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quarta-feira, 20 de maio de 2020

Perna de Pau

Retiro da Perna de Pau ao Areeiro, na antiga Estrada de Sacavém (E. Portugal, c. 1900)
A entrada do retiro da Perna de Pau, ao Areeiro, Lisboac. 1900.
Fototipia animada de original de A. n/ id., in archivo photographico da C.M.L.



« O último reduto, prestes a tombar, mantendo a mesma modesta aparência: a velha porta guarnecida de ferro e as duas janelas igualmente gradeadas, atestando a sua vetustez, dão passagem à luz solar indiferente às evoluções do progresso, animando e confortando aquela veterana casa que primava na apresentação do peixe frito a saltar na frigideira e na salada colhida no momento, rendendo muito merecido conceito ao velho retiro.
  A «Perna de Pau», instalada na Quinta de Santo António, pertencia a Fortunato José Ferreira, capitão-de-mar-e-guerra, que a vendeu por quatro contos e quinhentos mil réis, a pagamento.
  Foi inaugurada em 1860, tendo sido sua primitiva proprietária Gertrudes Rosa Soares tia de João Gregório da Silva mais conhecido pelo João da Feiteira, simpático ancião, que acompanha ainda de perto os serviços agrícolas da Quinta do Grilo [Quinta da Holandesa?], ao Areeiro, onde reside, das varandas da qual se divisa vasto e esplêndido panorama.
 Um tiro perdido colheu a sua tia numa perna, que lhe foi amputada, utilizando, desde então, uma perna de pau que ainda hoje se guarda como troféu e que originou o nome do retiro mantido até ao presente.
  Esta celebrada locanda, porventura a mais antiga, a única sobrevivente da fiada de famosos retiros que guarneciam aquela área suburbana, fiel paradigma de eras vividas, hasteia ciosamente, no sopro de vida que ainda lhe resta, o galhardete que a vaga de ruínas lhe trouxe à mão fazendo-a detentora responsável pela continuidade brilhante de um passado glorioso que, a despeito das vicissitudes e vaidades contemporêneas, jamais fenecerá avivando-nos na mente a Estrada de Sacavém.
  A velha guarda que a frequentava nesses tempos idos, quando adrega passar-lhe rente espreita-a, com ternura, e presta-lhe, comovida, o culto da saudade.
  As cousas falam… — é o título dum precioso trabalho literário do brilhante escritor e meu prezado amigo Doutor João Barreira.


*




  Que dirão aquelas defeituosas pedras, as carunchosas madeiras e os confusos vestígios ao verem passar, velozmente, as motorizadas viaturas indiferentes ao pretérito, alheias às épocas anteriores, emitido de seus aparelhos motivos wagnerianos e trechos de óperas…
  Elas, tocadas de melancolia, nostálgicas dos longínquos e lânguidos sons das guitarras premidas por dedos famosos e em que o fado enternecia e cativava com enlevo, refugiam-se nas sombras da tradição…



Panorâmica do Areeiro tirada da Quinta dos Lagares d' El-Rei, Areeiro (Fototipia animada de or. de Eduardo Portugal, 1947)
Panorâmica s/ a Perna de Pau, ao Areeiro, tomada dos Lagares d' El-Rei, Lisboa, 1947.
Fototipia animada de or. de Eduardo Portugal, in archivo photographico da C.M.L.



  De todos os recintos que marginavam esta Estrada de Sacavém, a «Perna de Pau» agrupava elementos ciosamente apaniguados imprimindo-lhe feição típica de pedilecção e radicando-lhe personalidade.
  O abrigado espaço destinado às tipóias e outras viaturas por onde se ingressava pelo portão de madeira contíguo ao portal de ferro para entrada dos peões e a que há pouco me referi, espaço cuja área era protegido por velho telheiro; a proximidade do tanque, onde as alfaces, as couves, os rabanetes e variada hortaliça trazida da horta à nossa vista em padiolas, eram diligentemente lavadas e artistìcamente agrupadas por espécies na carroça a que, horas depois, jungiam o boi ou o macho que vinha — entre varais — dar termo na Praça da Figueira ao sobrante vegetalismo que atapetava a terra destinada a hortejo; a tipóia de travão corrido e parelha sob o astuto olhar do cocheiro a nosso lado na extensa mesa comum onde o comedido das vozes sofria a alternativa que o decorrer do repasto provocava; tudo isto imprimia um cunho especial que a herança do tempo impunha e a respeitável tia Narcisa, última locandeira, falecida em 1912, acalentava acolhendo, sorridente, a categorizada freguesia.


