O exame previo do Estado Novo -- ou censura como preferem os ciosos antifascistas -- tem costas largas. A verdade é que as omissões dos democratas, ainda durante o Estado Novo e depois d'elle, sommadas ao ruido distractor, deram e dão no mesmo: censura deliberada e ludibrio descarado de opinião pública.
A III.ª Republica é tão ou mais censoria que o Estado Novo. Peor; acoberta-se na imperiosa Liberdade para passar por democracia. Um logro em todas as medidas.
Na Porta da Loja publicam-se paginas d'O Seculo e do Republica com retrospectiva do anno de 1973. Graças ao exame previo, e independentemente d'elle, cada jornal abafava o que não agradava á sua linha editorial: -- o Republica alardeava os actos da opposição ao govêrno em extensos paragraphos, mas os successos adversos á sua lucta dava-os de raspão; assim, o caso da capella do Rato valeu columna e meia [inteira] de jornal, em quanto a eliminação do Amilcar Cabral pelos proprios camaradas do P.A.I.G.C. foi mettida n'uma phrasezinha, não mais. -- O Seculo, por seu lado, mencionava (bem) a visita de Marcello Caetano á Inglaterra, como retribuição da visita a Portugal do principe Philippe pelos 600 annos da Alliança Luso-Britannica; não dava conta da manifestação internacionalista contra Portugal nem das diatribes do padre Hastings ou de Mário Soares nessa occasião, em Londres.
Vê-se que havia mais censores e mais fórmas de censura, que não o conhecido exame previo do govêrno, mas hoje ninguem o diz...
Recorda-me a proposito do prof. Marcello Caetano pouco depois, em Março de 1974, commentando mais um ruidoso clamor da opposição (sempre sonnante, apesar do exame previo) sôbre notícias que havia ou deixava de haver ácerca da intentona das Caldas:
Há por aí frequentes queixumes de que não temos por cá uma informação completa. Nada, porém, que de verdadeiro se passa que ao público interesse, deixa de ser trazido ao conhecimento dele.
Pois bem. Da triumphal informação completa parida como cravos em G3, alguem diga se por ventura ouviu notícia d'este passado caso:
Nos primeiros dias de Outubro [de 2013], ocorreu uma situação assaz grave no Centro de Tropas Comando, na Carregueira [...] O caso conta-se em poucas linhas. Naquela noite, dois praças entraram no gabinete do oficial de dia e agrediram violentamente o capitão que estava de serviço.
Ten.-Cor. Brandão Ferreira, «Acontecimento grave no seio das Forças Armadas», in O Adamastor, 13/XII/2013.
A censura acabou, não dizem? Portugal tambem.
Imagens: jornal República, in Porta da Loja; prof. Marcello Caetano, in Praça da República.
No Público, em data bem próxima do Natal passado. Desgraçadamente não a saberei indicar.
ResponderEliminarCumprimentos,
Costa
Se se refere ao motim no «hotel» do Isaltino, não é o mesmo caso.
ResponderEliminarO que aqui refiro é de indisciplina grave nas fileiras do exército; agressão de dois praças a um capitão. Leia o que escreveu o Ten.-Coronel Brandão Ferreira, por favor.
Cumpts.
Refiro-me precisamente a essa crónica. Foi publicada nesse jornal. De noticiário sobre o assunto não dei de facto conta.
ResponderEliminarFaço-lhe uma proposta!
ResponderEliminarPasse a escrever os textos em "Galaico-Duriense".
Não, obrigado!
ResponderEliminarSe quizer, commente vossemecê em mirandês.
ResponderEliminarUm bando de reles comediantes é o que todos estes anti-fascistas de trazer por casa, são. Mentem despudoradamente desde a primeira hora em que optaram por colar na lapela o distintivo que os auto-promoveu instantâneamente a 'heróis anti-fascistas' para a vida. Andaram anos sem fim a acusar o anterior regime de censurar todas as notícias que se relacionassem com a esquerda comunista e socialista, quando afinal eles, os indignos anti-fascistas, são quem censura vergonhosamente desde a abrilada tudo quanto diga respeito à verdadeira direita portuguesa.
