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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Toada de noites mormacentas


 Lisboa, 5/9/2016 A toada d' «A Ilha» traz-me noites estivais; ou invocam-me estas aquela toada. Como hoje. Sinto nela uma modorra de saudade daqueles anos — grande poeta, o Tê, já o cá disse... Estupenda gravação ao vivo de Rui Veloso no já longínquo concerto do Coliseu. Nenhuma outra me soa tão bem. — Embalava-me isto do Rui Veloso nas Noites de Luar, barzeco à Rua da Bombarda, ou na Casa da Lina a par de S. Vicente, pelo tanger bem disposto do Luís Duarte. Mas só lhe dei atenção, à toada do Rui Veloso e do Tê (e ainda assim distraìdamente) lá pelo fim da década: 1990... A verdade é que me ficou cá como a Coca-Cola do Pessoa, entranhada na memória. Sempre invocando (ou invocada por) noites cálidas assim.


  Deu-me agora aqui para isto, uma soedade a bater; deve ser do Setembro chegado com uma canícula nunca antes vista. Ou do Verão, mesmo assim, a acabar-se...



*   *


 


Rui Veloso - A Ilha
(Carlos Tê / Rui Veloso)

Fiz-me ao mar com lua cheia
A esse mar de ruas e cafés
Com vagas de olhos a rolar
Que nem me viam no convés
Tão cegas no seu vogar

E assim fui na monção
Perdido na imensidão
Deparei com uma ilha
Uma pequena maravilha

Meia submersa
Resistindo à toada
Deu-me dois dedos de conversa
Já cheia de andar calada

Tinha um olhar acanhado
E uma blusa azul-grená
Com o botão desapertado
E por dentro tão ousado
Um peito sem
soutien

Ancorámos num rochedo
Sacudimos o sal e o medo
Falámos de música e cinema
Lia Fernando Pessoa
E às vezes também fazia um poema

E no cabelo vi-lhe conchas
E na boca uma pérola a brilhar
Despiu o olhar de defesa
Pôs-me o mapa sobre a mesa

Deu-me conta dessas ilhas
Arquipélagos ao luar
Com os areais estendidos
Contra a cegueira do mar
Esperando veleiros perdidos

4 comentários:

  1. Tempos que já não voltam. Nem a esperança e as ilusões cheias de certezas que neles vivemos. É voltar ao lugar onde se foi feliz.

    Costa

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  2. Ainda aqui eu a compor a soedade e...
    Tempos que não voltam, mas as sensações tornam sublimadas e difusas em toadas tão inesperadamente gravadas na mente. É não fazer nada e saborear o que as sinapses recordam.
    Cumpts.

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  3. Saborear, precisamente. Isso que passou e foi nosso ninguém já nos tira (se pudessem...).

    Santa noite.

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