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quinta-feira, 12 de junho de 2014

Pontapé na «chincha»

 Havia há dias uma batata caída no caminho ao pé do infantário. Ainda lá estava depois do feriado, redondinha, mesmo a pedir para jogar com ela à bola. Alembrou-me de em gaiato...
 Em gaiato, lá na rua é que havia uns com o bichinho do pontapé na bola, sempre sem conseguirem estar no que fosse a não ser a jogar a bola. Naqueles tempos, uma lata vazia, uma garrafa de plástico deitada fora, qualquer coisa que se pudesse chutar sem se desfazer nem fazer mossa nos pés (e ainda assim) e lá vinham umas fintas... Ainda agora se isso vê em latagões de sempre alienados ao futebol; topam-se amiúde...  Mesmo assim eram tempos em que não abundavam pela rua objectos perdidos capazes para o pontapé, salvas as pedras da calçada, que não davam jeitinho nenhum para uma futebolada. De modo que achar uma batata...
 A grande dificuldade era havermos chincha (*) a sério para dar uns toques, para jogar um desafio como devesse ser. Bolas de borracha lá na rua eram só dalguns afortunados que as tinham, normalmente birrentos como o caneco e que, volta não volta, amuavam por mau perder ou por lhes não passarem a bola em todas as jogadas. Iam dali com a bola só sua e amandavam-na para a varanda da avó. Arrumavam de vez com o divertimento de todos por capricho particular e pronto!...
 Das bolas de borracha que havia, as mais vulgares que me recorda, eram umas dos iogurtes Grande Ponto. Quem juntasse 25 frascos dos iogurtes ia à fábrica que era mesmo lá na rua e podia trocá-los por uma bola de borracha. A minha mãe não apreciava desafios de bola como eu nem nunca teve a paciência de me deixar ajuntar 25 frascos de iogurte; bem lhe eu o pedia, mas logo que somávamos 5 deles, trocava-os por 1 copo de vidro, o outro brinde da fábrica dos iogurtes. Calhava-lhe decerto melhor sobretudo por me não agravar o risco de vir a quebrar alguma vidraça aos vizinhos com boladas. Coisas de mãe.
 Uma vez comprei uma bola de plástico na drogaria do Sr. Aníbal; eram a vinte e cinco tostões, baratinhas à brava! Percebi logo como ninguém as não comprava: dois pontapés mais valentes e a bola rebentava-se; por isso todos as desprezavam como coisa de bebé. Ainda me soam os outros: Hi, uma bola de plástico, pff!...
 Lembro-me ao depois de, finalmente, ainda franzino, ter desencantado dinheiro nalguns recados a carregar garrafões 5 L de água do Luso (aos pares) para o sr. Praças e no aviar de mercearias, drogarias e uns Alka Seltzer na farmácia para a D.ª Libânia. Consegui comprar uma Futebol 2 de borracha castanha; era maior que a Futebol 1 e mais em conta que Futebol 3, a maior de todas.
 Azar desgraçado!
 Estávamos nas primeiras vezes a jogar aos centros e num remate desajeitado meti-a eu próprio pela janela do velho do 72. Cavámos dali todos a correr que o velho era carrancudo e embesoirava com as nossas jogatanas de rua. Nunca me afoitei em lá ir pedir-lha, não fosse ter partido alguma jarra à mulher do velho ou algo assim e ter de lha pagar.
 Isto era o que havia de bolas lá na rua e nem era mau, comparando...  Às vezes tresmalhava-se por lá pela rua algum copinho-de-leite mais precioso, equipado a preceito, com botas de jogador (não sabíamos dizer chuteiras) trazidas de Badajoz e bola de cá-de-chumbo (ninguém sabia do que fosse caoutchouc e cá-de-chumbo soava mais que certo; aquelas bolas pesavam que fartavam). Estas aparições de cromos de caderneta eram um acontecimento, mas também ele era ver a inveja roer-nos fundo por o bijou não querer passar a bola a ninguém para dar um toquezinho sequer, nem querer fazer um desafio por se lhe não engelhar o equipamento. Meninas do caraças, pareciam o Nené!...


Bola de cá-de-chumbo do Mundial de 74...




(*) Chincha era bola na nossa gíria de rua. Não lhe encontro este significado nos dicionários que consultei. Não sei se se usava noutros bairros.

12 comentários:

  1. Chincha já no meu tempo e na minha zona suburbana e saloia era um dos termos.
    Haveria de estar espalhado um pouco por todo o lado.
    Quanto à origem...
    Abraço

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  2. Bic Laranja13/6/14 11:45

    Usava-se noutros bairros, portanto.
    Cumpts.

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  3. Pedro Jaime13/6/14 22:34

    catchumbo tem mais pinta

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  4. Bic Laranja13/6/14 23:12

    Não tem nada.

    Abraço.

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  5. ...exactamente, sempre a conheci por chincha ou pelo nome cientifico de cá-de-chumbo! e muitas vezes no verão ao fim de semana havia uma jogatana ou uns centros no relvado da Alameda... até aparecer a bófia!

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  6. Bic Laranja16/6/14 17:11

    Confirma-se o uso noutros bairros, pois.
    Cumpts.

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  7. ASeverino17/6/14 13:54

    E não é que fiquei ontem a saber que o Fábio Coentrão (discípulo de JJ no português) não era médico...

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  8. ASeverino17/6/14 19:12

    O tal dos pinates " (Jorge Jesus-treinador do Benfica) .

    Mas ao menos louve-se-lhe o baile que deu ao treinador inglês quando, em Inglaterra, este arrogante treinador do Tottenham se apressava para se pôr de escadote a gozar com o portuguesinho só que este felizmente não se pôs de cócoras como, se calhar a maioria dos "media" (é assim que agora se diz imprensa, não é...) mas dizia eu como a maioria dos jornalistas queria, tanto assim que ficaram logo todos indignados com a atitude "carroceira" (palavras deles) do JJ

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  9. Bic Laranja17/6/14 22:34

    Confesso que me nem ocorreu o óbvio. Devo estar mais envelhecido do que pareço.
    Agradeço-lhe a aclaração (muito melhor que dizer-se «esclarecimento», hem!) e louvo-lhe a fina ironia sobre essa língua de pau que escorre das melhores cabeças destes tempos.
    E sim senhor, louve-se J.J. (o moderno) por manter vivos os pergaminhos dos velhos cocheiros e saber meter na ordem as bestas.
    Quanto à não medicina do coentrão depreendo que seja descoberta dalgum jornalista, não...?

    Cumpts.

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  10. ASeverino17/6/14 23:52

    Declarações do Coentrão no final do jogo contra a Alemanha, quando saiu lesionado e os restantes mais tarde humilhados: senti uma coisa, uma coisa na perna, mas não sou médico, é coméudigo não sou médico...

    Daí eu ter salientado que não era preciso ele dizer, não acha meu caro amigo?

    A propósito da expulsão do brasilênho Pepe, que muitos jornalistas da praça acharam exagerada, mesmo depois deste ter pregado uma cabeçada no seu adversário: é que um gajo quando é rufia da favela é rufia da favela mesmo que se desloque de Porshes.

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  11. Bic Laranja18/6/14 12:10

    Foi bom ele ter dito porque assim ficamos aclarados; nunca se sabe quantos não passearem numa dessas nas universidades socrático-rélvicas...
    O que eu perco por perder os campeonaatos de martraquilhos.
    Cumpts.

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