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sexta-feira, 13 de março de 2015

De «preguntar»...


Em 1945, a A.C.L. e a A.B.L. assinam novo acordo que só Portugal respeitou, porque, apesar de o Decreto-Lei nº 8 286, de 05-12-45, o ado[p]tar oficialmente, os brasileiros não aceitaram as regras, mais próximas fonicamente dos portugueses, nem as letras mudas como em «acto» ou «espectáculo», usadas em Portugal. («Delírio reformista», I.L.C., 17/XI/014.)



 Tem graça. Ruy Ribeiro Couto, Olegario Marianno, José de Sá Nunes, um deles ou outro da delegação brasileira que negociou o Acordo de 1945 foi célere em cantar vitória num telegrama do Rio de Janeiro publicado pelo Diário Popular de Lisboa em 22 de Dezembro de 1945. Se temos hoje inquestionada a grafia «perguntar» (pràticamente só brasileira em 1945) foi por imposição brasileira. Do genuíno e generalizado «preguntar» português («90% dos portugueses -- cultos e incultos preguntam» -- V. B. de Amaral, «Bases da Ortografia Luso-Brasileira», p. 18) não há nem memória, salvo nuns iletrados populares que falam como dizem e pronto. Outro capricho brasileiro deu-nos, aos portugueses, em 1945, «quer» por «quere», «cacto» por «cato», «tecto» por «teto», «corrupção», por «corrução», «aspecto» por «aspeto». E se damos alvíssaras e não «alvíçaras» a tantas destas coisas devemo-lo ao Dr. José de Sá Nunes, que chefiou a delegação brasileira para fixação da ortografia em 1945. Devem ser estas as regras mais próximas fònicamente dos portugueses que à boca cheia se apregoam e repetem.


 Pondo doutro modo: 1) muitas das consoantes abominadas pelo caco gráfico de 1990 foram reintroduzidas na ortografia da língua portuguesa em 1945 por causa dos brasileiros; por causa da fala dos brasileiros, que as pronunciavam e pronunciam e, por conseguinte (bem), não abdicaram delas; os portugueses submeteram-se; 2) o vetusto vernáculo preguntar dos portugueses foi extirpado do português correcto e respeitável (e em poucas gerações do falar popular, até) porque... Enfim, porque os brasileiros dizem pêr-gun-tar!
 Estes são singelos exemplos. Mais haveria.
 E daqui remeteu-se Portugal a uma dignidade serôdia mantendo uma ortografia com regras fabricadas em larga medida em 1945 por brasileiros que logo as renegaram com pregão à falsa fé, até hoje, de ser aquela uma ortografia... lusitanizante! -- Pois não havia de sê-lo nada, nem um só pedacinho?!... 
 E para cúmulo flagelar-se disso Portugal por complexo de não sei quê, rebaixando-se a uma indignidade imprópria por tornar ainda a negociar com os párias do português, tomando-lhe agravos como se nada fossem, indo a ponto de descurar o valor diacrítico das consoantes etimológicas para a linguagem escrita e falada dos portugueses apenas e só porque os brasileiros esquizofrènicamente as desprezam como desprezam o que seja português.
 Se não é isto mania, fixação obstinada, prazer mórbido em servir de capacho, não sei o que seja.

2 comentários:

  1. Inspector Jaap13/3/15 12:20

    Eis como, de uma penada, se desfazem mitos idiotas de gentinha de coluna vertebral intelectualmente gelatinosa e vacuidade cerebral comprovada; que raio de esterco nos haveria de importunar; apre, que é de mais!
    Cumpts
    P.S.: É (recorrentemente) com gosto que volto a parabenteá-lo por mais um assombroso verbete.

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  2. Bic Laranja21/3/15 12:34

    O meu Amigo é sempre generoso. Nao acho que valha os adjectivos, mas, obrigado!
    Abraço.

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