povo vivia oprimido a toponímia dos lugares saía-lhe
espontânea. Ao depois vieram por aí uns eleitos para libertar povos oprimidos
e de caminho assenhorearam-se das ruas, largos, praças e lugares. Muito
democràticamente desataram a eito em dar-lhe nomes mais correctos do que os
que lhe o simples povo fôra capaz de dar. Por pouco caso, bêcos e azinhagas
foram por então ainda deixados manter com seus nomes populares e espontâneos.
Logo, logo acabariam também alçados à dignidade de ruas e até de avenidas pelo
progresso trazido pelos tais eleitos — ou mesmo por uma questão de nada — e
então lhe ajustariam êles, os novos senhores das ruas e doutores da toponímia,
um nome verdadeiramente adequado e capaz. Tudo abrilhantado com uma competente
e protocolar inauguração, claro, não havendo de descurar a necessária
pompa.
Simplesmente sucedeu que, com o tempo, esta espécie de
eleitos se multiplicou em tal cópia que em pouco lhe não chegaram as ruas,
praças e avenidas, mesmo se novas, para tantos e honrados nomes que a
libertação dos povos ia produzindo. E com isto vieram os desoprimidos povos a
assistir — de certo sorrindo-se com popular desprêzo — a uma disputada e
infinda dança de topónimos por tudo quanto fôsse serventia tida como capaz
para honrar coisa ou alguém, normalmente figurão de nomeada com pergaminhos de
bom coiro na linhagem da tal liberdade. E agora, havendo escassez de boas
serventias e de melhores lugares com que continuar a honrar figuras,
figurinhas, figurões daquêles, vêem-se por aí os tais eleitos acotovelando-se
em pontes peidonais, bufando uns com os outros e entre si sôbre qual o
nome mais acertado que, com tal obrazinha, hão-de haver de a inaugurar. Em
fim, mais do mesmo que já antes o bom povo viu como digo, sorrindo-se de
desprêzo, desde que o Terreiro do Paço deu sem nunca bem dar em Praça do
Comércio, o Rossio desdeu não dando jàmais em coisa com nome de imperador
estrangeiro (dizem alguns que mexicano…) e o Campo Grande desandou de
Campo 28 de Maio em jardim dum certo Soares continuando a sêr sempre e só o
que fôi por séculos: Campo Grande. Viradeiras estas que só vistas, pois que a
final nada viraram nem hão-de virar, salvas umas moscas.
De topónimos, pois, a crua realidade que havemos destes últimos
dias é que tal ponte a pé mais será coisa para perfumar figurões de alto
coturno com aromas do Trancão do que para homenagear alguém ou quem quere que
seja de dignidade fora disso. Tôda a pessoa séria o entende e, claro,
declinaria sempre educadamente tão magna homenagem na circunstância de suceder
consigo.
Foi o caso.
A Faustissima e Monumental Reunião dos Illustrissimos e Excellentissimos
Membros da Junta Provisoria do Governo Supremo do Reino e Regencia
Interina de Lisboa no Palacio da Regencia na Praça do Rocio de Lisboa em o
dia 1.º de Outubro de 1820. Gravura de Antoine Candido Cordeiro Pinheiro Furtado, in archivo
photographico da C.M.L.
Praça de D. Pedro em Lisboa [i.é, o Terreiro do Rocio em 1848].
Desenho de Legrand, in archivo photographico da C.M.L.

![Praça de D. Pedro em Lisboa [i.é, o Terreiro do Rocio em 1848]. Desenho de Legrand, in archivo photographico da C.M.L.](https://live.staticflickr.com/65535/53120735011_a73c407ef3_h.jpg)
Na primeira gravura faz uma certa confusão o Arco Triunfal que aparece no lado direito.
ResponderEliminarVendo bem a imagem, temos na elevação ao fundo o Convento da Encarnação, no Rossio o Palácio da Regência, ou Estaus, e o Arco que só pode ser na Rua do Amparo, por isso uma montagem efémera a testemunhar o acontecimento,
Cumpts.
Quando o Presidente Rui Rio Governou a Cidade do Porto entre 2002 e 2013 fez uma renovação das placas de toponímia, muito bem conseguida por sinal, e com uma particularidade interessante, por debaixo dos nomes que foram atribuídos às ruas - em substituição dos outros que já lá estavam - após o golpe de Estado liberal/maçónico de 1820, mandou colocar os nomes originais.
ResponderEliminarNem imagina o granel que foi por parte dos liberais/maçonaria (PS, CDS, BE, PCP, e a facção liberal/maçónica do PSD), todos em coro uníssono contra aquela renovação das placas toponímicas da Cidade Invicta que pretendeu preservar e manter a História e Identidade Portuense, em oposição à cultura do cancelamento promovida pelos primeiros.
Em relação ao nome que queriam dar a essa ponte pedonal no Estrangeiro, é um problema dos Lisboetas, mas na minha opinião não faz sentido atribuir nomes a infra-estruturas, de indivíduos que nada fizeram por Portugal nem contribuíram para o bem-estar dos Portugueses.
Na Cidade do Porto passa-se a mesma coisa com o Executivo liberal/maçónico do «Porto, o Nosso Partido/Porto, o Nosso Movimento/Aqui Há Porto» a querer atribuir o nome, simplesmente por capricho, de um funcionário do Clero que nada fez pela Cidade ou pelos Portuenses – que inclusive não lhe reconhecem qualquer mérito – a uma nova ponte que eventualmente será construída sobre o Rio Douro.
Costumo ensinar aos novos que se querem saber quem foram os filhos da pita que vejam os topónimos criados desde há 59 anos.
ResponderEliminarSim, faz. A sua descrição é exacta.
ResponderEliminarCumpts.
Cheira-me haver qualquer culto com os nomes dessa malta. Uma espécie de invocação de santinhos. Ou santarrões…
ResponderEliminarIsso que conta das placas toponímicas do Pôrto foi bem achado. Melhor se vier a suprimir a toponímia de 2.ª que os pedreiros lavraram.
Cumpts.
Pode somar aí o que vai para trás até ao tempo de Pedro, o brasileiro.
ResponderEliminarCumpts.
Tenho que concordar consigo. Pois Vexa sabe muito mais do que eu.
ResponderEliminarEu creio que os brasileiros são o que são dado terem sido ensinados pelos tugas. Desde há séculos.
Não sei se sei. É o que me parece.
ResponderEliminar«Pedro, o brasileiro» é como Oliveira Martins abre o seu «Portugal Contemporâneo». Vali-me aqui da paráfrase para recuar à época.
Os brasileiros são o que são. Quando Manoel Ant.º de Almeida escreveu as «Memorias de um Sargento de Milicias» em 1854 ainda não eram mais que portugueses. É admirável. De há uns cem anos ou mais, porem, que vão em deriva própria. O samba nada tem de português, sequer de tuga (abominável adjectivo).
Cumpts.
Os tugas uma abreviatura de portugas é utilizado entre a nossa imigração europeia, assim como eram tratados os nossos soldados na Guiné.
ResponderEliminarA grande maioria de imigração para o Brasil sempre foi por analfabetos minhotos, ao ponto de ser proibido devido a escassez de não de obra na região.
Cumpts.
Tenho-o termo rasca. Não gosto por ser sempre referido aos Portugueses. Mesmo se reles. De mais se já chegamos ao pontos de não poder dizer preto ou cigano.
ResponderEliminarCumpts.