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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

600 anos

 Os do canal da memória tiveram-na de hoje pôr o prof. Hermano Saraiva num dos seus Horizontes da dita sobre a tomada de Ceuta. Os telejornais nem sei se o lembraram. A rapaziada do governo, se ouviu de Ceuta, há-de ter sido por algum eco de import/export que por lá passasse...


 O prof. Saraiva terminou o programa evocando Camões, declamando-lhe versos salteados duma elegia escrita estando o poeta em Ceuta (*). O tema da elegia são os temores da infidelidade da amada que ficara em terras de Espanha. Separado dela pelo mar, inspira-se no alto do monte Abila contemplando o Calpe, do lado das espanhas, onde se ela quedara.
 No exórdio Camões compara o seu destino infausto ao da ninfa Eco, condenada por Hera a não se fazer ouvir e poder apenas repetir as últimas sílabas dos outros; assim o poeta em Ceuta, condenado a sòmente ecoar o seu próprio ser primeiro em que teve a plenitude do amor.



Aquela que de amor descomedido
pelo fermoso moço se perdeu
que só por si de amores foi perdido,

despois que a deusa em pedra a converteu
de seu humano gesto verdadeiro,
a última voz só lhe concedeu;

assi meu mal do próprio ser primeiro
outra cousa nenhũa me consente
que este canto que escrevo derradeiro.

[]



 Da tomada de Ceuta e da glória de Portugal tivemos oficialmente hoje menos que mitologia: nem eco.


José Hermano Saraiva, Horizontes da Memória.
(R.T.P., 2002, in Lusitano27BC)




(*) Sigo M.ª de Lourdes Saraiva, Lírica III, Imprensa Nacional, 1981.

10 comentários:

  1. Trata-se de uma efeméride de importância mundial. Afinal de contas, marca o início da expansão europeia.

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  2. Donde me vejo, da expansão portuguesa.
    Cumpts.

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  3. Obrigado, muito obrigado.

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  4. Mais uma vez obrigado pela referência.
    O que significa que estamos em sintonia.
    Os abrileiros têm vergonha da História.
    Abraço

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  5. Pois! Esta é daquelas que nem dá para acreditar...
    Nem governo, nem presidência, nem militares!
    Foi como se nem existisse.

    Compare-se isto com a comemoração oficial dos 200 anos de Waterloo pelos ingleses. E se os franceses não apreciaram, que ouvissem a versão dos ABBA.

    Recuperámos a soberania?
    Se não foi greve de estado, ainda mais grave.

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  6. Os abrileiros sim. Estes de agora são já um sucedâneo desavergonhado e ignorante e vice-versa.
    Obrigado eu do mote.

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  7. Joe Bernard27/8/15 16:57

    Gostei do comentário!!!

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