ResponderEliminarUm medo aterrador da direita portuguesa, nobre e patriota, é o que os apátridas, que a duras penas aguentamos há tempo demais, sentem e temem por pressentirem e com razão que aquela representa mais do que 90% da população. E tanto assim é que na pseudo-Constituição secreta e maquiavèlicamente cozinhada pelos próprios à revelia dos portugueses defensores incondicionais da sua Pátria, há a cláusula indispensável para permitir a sua ascensão ao poder e ao respectivo rapinanço da Nação, que proibe terminantemente partidos 'faxistas'... - partidos estes que jamais o consentiriam - e os poucos deles que tentaram honrada e patriòticamente representar a direita portuguesa foram sendo sucessivamente desmotivados e/ou ameaçados directa e indirectamente até se extinguirem por completo, quando verdadeiramente fascistas são os partidos criminosos a que os 'anti-fascistas' pertencem. Grandes democratas realmente..., melhor será ficarem para a História como o pior bando de corruptos, embusteiros e ladrões que efectivamente são.
Politicagem ignóbil esta que perdeu toda a credibilidade cívica e moral há muito tempo.
Quando é que os portugueses de bem expulsam do país todos estes bandidos (assim acertadamente designados por M. Filomena Mónica) que tanto mal têm feito a Portugal?
Os portugueses genuínos que se decidam ràpidamente porque se faz tarde para salvar Portugal destes abutres malditos. É que eles já lhe comeram a carne e continuam de garras afiadas para lhe roer os ossos.
Esqueci-me d'assinar o comentário. Sorry:)
ResponderEliminarMaria
Ahahahahah...
ResponderEliminarMaria
Caro amigo, a descrição que me faz é de um princípio de um movimento golpista, qual putsch de Munique; ou então militares que estavam "passados dos carretos" e faltaram ao respeito a um seu superior.
ResponderEliminarCurioso me falar em censura porque quando foi o golpe das Caldas, a imprensa relatou dentro do possível o evento e agora nada se soube....
"ou censura como preferem os ciosos antifascistas"
ResponderEliminarNão - censura foi o termo legal, de 22 de Junho de 1926 até "[...]de Junho de 1972, com a entrada em vigor da Lei de Imprensa que o regime fizera aprovar em Novembro de 1971, a expressão VISADO PELA CENSURA foi erradicada das páginas dos jornais. Mas a censura manteve-se através do regime de Exame Prévio, evolução registada nas provas a partir de Junho de 1972 (...)"
->Confundir o que os jornais escrevem ou omitem livremente com uma censura estatal é algo que roça a desonestidade intelectual.
Fonte - para além de conhecimento pessoal
http://srec.azores.gov.pt/dre/sd/115161010600/contacto/0708/outrsocontactos/0607/0607/espacodomundo/censura.htm#r%287%29
http://cmtv.sapo.pt/detalhe.aspx?channelID=34F5E1B7-BABF-4C08-83FC-20AF9E097CDA&contentID=4AE3B755-56ED-47A6-8308-EFF14C401470
ResponderEliminarO assunto foi noticiado na CMTV e no jornal Correio da Manhã.
Com os cumprimentos de
João Cotrim
Do arrimo à «deshonestidade intellectual» não haja confusão; omissões são censura deliberada e o que dicta a agenda mediatica, então como agora, não haja também ilusões, é o ludibrio descarado de opinião pública. Eis a deshonestidade.
ResponderEliminarGrato pelo esclarecimento sobre o formalismo da censura official.
Cumpts.
Segui a sua remissão e vi que foi noticiado o caso em 15 de Dezembro. Ora o succedido deu-se em Outubro e o Ten.-Cor. Brandão Ferreira contou-o em 13 de Dezembro.
ResponderEliminarEsta chronologia indicia a fonte da notícia do Correio da Manhã. Não parece que mais ninguem lhe pegasse, a final.
Grato!
Verifico que não terá chegado aí a minha resposta.
ResponderEliminarConsistia ela em perguntar-lhe se se pode comparar a omissão de factos - feita de modo livre, honesta ou desonestamente, por um jornal,com a intervenção governamental para censurar notícias que não lhe agradam.
