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sábado, 15 de março de 2014

A sangueira dos bacongos


    No dia 15 de Março, seriam umas 11 da manhã, foram levar ao meu gabinete no Serviço de Operações da D.T.A., uma mensagem proveniente do avião que estava executando o usual serviço ao Uíje. A mensagem era estranha, muito pouco clara. Avisava que chegaria quase com uma hora de avanço sobre o horário, e pedia a presença de duas ambulâncias. Mas, acrescentava a mensagem, «... devo estacionar em área longe do público e devidamente isolada». O que nos deixou completamente baratinados! Nada daquilo fazia sentido. A mensagem vinha assinada pelo comandante do serviço, que era então o Chefe de Operações.


    Quando o avião aterrou, indicaram-lhe um estacionamento bem afastado da aerogare, onde se encontravam já duas ambulâncias. Ao chegar junto do avião, desembarcavam os primeiros passageiros. Um deles, desgrenhado e esfarrapado, trazia uma criança nos braços e, mal me viu, veio direito a mim.


    «Oh! meu senhor, já viu o que fizeram à minha filhinha? Já viu? Ela já não chora... Veja o que lhe fizeram!», e estendia os braços onde jazia uma garota de uns 4 a 5 anos com a cara e corpito meios cobertos por trapos ensanguentados.


    O homem, franzino e de olhar esgazeado, insistia: «Veja! Veja! Olhe o que lhe fizeram...», e as lágrimas escorriam-lhe pela cara suja e com barba de alguns dias.


    Fiquei pegado ao chão, gelado e sentindo-me prestes a vomitar. Não consegui articular palavra. Gritos lancinantes partiam do avião, para onde tinham entrado enfermeiros. Corri para a escada encostada ao avião. Junto desta, um servente negro da D.T.A. chorava convulsivamente. Mal entrei na cabine de passageiros, o cheiro de vómitos e de sangue, os gritos e gemidos dos feridos, quase me fizeram retroceder. Alguém me agarrou por um braço e me arrastou para fora do avião, ao mesmo tempo que me tentava acalmar. Já afastado do avião é que, voltando a mim, reconheci o Chefe de Operações, o comandante do avião.


    «Eh pá, está tudo lixado! Os gajos atacaram todas as fazendas no Uíje. Apanharam a malta de calças na mão. lsto» -- e apontava para o avião, -- «é só uma amostra! O Hospital de Carmona está a abarrotar de mortos e feridos. Pedem para que enviem aviões para evacuar os feridos. Estão a organizar-se colunas de voluntários civis para acudir às fazendas atacadas, mas duvido que cheguem a tempo de salvar aquela malta.»


Eduardo Alexandre Viegas Ferreira de Almeida, «15 de Março de 1961», Quarenta Anos de Aviação, Martins & Irmão (impressor), 1995, p. 214.



3.ª Réplica do Padrão S. Jorge, Foz do Rio Zaire – Ponta do Padrão – Moita Seca, assente no ano de 1859 Lat. 6º 04 Sul e Long .12º 19’ Este (A.F. Mata, Tropicália, 29/V/2010)
Padrão S. Jorge (3.ª réplica do padrão deixado por Diogo Cão em 1483), Foz do Rio Zaire – Ponta do Padrão, [post 1938].
(A.F. Mata, «O padrão de S. Jorge», Tropicália, 29/V/2010.)

11 comentários:

  1. mujahedin16/3/14 14:31

    Assim foi, há 53 anos, que começaram a destruir Portugal...

    Triste efeméride...

    Estes mortos ninguém os lembra... quase ninguém.

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  2. Há quatro anos ouvi da boca de um angolano oriundo de Carmona (vive agora em Luanda, foi professor e graduado do Exército Português) relatos das atrocidades cometidas. Coisas que em Portugal ninguém recorda, quando se fala desses tempos.

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  3. mujahedin17/3/14 12:34

    Coisas que em Portugal ninguém recorda

    Quase ninguém...

