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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Centro Sul


« Tendo em conta a sua baixa frequência e baixa afluência de passageiros (o 52 ainda chegou a ter autocarros de dois andares, já o 53 e 54 nunca sentiram essa necessidade), não deixa de surpreender que estas três carreiras tenham atravessado os anos setenta sem qualquer alteração [...]»


Cruz-Filipe, «52, 53 e 54: Os autocarros da ponte», in História das Carreiras da Carris.



Portagem da Ponte Salazar, Pragal (A. Pastor, 1973)
Portagem da Ponte Salazar, Pragal, 1973.
Artur Pastor, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.

 Houve um autocarro que em tempos circulou da Praça de Londres para o Centro Sul, em Almada. Era um desdobramento do 40 que ganhou alforria como 52, 53 ou 54, não lembra já qual deles. [Era o 54.]
 Certo dia meti-me nele. Com o passo no bolso e uma nota de 20$00 na algibeira havia de ir ao Centro Sul. Planeava gozar as vistas da ponte, olhar em redor na outra banda e, se Deus quisesse, tornar. Sucedeu porém que, se bem estudei o trajecto e horários para ir e não ficar lá, para a despesa da tarifa suburbana da Carris em que incorria andei de antolhos. Deu asneira.
 Talvez com base no bilhete suburbano de 5$00 que sabia a Carris cobrar entre a Calçada de Carriche e Odivelas, conjecturei que para ir de autocarro pela ponte a conhecer o Centro Sul, mais do dobro daquilo seria absurdo; de modo que, pois, os 20$00 me haviam de chegar.
 Porém, quando a imprevidência comanda, o absurdo é natural que suceda.
 O caso foi que os 20$00 não chegavam (mas afinal chegaram e sobraram - já lá vamos); a tarifa suburbana de Alcântara ao Centro Sul era afinal 15$00 e, quando o pica-bilhetes ma disse ao estender-me o bilhete para o destino que lhe eu dissera, apatetei. Atoleimado, não perdi todavia a fleuma: paguei o bilhete honrando o negócio. E embotado de todo, devo confessar, não ouvi o contra-regra dizer para sair antes de o autocarro se fazer à ponte. Segui para o destino sem meios de pagar o regresso.
 Quando o autocarro arribou ao Centro Sul fugi do embaraço. Desesperado como um náufrago à cata duma tábua de salvação quis crer que da Praça da Portagem até Lisboa os 5$00 que me sobravam na algibeira pagariam o bilhete de regresso sem me denunciar a imprevidente estupidez. O que fiz para ali foi orientar-me até à Portagem antes do último autocarro, sem pensar em mais nada. Não me perguntem que voltas dei pelo Pragal até lá chegar, mas veio a ver-se consegui-o. Achei a paragem, apanhei o autocarro e, já sobre a ponte (destinado e sem retorno, portanto), pedi com naturalidade um bilhete de 5$00. Estendi a moeda.
 -- São 10$00 -- foi a resposta sêca.
 -- Só tenho isto. -- Acho que o entoei com indiferença. Tanto assim que o pica-bilhetes se foi sem me fazer caso. Deixei-me seguir suspenso do que havia de acontecer.
  Pois, nada. O cobrador não me tornou a dizer palavra até à Praça de Londres. Saí de acordo com o argumento. Cuido que cada um desempenhou o seu papel.

5 comentários:

  1. Inspector Jaap4/12/13 18:47

    Ai se fosse agora, caro Bic, quando chegasse a casa teria à sua espera uma delegação da nova P.I.D.E/D.G.F para lhe penhorar um par de peúgas, por exemplo, por dívidas ao fisco.
    Teve sorte, sabe? Se andasse de “mocassins” correria o risco de voltar a ser metido no autocarro em apreço e, a meio da travessia, ser atirado ao rio, como exemplo. Pense nisso e não repita a façanha :)!
    Cumpts

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  2. Bic Laranja4/12/13 22:44

    Se fosse hoje mal entraria no autocarro seria recambiado porta fora pelo agente duplo motorista-cobrador.

    Se andasse de «mocassins»...?
    Cumpts.

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  3. Inspector Jaap5/12/13 12:45

    Se andasse de «mocassins» não teria peúgas, logo, tornaria inexequível a penhora do fisco, donde a alternativa tenebrosa da defenestração em plena ponte :)!
    Cumpts

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  4. Desculpe, que não entendi.

    Cumpts.

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  5. Inspector Jaap6/12/13 13:19

    :), :)
    Cumpts

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