![O Palácio Praia; sede nacional do Partido Socialista, [s.n.], [s.l.], 2009, p. 16.](https://lh3.googleusercontent.com/blogger_img_proxy/AEn0k_uJ1PTa4Mu8PxcSsAPEP7ZKlmX1I7SLkbi7blQDB-LZLagXing1NCQM6AqcioL6MdTNMd7y1m9LqIjM_opDZLXuAL7ExHx4fSk-Q9hxGvCZ9HjaiHRFq474hpazYdM=s0-d)
Procurou-me há dias uma estimada leitora do palácio em que se instalou o Partido Socialista, ao Rato. Pois trata-se do antigo palácio do Marquês da Praia que ocupa o topo norte do Largo do Rato, entre a Rua das Amoreiras e a antiga Calçada da Fábrica da Louça, crismada em Calçada Bento da Rocha Cabral por edital da Câmara de (nem de propósito!) 7 de Junho de 1924.
Segundo Norberto de Araújo (Peregrinações em Lisboa, Liv. XI)...
Foi construído o Palácio do Rato cêrca de 1784 por um Luiz José de Brito, contador do Real Erário, sôbre chão de casas e quintais pertencentes à famosa fábrica da louça do Rato; no comêço de oitocentos era da viúva Brito, andou depois alugado, e foi mais tarde comprado pelo Barão de Quintela, do qual passou por herança ao Conde da Cunha e dêste ao Marquês de Viana, que já o possuía em 1828, e cuja espôsa era neta do Barão de Quintela.
Em 1876 o palácio foi vendido ao visconde de Monforte, Luiz Coutinho de Albergaria Freire, dêste passou a sua sobrinha, D. Maria José, que casou com o conde da Praia, depois Marquês, António Borges Dias da Câmara e Sousa; dêste transitou a seus filhos, 2.º Marquês da Praia e Monforte, D. Duarte, e Condessa de Cuba [...]
Interrompo aqui a peregrinação de Norberto de Araújo por deixar Trindade Coelho contar um episódio curioso deste 2.º Marquês, Duarte Praia, e por mostrar que as bexigas doidas da política deram na história deste palácio ainda se não esfumara nas crónicas sociais lisboetas a opulência dos bailes dos marqueses de Viana, anteriores donos — a ombrear com as faustosas festas dos condes de Farrobo, de Penafiel, do Carvalhal — e muito antes do famigerado caso da capela do Rato ou da sua posterior passagem à posse do bando político do P.S.
Quando morreu em Lisboa o rei D. Fernando [15/12/1885], alguns rapazes de Coimbra lembraram-se de ir á capital em commissão, a representar a Academia nos funeraes regios ! Ora precisamente n'esse anno, começavam a grassar pela rapaziada, lá em Coimbra, as bexigas doidas da politica, e as bexigas atacavam de preferencia os quartannistas — que são bachareis... em flôr!
Como os feriadinhos estavam certos, e isso é que importava, a Academia nem sequer pensou em mandar japonezes aos funeraes! Mas sempre houve tres que quizeram ir; — o Antonio Lagoaça, agora conde de Lagoaça e par do reino; o Duarte Praia, agora Marquez da Praia; e então o Antonio Alte, que andou pelo Brazil uns poucos d'annos, secretario de legação: — todos tres lisboetas da gemma!
Por meio de bilhetinhos passados na aula, os tres lá arranjaram no Theatro Academico uma especie de assembleia a que chamaram geral, mas que não passou, em verdade, de particularissima; deram-se por nomeados para representar a Academia nos funeraes; e quando a briosa soube da historia, já iam todos caminho de Lisboa, muito satisfeitos!
Ora a pirraça poderia talvez passar, feita por outros! Mas feita por aquelles tres, era imperdoavel! Pertenciam todos á primeira ala dos polainudos, chamados assim porque faziam da polaina um chic, e acho que uma fidalguia, — e os polainudos, embora bons rapazes como aquelles tres, eram, como collectividade, quasi odiados! Aquelles bem o sabiam; e bem sabiam, também, que especie de diploma levavam na mala, a acreditál-os como enviados da Academia...
Por isso, e prevendo tempestade na sua ausencia, entenderam-se antes de partir com o Antonio Cabral, que andava então no 5.º anno e tinha a sua influencia na rapaziada, — e pediram-lhe que se estalasse tempestade na ausencia d'elles, fizesse por a amainar.
Prometteu o Antonio Cabral o que lhe pediam, — e os tres lá partiram emfim para Lisboa, representantes da Academia!
Mas a tempestade não tardou a desencadear-se, e desencadeou-se furiosamente! Um Aviso pegado nas portas do Club Academico chamava a Academia, offendida nos seus brios, a uma assembleia geral, com o fim de protestar contra os « usurpadores » !
Andou o Antonio Cabral em bolandas, para ter mão no chinfrim [&c. &c.]
Trindade Coelho, In Illo Tempore; estudantes, lentes e futricas, Aillaud, 1902, pp. 121, ss.
A usurpação como prática política baixa dos possidónios do palácio da Praia vem, pois, de longe...
O palácio esteve dividido por partilhas entre os herdeiros do Marquês da Praia e era habitado por eles quando o autor das Peregrinações por lá passou em 1939, até que o 4.º Marquês, Borges Coutinho, o cedeu, arrendou e vendeu ao bando do P.S.
Em 1977 era este o estado em que o arrendatário o exibia. O senhorio não devia estar para obras, mas os inqulinos não se perderam por ensaiar ornamentação na fachada... Ao depois de o comprarem lá o compuseram e ainda bem. Não sei se lhe não puseram até um daqueles avisos proibido afixar anúncios nesta propriedade, não venham de lá os esquerdóides democràticamente borrar o rico palácio de propaganda panfletária ou com esses acarinhados sucedâneos das Belas-Artes ditos arte urbana.

Palácio da Praia, Rato, 1977.
Vasques, in archivo photographico da C.M.L.
Pormenores do palácio in O Palácio Praia; sede nacional do Partido Socialista, [s.n.], [s.l.], 2009, p. 16.
Representação de Antonio Horta (Alte), Duarte Praia (marquês da Praia), Antonio Lagoaça (conde de Lagoaça), in Nivel Academico, apud Trindade Coelho, In Illo Tempore, Aillaud, Paris-Lisboa, 1902, p. 141.