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domingo, 21 de junho de 2015

Praia do Sol

Praia do Sol, Tejo (A. Pastor, 1973)
Praia do Sol, Rio Tejo, 1973 (?).
Arthur Pastor, in archivo photographico da C.M.L.


 
 Devo ter navegado nele. Quase de certeza.
 Em meninos somos atentos ao que nos rodeia. Muito nos fica gravado na ideia e nunca mais o esquecemos.
 As travessias de barco da minha infância para a praia, de Belém à Trafaria, eram uma aventura que me fascinava; reparava muito nas bóias e nos pneus que rodeavam o barco; dois padrões. As bóias eram para se salvar a gente se se o barco afundasse -- dizia-me a mãe. -- E os pneus? -- Notava que não eram bem como as bóias... -- Os pneus também -- atalhava o meu irmão, espigadote e... -- Servia tudo para o mesmo...
 Reparava depois muito na espuma que se formava quando o cacilheiro ia cortando as águas. Perguntava como e porquê? -- O mano, com oito anos de avanço sobre mim sabia, é claro. E dizia-me com toda a sabedoria: era Omo. O barco deitava Omo à água, como a mãe para lavar a roupa... -- Não percebia bem, ali, para lavar o quê, mas, lá que explicava a espuma, explicava...
 Depois, do meio do Tejo, eram aqueles reservatórios na outra banda como os da Sacor no Cabo Ruivo que víamos lá de casa. Só que estes eram da Esso e lá onde estavam era o Porto Brandão. Mais tarde soube ler-lhes as letras E S S O pintadas em quatro deles, uma em cada um, não havia dúvida. Reparava muito neles. Ainda reparo. Mas nunca passávamos muito perto porque o barco que apanhávamos não escalava o Porto Brandão.
Em chegando à Trafaria eram as carreiras para a Costa que eram encarnadas; nada como os autocarros verdes, nem na cor nem no aspecto -- não tinham daquelas cabinas para o motorista nem radiadores de calhambeque, eram direitos... -- Mas antes das carreiras havia os gelados de máquina no café do cais, com cone de baunilha; o gelado de baunilha e chocolate saía da máquina e enchia o cone em cornucópia: para mim um cone pequeno de vinte cinco tostões; para o meu irmão um cone maior, de cinco escudos; cones de sete e quinhentos não havia para ninguém...
 Uma vez na praia tive sede e pedi água; o meu irmão disse-me o óbvio: -- Vai ali beber -- e apontou para o mar. Eu ainda perguntei se se podia beber daquela... -- Sim! Há lá muita. -- E eu com 4-5 anos acreditava inocentemente em tudo o que me aquele judeu dizia...


 Desconfio agora é do rigor da data indicada para a chapa: Dezembro de 73. O ano pode ser, mas o mês é óbvio que não.

4 comentários:

  1. Joe Bernard22/6/15 11:37

    A D O R E I o que escreveu!
    Uma maravilha, a recordar tempos de outrora...em que a Caparica se chamava Praia do Sol.
    Embora com a minha mãe fosse para Santo Amaro de Oeiras e Carcavelos, com os meus tios ía para a Praia do Sol.
    O meu muito obrigado.

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  2. Folgo que haja sido do seu agrado.
    As doces memórias de infância são sempre um refrigério.
    Obrigado.

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  3. Ler, meditar e "ver" tudo quanto está escrito.
    Passei por esse tempo.
    MUITO BOM.
    Obrigado.
    M.António.
    PS.
    Pouco importa mas, penso que será 5/6 anos antes da data indicada.

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  4. Obrigado eu!
    :)
    P.S.: muito provável.

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