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quarta-feira, 16 de agosto de 2023

A ponte a pé

A Faustissima e Monumental Reunião dos Illustrissimos e Excellentissimos Membros da Junta Provisoria do Governo Supremo do Reino e Regencia Interina de Lisboa no Palacio da Regencia na Praça do Rocio de Lisboa em o dia 1.º de Outubro de 1820 (Gravura de Antoine Candido Cordeiro Pinheiro Furtado, in archivo photographico da C.M.L.)


 Quando o bom povo vivia oprimido a toponímia dos lugares saía-lhe espontânea. Ao depois vieram por aí uns eleitos para libertar povos oprimidos e de caminho assenhorearam-se das ruas, largos, praças e lugares. Muito democràticamente desataram a eito em dar-lhe nomes mais correctos do que os que lhe o simples povo fôra capaz de dar. Por pouco caso, bêcos e azinhagas foram por então ainda deixados manter com seus nomes populares e espontâneos. Logo, logo acabariam também alçados à dignidade de ruas e até de avenidas pelo progresso trazido pelos tais eleitos — ou mesmo por uma questão de nada — e então lhe ajustariam êles, os novos senhores das ruas e doutores da toponímia, um nome verdadeiramente adequado e capaz. Tudo abrilhantado com uma competente e protocolar inauguração, claro, não havendo de descurar a necessária pompa.
 Simplesmente sucedeu que, com o tempo, esta espécie de eleitos se multiplicou em tal cópia que em pouco lhe não chegaram as ruas, praças e avenidas, mesmo se novas, para tantos e honrados nomes que a libertação dos povos ia produzindo. E com isto vieram os desoprimidos povos a assistir — de certo sorrindo-se com popular desprêzo — a uma disputada e infinda dança de topónimos por tudo quanto fôsse serventia tida como capaz para honrar coisa ou alguém, normalmente figurão de nomeada com pergaminhos de bom coiro na tal liberdade. E agora, havendo escassez de boas serventias e de melhores lugares com que continuar a honrar figuras, figurinhas, figurões daquêles, vêem-se por aí os tais eleitos acotovelando-se em pontes peidonais, bufando uns com os outros e entre si sôbre qual o nome mais acertado que, com tal obrazinha, hão-de haver de a inaugurar. Em fim, mais do mesmo que já antes o bom povo viu como digo, sorrindo-se de desprêzo, desde que o Terreiro do Paço deu sem nunca bem dar em Praça do Comércio, o Rossio desdeu não dando jàmais em coisa com nome de imperador estrangeiro (dizem alguns que  mexicano…) e o Campo Grande desandou de Campo 28 de Maio em jardim dum certo Soares continuando a sêr sempre e só o que fôi por séculos: Campo Grande. Viradeiras estas que só vistas, pois que a final nada viraram nem hão-de virar, salvas umas moscas.


Praça de D. Pedro em Lisboa [i.é, o Terreiro do Rocio em 1848]. Desenho de Legrand, in archivo photographico da C.M.L.



 De topónimos, pois, a crua realidade que havemos destes últimos dias é que tal ponte a pé mais será coisa para perfumar figurões de alto coturno com aromas do Trancão do que para homenagear alguém ou quem quere que seja de dignidade fora disso. Tôda a pessoa séria o entende e, claro, declinaria sempre educadamente tão magna homenagem na circunstância de suceder consigo.
 Foi o caso.




A Faustissima e Monumental Reunião dos Illustrissimos e Excellentissimos Membros da Junta Provisoria do Governo Supremo do Reino e Regencia Interina de Lisboa no Palacio da Regencia na Praça do Rocio de Lisboa em o dia 1.º de Outubro de 1820. Gravura de Antoine Candido Cordeiro Pinheiro Furtado, in archivo photographico da C.M.L.
Praça de D. Pedro em Lisboa [i.é, o Terreiro do Rocio em 1848]. Desenho de Legrand, in archivo photographico da C.M.L.

10 comentários:

  1. Na primeira gravura faz uma certa confusão o Arco Triunfal que aparece no lado direito.
    Vendo bem a imagem, temos na elevação ao fundo o Convento da Encarnação, no Rossio o Palácio da Regência, ou Estaus, e o Arco que só pode ser na Rua do Amparo, por isso uma montagem efémera a testemunhar o acontecimento,

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  2. Figueiredo17/8/23 10:41

    Quando o Presidente Rui Rio Governou a Cidade do Porto entre 2002 e 2013 fez uma renovação das placas de toponímia, muito bem conseguida por sinal, e com uma particularidade interessante, por debaixo dos nomes que foram atribuídos às ruas - em substituição dos outros que já lá estavam - após o golpe de Estado liberal/maçónico de 1820, mandou colocar os nomes originais.

    Nem imagina o granel que foi por parte dos liberais/maçonaria (PS, CDS, BE, PCP, e a facção liberal/maçónica do PSD), todos em coro uníssono contra aquela renovação das placas toponímicas da Cidade Invicta que pretendeu preservar e manter a História e Identidade Portuense, em oposição à cultura do cancelamento promovida pelos primeiros.

    Em relação ao nome que queriam dar a essa ponte pedonal no Estrangeiro, é um problema dos Lisboetas, mas na minha opinião não faz sentido atribuir nomes a infra-estruturas, de indivíduos que nada fizeram por Portugal nem contribuíram para o bem-estar dos Portugueses.

    Na Cidade do Porto passa-se a mesma coisa com o Executivo liberal/maçónico do «Porto, o Nosso Partido/Porto, o Nosso Movimento/Aqui Há Porto» a querer atribuir o nome, simplesmente por capricho, de um funcionário do Clero que nada fez pela Cidade ou pelos Portuenses – que inclusive não lhe reconhecem qualquer mérito – a uma nova ponte que eventualmente será construída sobre o Rio Douro.

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  3. Costumo ensinar aos novos que se querem saber quem foram os filhos da pita que vejam os topónimos criados desde há 59 anos.

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  4. Sim, faz. A sua descrição é exacta.
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  5. Cheira-me haver qualquer culto com os nomes dessa malta. Uma espécie de invocação de santinhos. Ou santarrões…
    Isso que conta das placas toponímicas do Pôrto foi bem achado. Melhor se vier a suprimir a toponímia de 2.ª que os pedreiros lavraram.
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  6. Pode somar aí o que vai para trás até ao tempo de Pedro, o brasileiro.
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  7. Tenho que concordar consigo. Pois Vexa sabe muito mais do que eu.
    Eu creio que os brasileiros são o que são dado terem sido ensinados pelos tugas. Desde há séculos.

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  8. Não sei se sei. É o que me parece.
    «Pedro, o brasileiro» é como Oliveira Martins abre o seu «Portugal Contemporâneo». Vali-me aqui da paráfrase para recuar à época.
    Os brasileiros são o que são. Quando Manoel Ant.º de Almeida escreveu as «Memorias de um Sargento de Milicias» em 1854 ainda não eram mais que portugueses. É admirável. De há uns cem anos ou mais, porem, que vão em deriva própria. O samba nada tem de português, sequer de tuga (abominável adjectivo).
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  9. Os tugas uma abreviatura de portugas é utilizado entre a nossa imigração europeia, assim como eram tratados os nossos soldados na Guiné.
    A grande maioria de imigração para o Brasil sempre foi por analfabetos minhotos, ao ponto de ser proibido devido a escassez de não de obra na região.

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  10. Tenho-o termo rasca. Não gosto por ser sempre referido aos Portugueses. Mesmo se reles. De mais se já chegamos ao pontos de não poder dizer preto ou cigano.
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