Veja se entende. Não é por o agente da omissão ser ou deixar de ser alheio ao jornal que uma omissão deixa de o ser. O resultado acaba egual, ainda que num caso vossemecê se não ensaie de lhe chamar censura e no outro lhe prefira chamar criterio jornalistico ou outra coisa qualquer.
ResponderEliminarO resultado acaba egual.
Cumpts.
Pensando bem, motins na caserna, em democracia, não são nada; como haviam de ser sequer notícia? Haja direito à reivindicação.
ResponderEliminarCumpts.
Mentem artificiosamente; recriam a linguagem; subvertem a realidade das coisas e moldam as mentes por via d'ella; monopolizam os grandes meios de comunicação e ensino com um discurso monolítico e 'seccam' paulatinamente em redor todo aquele que venha a destoar.
ResponderEliminarNão sahiremos d'isto facilmente.
Cumpts.
Exactamente. Eles são como os eucaliptos, onde quer que se instalem secam tudo à sua volta, destruíndo no acto outras espécies muito mais saudáveis e mais valiosas. Verdadeiros arboricidas é o que eles são, nos dois sentidos da palavra.
ResponderEliminarMaria
A liberdade de imprensa e a variedade dos interesses chegarão para que, com alguma diligência, não fique na ignorância quem quiser ser elucidado sobre determinado facto. Porém, muito legítima e convenientemente, as notícias, v.g., do Público não são as do Correio da Manhã.
ResponderEliminarJá o mesmo não se passaria se o governo pudesse, como podia, impedir a publicação de uma notícia em todos os jornais...
Além da humilhante da questão, para quem não gosta de viver tutelado.
Embora nunca tenha gostado, achei graça ao "vocemecê", tão em desuso. Quando era pequeno, cá em casa era o que as empregadas usavam para os pobres que vinham pedir.
Os modos de tratamentos são coisas sérias. Lembro-me de em casa de amigos, alguém ter perguntado quem era naquele retrato, sobre a cómoda. Que era uma tia sua. E para sintetizar, acrescentou: "tratava o Salazar por tu".
E ele tratava-a a ela por "V. Exia".
Melhor:
ResponderEliminarSem liberdade de imprensa, applica-se em cheio ao tempo do Estado Novo. A prova foi o marxismo cultural vingar, apesar da censura official. Deu na suppressão do regimen e dura até hoje. O que succede é que um discurso monolitico e favoravel ao «statu quo» impera sempre e é imposto pelos domnos do poder; e no caso de regimes com liberdade de imprensa elle torna-se notoriamente mais despercebido, fazendo com que menos do que os que subvertiam o Estado Novo diligenciem em elucidar-se n'outra visão das coisas. É assim que, em democracia, o grosso dos espiritos acaba melhor doutrinado ideologicamente.
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D'uma vez alguem escamou-se commigo aqui por tractá-lo(a) d'esta fórma. Disse que eram os modos da creada para o motorista, ou algo assim. Tenho penna que me haje levado a mal.
Cuido que o pejorativo do «vossemecê» se esbateu com o seu desuso. E sabemos que na origem era tractamento ceremoniosa.
O palavreado na voz do povo dá voltas engraçadas. Já nas mãos dos ideologos da acção e da lucta de classes...
Cumpts.
O que refere sobre o marxismo nada tem a ver com a censura da imprensa diária.
ResponderEliminarO tratamento de "vocemecê" será hoje, pela sua raridade, uma mera reminiscência pitoresca. Na minha infância, já raro, era ainda audível, como referi, nas classes mais modestas.
O exemplo do comentador que refere é certeiro. Mas, o "vocemecê", não deixando de ser um pouco grosseiro, não seria necessariamente pejorativo: os "chauffeurs" eram bons partidos para as criadas de fora.
Naturalmente o marxismo nada tem que ver com a censura. Pois se elle até triumphou apesar d'ella.
ResponderEliminarNão me leve a mal «vossemecê».
:)
Cumpts.
caro Bic
ResponderEliminarOs seus últimos artigos são do mais sagaz que tenho lido!
abraço,
Generosidade sua.
ResponderEliminarObrigado!