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domingo, 16 de março de 2014

Descobertas do Congo, de Angola e a atroz colonização portuguesa




« [...] Naquele ano, pois, de 1482, por certo antes de Agosto, e possìvelmente na Primavera, Diogo Cão partiu; deteve-se algum tempo, como era lógico e informa João de Barros, na feitoria da Mina. Retomando a viagem e ultrapassado aquele cabo [de Santa Catarina, a 1º 40' lat. S], prolongou o reconhecimento da costa até um pouco a sul do cabo do Lobo ou Santo Agostinho, actualmente cabo de Santa Maria (13º 26' lat. S), ou seja por um espaço de 10º. O mapa de Soligo, a que nos referimos, regista os topónimos dos acidentes geográficos descobertos entre os quais avulta o Rio Poderoso, nome com que primeiro se designou um dos maiores rios do continente africano, o Zaire.
   [...]
   Aplicando o método hagiológico, que relaciona os topónimos de nomes de santos com a data da festa respectiva no calendário, pode rastrear-se o ritmo da viagem. Supõe Damião Peres, reportando-se ao padrão de S. Jorge, que o estuário do Zaire tenha sido visitado em 23 de Abril de 1483, e o cabo do Lobo também chamado de Santo Agostinho e assinalado de igual forma, a 28 de Agosto daquele ano.
   Facto da maior importância: Diogo Cão trouxe na torna viagem alguns indígenas congoleses, recolhidos no estuário do Zaire, e a notícia de que para o interior, cortado pelo curso desse rio, existia um grande reino, a cujo chefe ele enviara emissários com um presente [1]. Iniciava-se assim o descobrimento humano e duma vasta comunidade de cultura, sobre que iam assentar os fundamentos da província portuguesa de Angola.
    [...]
   Obedecendo a novo mandado do monarca, Diogo Cão partia em 1485 para outra viagem de descobrimento, levando de retorno os quatro indígenas congoleses que, na foz do Zaire, trocou pelos emissários portugueses que ali deixara. Uns e outros se haviam mutuado o conhecimento das línguas próprias; continuava-se a prática, iniciada em tempo do Infante D. Henrique, da formação dos intérpretes, que permitiam um contacto mais íntimo entre descobridores e os aborígenes. Continuando a viagem, por mais 1400 quilómetros, Diogo Cão percorreu os litorais africanos da actual província de Angola, já em parte explorada durante a viagem anterior, e penetrou nos da Damaralândia até ao lugar da costa, que ficou tendo por conhecença a Serra Parda, cerca de 22º de lat. austral.
   [Na] informação de Barros, segundo a qual Diogo Cão, no regresso, fora visitar o rei do Congo à sua corte, tanto este historiador, como os cronistas Rui de Pina e Garcia de Resende contam o facto, dando-lhe grande e merecido relevo: informa o último que o rei do Congo recebeu com o maior alvoroço a embaixada portuguesa e os quatro congoleses que regressavam de Portugal, e em troca mandou a el-rei por embaixador Caçuta [...], homem muito principal e a ele mui aceite, que depois de ser cristão, houve nome D. João da Silva [...], o qual trouxe a el-rei [D. João II] um presente de muitos dentes de elefantes e coisas de marfim lavradas, muitos panos de palma bem tecidos e com finas cores. Fiado no cumprimento da primeira promessa do capitão português, que devolvera à terra natal os quatro congoleses, agora bem vestidos e contando maravilhas sobre o tratamento recebido e o novo mundo de cultura entrevisto em Portugal, o rei do Congo (conta Resende), mandou pedir a D. João II que lhe mandasse logo frades e clérigos e todas as coisas necessárias para ele e os de seus reinos receberem a água do baptismo; [...] pedreiros e carpinteiros [...] e também lavradores para lhe amansarem bois e lhe ensinarem a aproveitar a terra e assim algumas mulheres para ensinarem as de seu reino a amassar o pão, porque levaria muito contentamento por amor dele que as coisas de seu reino se parecessem com as de Portugal . O rei indígena enviou também alguns moços do seu reino para que em Portugal aprendessem a língua, os costumes e a religião dos portugueses.» [2]



Roque Gameiro, Diogo Cão (aguarela)





[1] «[...] e vendo que os negros da terra se fiauão delle, e entrauão ja nos nauios, determinou não esperar os Christãos que mandara, e partirse com alguns daquelles negros, e assi fez. Porque os que primeiro se fiarão, e vierão á frota, acolheos [acolheu-os] dentro, e não os deyxou mais sayr a terra, e se veo com elles pera Portugal, não nos trazendo como captiuos, mas com fundamento que despois de aprenderem a lingoa, e costumes nossos, e a tenção del Rey [D. João II], tornarião a Manicongo, e per elles se poderia bem saber tudo o que comprisse de hũa parte e da outra [...]» (Garcia de Resende, Chronica dos Valerosos e Insignes feitos del Rey Dom Ioam II, Coimbra, Real Officina da Universidade, 1788, p. 222.)
[2] Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses - III, [Lisboa], I.N.C.M., imp. 1990, pp. 590-592.




Mapa: Cristoforo Soligo (1485-6), in A.F. Mata,Tropicália, 1/II/2011.
Aguarela: Roque Gameiro, Diogo Cão [s.d.], in Luís de Albuquerque, Navegadores Viajantes e Aventureiros Portugueses. Sécs. XV e XVI, Vol. I, Círculo de Leitores, [s.l.], 1987, p. 73.

3 comentários:

  1. Inspector Jaap20/3/14 23:35

    Mais uma vez, um grande título; com efeito os Portugueses eram mesmo maus e sanguinários para com os gentios; se calhar terá sido por isso, que um, geograficamente minúsculo país europeu, conseguiu manter o seu império colonial muito para além das grandes potências europeias, o que se tornou insuportável para estas, que tudo terão feito para o liquidar… só não vê que é cego ou de má-fé.
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  2. Bic Laranja22/3/14 20:54

    O que diz é certeiro.
    Como manteve Portugal cinco séculos de soberania em tanta parte com um comportamento tão odioso?
    Como foi que ainda assim houve gente em Timor que guardasse religiosamente até ontem a bandeira da Sra. D.ª Maria I?
    Ou que nem a China reivindicasse nunca Macau?
    Talvez em África fosse diferente... Talvez os negros que desaguaram em Portugal desde que são independentes saibam responder...
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  3. Inspector Jaap23/3/14 22:37

    Para esta gente menor que assola o território nacional, o que menciona, são casos de honradez que lhes não cabem no bestunto; pois poderão eles alguma vez, perceber o sentido da honra por parte do timorense que menciona, e que, com risco da própria vida, provavelmente por decapitação, como é(ra) uso para aquelas bandas, guardou, como justamente diz, a nossa bandeira e que só exigiu que lhe pagassem (30$00/ano?) para a devolver? Ou o caso daquele negro guineense que esteve aqui atrasado naquela odiosa estação de televisão que dá pelo nome de RTP (a falta dos pontos é propositada) e que foi instado a justificar por que razão não tinha desertado, e quiçá, colaborado nas atrocidades habituais, também lá, à época; ou ainda a dignidade com que o governo chinês se recusou, ao princípio, a receber Macau, já que tinha sido uma dádiva dos seus Maiores a Portugal, como prova de reconhecimentos pelos serviços prestados pelos Portugueses contra a pirataria que grassava no Mar Amarelo? Falamos pois, de ofídios no sentido mais absoluto do termo.
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