  Especialidades culinárias, em designados dias, desafiavam comensais afeitos a tais saboreios e desse contacto ininterrupto, emergia um comunicativo bem-estar que contagiava massas heterogéneas, garantindo-lhes ideal prazer a que os acordes da guitarra e a maviosidade dum estilo garganteando letra adequada, agradàvelmente ouvida, punha a nota intrínseca indispensável e epilogante.


 Nas «Farpas», o notável e erudito prosador Ramalho Ortigão dizia-nos:


 A «Perna de Pau», o restaurante célebre bem conhecido de todos os estômagos com tendências bucólicas, de todos os estômagos impelidos pela nostalgia das hortas para fora de portas no tempo do tomate — organiza com os primores da estação a nova lista dos seus acepipes.»


João Monteiro, A Estrada de Sacavém, Lisboa, Grupo «Amigos de Lisboa», 1952, pp. 77-79.


 



Grupo de homens, Retiro da Perna de Pau ao Areeiro, c. 1900. Fototipia animada de original de A. n/ id., in archivo photographico da C.M.L.
Grupo de «estômagos com tendências bucólicas impelidos pela nostalgia das hortas», Retiro da Perna de Pau, pelo tempo do tomate dos anos de 1900.
Fototipia animada de original de A. n/ id., in archivo photographico da C.M.L.


 

8 comentários:

  1. Mandarinia21/5/20 09:38

    Caro BIC,

    Enquanto se assiste ao triste espectáculo da distribuição de prebendas pelos órgãos de comunicação social, verifico que o verdadeiro serviço público vem de sítios como o "Bic Laranja", que rema contra o lodaçal de mentiras mal escritas, com que os ditos jornais e outros nos brindam.
    Esta preciosidade de João Monteiro é um bom exemplo. Fica no ar a interrogação acerca do que ele diria (já nem digo o Ramalho Ortigão) se hoje fosse vivo.
    As fotografias, como sempre, são excelentes.

    Cumprimentos

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  2. João Monteiro tentaria ver o lado poético, se tal fosse possível. Já a «ramalhal figura», como lha chamou Eça, ferraria valente garrochada em toda esta miséria. Sem dó, porque não há piedade possível com o que vemos.
    Cumpts.

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  3. Antão ALmada23/12/20 10:20

    Há poucos dias desci pela primeira vez o que resta da Azinhaga Fonte do Louro. Ainda lá estão alguns dos edifícios antigos. Agora está integrada no Parque Urbano Vale da Montanha. Dá para descer até à Azinhaga Maruja.
    A Perna de Pau ficava na esquina da Estrada de Sacavém com esta azinhaga.
    Aqui fica uma foto da azinhaga actualmente: https://www.instagram.com/p/CJBVsB7MdXb/

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  4. Obrigado do testemunho. Essa Azinhaga da Fonte do Louro era comprida; vinha do Alto do Pina pelo vale entre os montes das Olaias e do Casal Vistoso em direcção à linha de cintura. Foi por ali tudo terraplenado com a Afonso Costa. Esse troço que temos deve ser o único que sobra. Era o troço final que serpenteava até à esquina da Perna de Pau.
    Feliz Natal !

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  5. José Almeida29/12/20 13:21

    A segunda foto - com uma panorâmica, vista de poente, da transformação viária que toda aquela área sofreu - é inédita para mim !
    E é curioso ver como os campos "teimavam" em ser amanhados, apesar do avanço do "camartelo do progresso", neste caso, o aterro (em primeiro plano) daquilo que viria a ser a Rua Guilhermina Suggia.
    Creio que a estrada de Sacavém se encontra escondida entre o muro que limita o aterro e o retiro e o retiro da Perna de Pau.

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  6. Teimavam. Era o fachismo, acho. Não dava indemnizações que se vissem aos expropriados nem rendimento mínimo garantido aos rendeiros.
    Hum!…
    Por outro lado os democratas dão isso e subsídios especiais de reinserção e os taludes do I.C. 19 e da C.R.I.L. andam cheios de couves, assim como nessas ruas não faltam arrumadores a amanharem o estacionamento dos automóveis.
    Cumpts.

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  7. José Almeida1/1/21 20:02

    Pois, caro amigo, acho que o entendo.
    O fascismo proibia plantar batatas nos taludes, para evitar a erosão. Já os nossos democratas não se importam nada ou, então, nem sequer se apercebem, de tão entretidos que andam a amanhar os planos dos respectivos aterros sobre as terras que o falecido Zé Povinho deixou ao neto, o tal se chama Zé Pagante...

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