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sábado, 15 de julho de 2023

Leonardo-Pataca


 Era no tempo do rei.


 Uma das quatro esquinas que formão as ruas do Ouvidor e da Quitanda, cortando-se mutuamente, chamava-se nesse tempo — O canto dos meirinhos — ; e bem lhe assentava o nome, porque era ahi o logar de encontro favorito de todos os individuos dessa classe (que gozava então de não pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses erão gente temivel e temida, respeitavel e respeitada; formavão um dos extremos da formidavel cadêa judiciaria que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo opposto erão os desembargadores. Ora, os extremos se tocão, e estes, tocando-se, fechavão o circulo dentro do qual se passavão os terriveis combates das citações, provarás, razões principaes e finaes, e todos esses trejeitos judiciaes que se chamava o processo.


 Dahi sua influencia moral. 


 […]


 Mas voltemos á esquina. Quem passasse por ahi em qualquer dia util dessa abençoada epoca veria sentado em assentos baixos, então usados, de couro, e que se denominavão — cadeiras de campanha — um grupo mais ou menos numeroso dessa nobre gente conversando pacificamente em tudo sobre que era licito conversar: na vida dos fidalgos, nas noticias do Reino e nas astucias policiaes do Vidigal. Entre os termos que formavão essa equação meirinhal pregada na esquina havia uma quantidade constante, era o Leonardo-Pataca. Chamavão assim a uma rotunda e gordissima personagem de cabellos brancos e carão avermelhado, que era o decano da corporação, o mais antigo dos meirinhos que vivião nesse tempo. A velhice tinha-o tornado moleirão e pachorrento; com sua vagareza atrazava o negocio das partes; não o procuravão; e por isso jamais sahia da esquina; passava ali os dias sentado na sua cadeira, com as pernas estendidas e o queixo apoiado sobre uma grossa bengala, que depois dos cincoenta era a sua infallivel companhia. Do habito que tinha de queixar-se a todo o instante de que só pagassem por sua citação a modica quantia de 320 réis, lhe viera o appellido que juntavão ao seu nome.


Memorias de um Sargento de Milicias, por um Brasileiro [Manoel Antonio de Almeida], Tomo I, Rio de Janeiro, Typographia Brasiliense de Maximiano Gomes Ribeiro, 1854, pp. 5-8 passim.



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Leonardo-Pataca. Belmonte, «Personagens célebres da Literatura»
Leonardo-Pataca.
Belmonte, «Personagens célebres da Literatura», in «Vamos ler!, n.º 310, Ano VII, Rio de Janeiro, 9/VII/1942, p.18.

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