Disse «ingerência» sobre o anúncio dos 120 anos de Azeredo Perdigão, mas o que emissora nacional cuspiu esta manhã foi «interferência». É fácil recordá-lo porque os perdigotos aos microfones da radiodifusão mais não foram do que a arenga do Minipreço enciclopédico dos nossos dias:
Azeredo Perdigão não queria a interferência de Salazar na fundação e consegui essa independência, pois o Presidente do Conselho, que não gostava das suas opiniões políticas, também não duvidava do seu patriotismo e acreditava que ele defendia os interesses nacionais.
José de Azeredo Perdigão. In: Wikipaedia, a enciclopédia livre [na rede] (*). Florida: Wikime(r)dia Foundation, 2016, rev. 17/VI/2016. [Consult. 19/IX/16.]
Não é preciso ser bedu para catar o recado: distância de Salazar e sua rendição necessária e incondicional às insofismáveis qualidades dum herói. É esta ordem de discurso que apascenta me(r)diàticamente as mentes livres (porque vazias) que depois enchem o aviário democrático. Os evangelistas desta catequese, se não forem ignorantes nem indigentes de todo hão-de ter lido um catecismo para eles insuspeito como Dicionário do Estado Novo dirigido pelo ilustre Fernando Rosas. E lá vem, preto no branco:
Trabalha [Azeredo Perdigão] na redacção dos estatutos da Fundação com Marcello Caetano e Salazar. Por sugestão deste último, aceita presidir ao conselho de administração da Fundação Calouste Gulbenkian [...] Para além duma gestão financeira coroada de êxito, revelou-se extremamente hábil em resguardar a Fundação de interferências [cá está, mas...] do governo, para o que terá contribuído o seu relacionamento cordial com Salazar, bem como o apoio que expressou à política ultramarina do regime [...]
Pedro Aires Oliveira, «Perdigão, José Henrique de Azeredo», in Dicionário do Estado Novo, v. II, Venda Nova, Bertrand, 1996, pp. 714-715.
Pois, mas nem com tão jeitoso catecismo. A livre e democrática censura procura omitir habilidosamente desde logo: 1) a acção do Presidente do Conselho e do Ministro da Presidência, nem mais; 2) cordialidade com Salazar e; 3) apoio à politica ultramarina. Qualquer delas desfaz um herói, por isso as calam. Como calam que foi Caeiro da Matta, ministro plenipotenciário de Portugal em Vichy, quem indicou o advogado Azeredo Perdigão a Calouste Gulbenkian logo em 1942, quando se soube que desejava ele instalar-se em Portugal. O ministro dos Estrangeiros era o próprio dr. Salazar...
Azeredo Perdigão bem dispensaria ser recordado nos seus 120 anos às cavalitas dum frouxo resguardar a Fundação de interferências dum, afinal (mas este pormenor é sempre omitido), cordial Presidente do Conselho, cuja política ultramarina até apoiava. Como também teria dispensado (nova omissão) ser, ao depois de Abril e no fim da vida, rebaixado e afastado por lutas internas da presidência que aceitara por sugestão de Salazar (cf. Dic. cit. e v. sobretudo Marcello Caetano, Minhas Memórias de Salazar, 4.ª ed., Verbo, Lisboa, 2000, pp. 660-662 para melhor informação histórica).
É das tais histórias antigas, borrifadas agora de interferências, com que nos empastelam certos perdigotos em frequência modulada.
Azeredo Perdigão e Salazar, [s.d.]
Arquivo da Gulbenkian, apud Observador.
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(*) Enciclopédia livre na rede é bem caçada. Mas é que é mesmo.
(Revisto em 20 à uma e meia da tarde.)
Têm medo que se pelam da verdade.
ResponderEliminarVerdadeiro terror.
ResponderEliminarCumpts.
Esta rapaziada é especialista em fazer heróis a partir do nada, assim uma espécie de criadores de fogos-fátuos, o produto natural do pântano em que vegetam toda a sua miserável vidinha, a lambuzarem-se à nossa conta, no estatal gamelo que é preciso merecer; daí que digam qualquer coisa que se lhes ordene, sem qualquer sentido crítico.
ResponderEliminarE quanto a heróis, é só ver este grande anti-faxista do Azeredo que pôs, ao que parece, o Dr. Salazar em sentido, na esteira dum Aristides, funcionário menor dos N.E. e, de repente promovido a herói de pacotilha; um dia destes será o morte(água) ou qualquer gente desse jaez; é esperar para ver.
De facto tinha o mestre Maistre mais do que razão:
- Cada povo só tem os merdi@ que merece.
Cumpts
Acho impossível hoje em dia ler ou escutar uma voz isenta que fale do Estado Novo ou do Prof. O. Salazar nos órgãos de comunicação social. Também não deve ser tarefa fácil fazer o mesmo em frequência de mestrado ou doutoramento em História nas diferentes universidades do nosso país (pense-se na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, por exemplo). A história é sempre escrita pelos vencedores, já se sabe, mas o que vale é que tem uma memória muito longa e talvez um dia se possa abordar estes assuntos com mais seriedade.
ResponderEliminarPior. Não ouvi há tempo a Flunser incensando exilados e desertores?!...
ResponderEliminarO antifascismo é mama de ricos dividendos. Mesmo 42 anos depois. Com o dinheiro dos impostos. A História que se dane: a formidável História de Portugal do Mattoso (Círculo de Leitores, 1993, 8 vols. encadernação de luxo, miolo em papel couché, lindos de adornar estantes), no vol. que dedicam ao Estado Novo referem uma única vez a Azeredo Perdigão, como apoiante do M.U.D.; sobre o/a Gulbenkian nem pio — o mérito dela calha a quem sabemos... Em 93 ainda havia pudor em mentir opondo Perdigão a Salazar no assunto da Gulbenkian; daí a omissão; hoje campeia a mentira desavergonhada, como vê.
Cumpts.
Alguém que se descaia na isenção (mera isenção fugaz, não incensão), nos me(r)dia, cai em desgraça.
ResponderEliminarChamem-lhe democracia.
Nas quintarolas cá do burgo, mormente nesse antro que nomeia, quem não maquilhe Salazar com sombra PIDE ou base fâchista dão-lhe o arroz; licencia-se pelos mínimos para cínica humilhação. — Filipe Ribeiro de Meneses biografou Salazar com rédea solta porque não vegeta por cá. Pastasse ele por aí e a conversa era outra.
Chamem-lhe liberdade.
A História tem memória longa, mas também sofre muita amnésia. D. Miguel ainda é o absolutista hoje enquanto o chamorro D. Pedro reina libèrrimamente no Rossio de Lisboa e na Praça da Liberdade no Porto. Confronte a semântica dos termos que vulgarmente apomos a um e a outro e veja como a História fica assimilada.
Cumpts.
Tem razão no que diz É triste mas é verdade.Vendem-se chavões e todos acorrem a comprar. E paga-se bem caro por eles.
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