    Peço desculpa ao Bic pela publicidade, mas creio que interessará:

    http://ultramar.github.io/pieter-lessing-substitute-for-an-introduction.html

    http://ultramar.github.io/a-justificacao-da-tortura.html

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  4. O interêsse é inequívoco. Remissões directas:


    Muito obrigado!

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  5. Bic Laranja18/3/14 18:57

    Os antropófagos arregimentados pelo Holden Roberto mataram, esquartejaram, queimaram e salgaram pretos, brancos, homens, mulheres, crianças e animaes.
    Ah! libertadores!
    Cumpts.

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  6. Bic Laranja18/3/14 19:03

    Efemérides que são noticia: o Cunhal, a fuga do Cunhal, o guarda que deixou fugir o Cunhal, o carro em que fugiu o Cunhal... E onde o Cunhal parou a fuga para poder dar um mijinha só não é notícia porque ainda não acharam o arbusto certo.
    Cumpts.

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  7. Inspector Jaap20/3/14 23:21

    Há (?) um livro que eu li em 1965, se a memória me não falha, brutalmente ilustrado com fotos sem Photoshop ” das atrocidades que se passaram em Angola; a minha memória já conheceu melhores dias, mas essas imagens ficar-me-ão bem vivas para todo o sempre; infelizmente, não tenho ideia de que o escreveu e, do título, só me recordo que conteria a palavra «terrorismo»; em qualquer caso, duvide que ainda se possa encontrar, a não ser em algum sítio muito particular; os relatos que li nas remissões, trouxeram-me à memória essa experiência, que deveria ser mais cultivada, não fora ela politicamente tão incorrecta: os bandidos éramos nós, claro.
    Cumpts

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  8. mujahedin21/3/14 09:35

    O único que eu conheço com fotografias é o «The Fabric of Terror» de um Bernardo Teixeira, escrito em inglês.

    Tem umas quantas fotografias no meio e dá conta de umas poucas de histórias dos terrores e horrores que por ali se passaram.

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  9. mujahedin21/3/14 09:48

    Uma das histórias mais arrepiantes e famosas, é a da serra mecânica do Luvo. Segundo se descreve no livro, os infelizes que tiveram o infortúnio de cair nas garras dos selvagens, foram cortados ao comprimento numa serraria que ali havia.

    Dei conta pela primeira vez desta história num artigo de um jornal americano que dava conta, por sua vez, das dificuldades que sentiam os diplomatas portugueses em falar no estrangeiro, naquele caso o MNE numa universidade americana. O articulista invoca a história da serraria para exemplificar o tipo de coisas que quem vituperava e censurava os portugueses nunca se lembrava. Menciona também uma entrevista do facínora-mor Roberto ao Le Monde em que confessa despreocupadamente tais façanhas, que é a que acima se deu ligação sob o nome "Justificação da Tortura". Pode ser visto aqui, o artigo americano que fala do livro de Teixeira:

    http://ultramar.github.io/os-terroristas-de-palco-ou-o-jornalismo-que-a-democracia-portuguesa-nunca-viu-nem-quer-ver.html#titulo

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  10. Inspector Jaap23/3/14 22:15

    No limite, até poderemos estar a falar da mesma obra, de facto, pois não haverá assim tantas a versar esse tema, penso eu; todavia, tenho uma ideia MUITO ténue de que o autor seria um jornalista, mas não garanto, de todo! A ser assim, e depois de ter lido a introdução na sua remissão, que lhe agradeço, só posso pensar que a censura deste magnífico regime, que a não tem, dizem eles, terá funcionado em pleno e o livro destruído, por, politicamente, mais do que incorrecto.
    Obrigado pela achega, que vou ver se descubro a obra que teve a coragem de mencionar aqui; muito obrigado.
    Cumpts

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  11. Inspector Jaap23/3/14 22:18

    Este seu segundo comentário vem aumentar extraordinariamente as probabilidades de se tratar, de facto, da mesma obra, já que esse horripilante episódio de barbárie, está bem vivo na minha memória e foi muito comentado por aqui, à época.
    Cumpts

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