Estamos na Quaresma… e os cantigueiros do 25 de Abril grande acidente nacional andam num afã frenético. Na emissora nacional montaram a via sacra dos Dias Cantados. As canções que Portugal cantou às escondidas antes do 25 de Abril, e com as quais depois celebrou a liberdade. – Não é maravilhoso? – Na verdade esta via sacra engrossa já em santíssima trindade, que o missal está para ser rezado ao povo em três séries. Um festival de cantoria pegada, de vira disco e toca o mesmo com a psicose da censura no lado A, e a endrómina da santa liberdade (mais velha que a Maria da Fonte) no lado B.
O cantigueiro António Macedo rezava hoje a ladainha neste modo:
« Os dias cantados antes do 25 de Abril também se fizeram com música sem palavras. Mudar de Vida, de Carlos Paredes, é um bom exemplo dessa forma particular de intervenção musical nos anos da sombra. Mudar de Vida marca também a segunda colaboração musical com o cineasta Paulo Rocha, com quem já tinha trabalhado em 1963 para o filme Verdes Anos, criando o tema homónimo que acabou por superar em popularidade o próprio filme [porque a música é muito melhor que o filme]. A emigração e a guerra são ponto de partida de Mudar de Vida estreado em 1967 com argumento de António Reis e Paulo Rocha e interpretações de António Coelho, Isabel Ruth e Maria Barroso [Geraldo Del Rey nem mereceu menção]. O filme conta a história dum homem transformado pela guerra e abandonado pela noiva que o preteriu em favor do irmão. De regresso à sua terra, uma aldeia de pescadores perto de Ovar, a nova realidade com que se confronta e o encontro com uma jovem impetuosa levam-no a uma nova partida com vista a mudar de vida […]»
Que dramalhão!
Na pena de Gil Vicente ou Camillo o argumentozeco havia de ser um fartote; às mãos dos intelectualóides neo-rea-
listas é moleza de deitar exércitos a fugir. Mas os cantigueiros dirão que é democracia. E segundo eles até as frases no cartaz de estreia -- «um homem entre duas mulheres; um mundo que morre e um mundo novo que nasce» e «o écran só era suportável quando o português Paulo Rocha fotografava em Mudar de Vida as condições de trabalho a bordo dos barcos da sardinha» -- hão-de ser palavras de ordem contra a opressão. Uma cifra revolucionária que só os estrábicos do lápis azul não entenderam. E daí o filme ter-se estreado.
É assim que o refrão da censura e a balada dos anos de sombra matraqueiam incessantes em cacholas perturbadas; precisamente da perturbação se justifica virem-me com a arenga de que Portugal cantou às escondidas antes do 25 de Abril uma peça de música instrumental.
(O recorte é fundação do irmão do dr. Tertuliano.)
Caro Bic , se tivesse que classificar os seus verbetes desde que, em boa hora, “tropecei” em si, este ficaria seguramente nos cinco primeiros (perdão, top-five ”); absolutamente notável, este trecho de escrita de excepção, quer na forma, quer no conteúdo que lhe pede meças; e mais não digo…
ResponderEliminarCalorosos cumprimentos
Generosidade sua.
ResponderEliminarMuito obrigado.