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sábado, 31 de março de 2018

Redacção

 Uma sobrinhita teve antes das férias da Páscoa autorização da mãe para ir e vir da escola sòzinha. Vai fazer 14…


 Se bem me lembro, comecei a ir e vir da escola sòzinho ainda na primeira classe. Uma semana ou duas depois de entrar para a escola a minha mãe confiou que me não perdia e não perdeu ela mais tempo com levar-me ou buscar-me. Está bem que a escola primária era ao fundo da rua; hoje as escolas primárias acabaram e as que lhe sucederam nunca são ao fundo da rua — coisas, por desventura, do progresso da civilização de bairro para a de subúrbio, muito mai' moderna!... — Ao depois da quarta classe a escola preparatória já não era ao fundo da rua; era já caminho do bairro seguinte, mas continuei a ir só por mim, sem a mãe.


 Tornando à escola primária, a primeira classe era de tarde: da uma e meia às cinco e meia. Mas na segunda classe começou a ser de manhã. Recorda-me que sim: assim de manhã era um horário mais crescido; de tarde era coisa de criancinhas da primeira. E na terceira e na quarta continuei de manhã, a justificar a minha ideia. Foi já pela terceira, quiçá, pela quarta classe que me recordo dumas férias da Páscoa em que saí de casa e me espantei da luz da manhã na minha rua. Dês que passara a estar enfiado numa sala de aula que não via a minha rua de manhã. Esquecera-me. E revê-la radiosa assim, esbranquiçada com a leve neblina e ao fundo o Tejo, numa manhã de Primavera, foi uma surpresa. Tomei consciência de que a escola me privava de parte da minha rua e que só fugazmente, em dias de férias, a teria inteiramente de volta. Sem saber ainda a palavra, senti-me frustrado. Mas era bom recuperar ali estas saudades. Ainda mais assim quando, no meio destes pensamentos, ouvi o roncar do camião da U.C.A.L. que trazia o leite para a fábrica dos iogurtes; era outra peça das manhãs da minha rua que me faltava e uma das melhores, porquanto os homens da distribuição, entregues as vasilhas de leite, nos deixavam, à rapaziada da rua, seguir consigo à boleia na caixa da camioneta até à calçada, onde o motorista abrandava e nós aproveitávamos para saltar.


 Das férias da Páscoa tenho também a história do Monopólio, mas como já vai longo, fica para a próxima.


 


Judite Vieira, Manuel Ferreira Patrício, Silva Graça, «Manhã de Primavera», in Livro de Leitura da Segunda Classe, 1.ª ed., Atlântida, Coimbra, 1968, p. 68.


Judite Vieira, Manuel Ferreira Patrício, Silva Graça, «Manhã de Primavera», in Livro de Leitura da Segunda Classe, 1.ª ed., Atlântida, Coimbra, 1968, p. 68.

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