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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O perdigão

 Esta manhã mais um daqueles desconchavos na emissora nacional. Anunciaram os 120 anos de Azeredo Perdigão e as loas ao testamenteiro de Calouste Gulbenkian não podiam senão engrandecê-lo por conseguir evitar a (cito de memória) ingerência de Salazar no negócio da Fundação. E então puseram no ar esta gravação:



 A conduta do Dr. Salazar para connosco, foi duma absoluta e exemplar isenção. Somos por consequência devedores de facilidades e deferências que não têm preço.



 Ora, quem saiba ouvir (ou ler) o excerto há sem dúvida de saber interpretar uma isenção cuja consequência é um penhor de facilidades e deferências que não têm preço. O excerto havia de ser metido em contexto até porque segundo se pode ler no «Observador» dos 60 anos da Fundação…



[...] Azeredo Perdigão manteve sempre Salazar ao corrente do conteúdo final do testamento de Gulbenkian, por si formulado e reformulado. Em carta que lhe foi enviada semeou um facto mais do que apelativo: a sede da Fundação seria localizada em território português, para a qual reverteria “a maior parte da sua fortuna”. O que, acrescentou, constituiria «um acontecimento de verdadeiro interesse nacional».
(Nuno Santos, «Gulbenkian: um parto difícil com uma aliança improvável», Observador, 20/7/2016.)



 Mais. No mesmo artigo pode ler-se que a acumulação nos dez anos anteriores da fortuna de Gulbenkian se deveu ao facto de «residir em Portugal e não ter pago ao Estado Português um cêntimo [i.é, um tostão] de impostos».


 Rica não ingerência de Salazar, hem!


 Segundo sei (hei-de ver onde o li), logo que soube de se achar o Sr. Calouste Sarkis Gulbenkian em Portugal, tratou astutamente o dr. Salazar de mandar alguém ao seu encontro. Se foi ele que indicou o dr. Perdigão ou se lho indicaram, não me recorda agora. Conjecturo se não foi coisa arranjada hábil e subtilmente com os filhos da viúva — alguém me disse que Azeredo Perdigão foi maçon… — O caso foi que nos calhou uma Fundação de Direito português, dirigida por portugueses, muito mais por acção do que por omissão do governo do dr. Salazar. Mas como quem ficou por «dono» vitalício da Fundação foi quem foi e, como o dr. Salazar é hoje um vilão apetecido, o disparate é o que se vê.


 Uma última nota. A argúcia do dr. Salazar em todo este caso do rico sr. Gulbenkian e do seu fiel testamenteiro acha-se bem na história do seu comentário quando viu [a maqueta d'] o monumento [que comemora Gulbenkian] na sede da Fundação:
 — «Gulbenkian não ficou lá muito bem, mas o Perdigão ficou óptimo!...»
Corrijo:


 — «O Gulbenkian está bem, mas o Perdigão é que não está lá muito parecido!» (*)



Monumento a Gulbenkian, de mestre Leopoldo de Almeida), in C.M.L.





(*) Jaime Nogueira Pinto, António de Oliveira Salazar, 1.ª ed., [Lisboa], A Esfera dos Livros, 2007, p. 156.

(Revisto a ¼ para as 7 e às 25 para as 10.)

2 comentários:

  1. Inspector Jaap21/9/16 13:56

    Mas então não é o que eu digo?
    Esta rapaziada é perfeitamente capaz de dizer uma coisa e demonstrar o seu contrário logo a seguir, sem que lhes estremeça nenhum dos poucos neurónios que lhes povoam o bestunto; apre, que até´ irrita tanta indigência.
    Cumpts

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  2. São são básicos que mais não mereceriam que linguagem de caserna: b.c.c.
    Cumpts.

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