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quinta-feira, 6 de junho de 2013

História íntima do séc. XVI


[46] Ouvindo el-rei uma noite, estando já deitado, falar em outra câmara [1], levantou-se e foi lá muito manso [2] e viu duas moças da rainha de sua câmara estar de uma janela falando com uns homens que estavam na rua. E elas, sentindo-o e conhecendo-o ficaram mortas [3]; e el-rei disse-lhes:
 — Se fazeis vosso proveito, eu me calarei.


[...]


[53] Pedindo-lhe um seu criado mercê [a el-rei], fez-lha ele de certos pardaus [4]; e daí a pouco tempo, tornando-lhe a pedir outra, lembrou-se el-rei e disse-lhe:
 
— Não vos fiz eu mercê, pouco há, de tantos pardaus?
 E o criado respondeu-lhe:
 — É verdade, Senhor, mas esses voaram já [5].
E porque el-rei sabia que este homem era amigo de vinho, disse-lh
e:

— Ir-se-iam pôr em algum ramo? [6]


José Hermano Saraiva (anot. e com.), Ditos Portugueses Dignos de Memória; História íntima do século XVI, 3ª ed., Mem Martins, Europa-América, 1997.

D. João III (Cristóvão Lopes, in Enciclopédia Livre)
D. João III (6/6/1502 - 11/6/1557).
(Retrato de Cristóvão Lopes, in Quipaedia.)





[1] Em outra sala do paço.
[2] De mansinho.
[3] Ficaram aterrorizadas, mortas de medo [nota do A.]
[4] Moedas de ouro que corriam na Índia, com valor aproximado de 300 réis
[nota do A.] (300 rs. = três tostões).
[5] Já voaram. É notório o trocadilho pardaus / pardais.
[6] Algum ramo: era costume anunciar o vinho colocando um ramo na porta da taberna [nota do A.]. Ramo, pardais / pardaus, ainda e sempre o trocadilho.

4 comentários:

  1. Inspector Jaap6/6/13 12:44

    Deliciosamente inocente este trecho…
    Engraçado é que essa do ramo perdurou até, pelo menos, ao 3ª quartel do século XX, pois que tenho bem viva na memória a imagem do ramo (de loureiro) que os lavradores punham à porta anunciando que tinham vinho para vender (¹); o que me não passava pela cabeça era a ancestralidade de tal.
    Enfim, mais um verbete a fazer jus ao elevadíssimo nível cultural deste espaço, directamente ou por pessoa interposta; parabéns, caro Bic, por nos dar a conhecer excertos desta obra de José Hermano Saraiva, aquele ilustre, (quase) desconhecido hoje em dia dos me®dia, (cf. Orlando Braga) português de antanho que me faz orgulhoso de também o ser.
    Calorosos cumprimentos
    (¹) E não estavam colectados, pasme-se! Bem se vê que nesse tempo, a percepção que se tinha dos Reis Magos, não era necessariamente coincidente com a actual, pelo menos da de um deles.

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  2. Nem sabia eu a contemporaneidade da ancestralidade.
    Obrigado!

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  3. Inspector Jaap9/6/13 15:31

    Folgo por lhe ter dado essa informação; e, já agora, estamos agora e sempre a falar de ramos de loureiro, ou ele era outra outra?
    Cumpts

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  4. Inspector Jaap9/6/13 15:35

    Coisa, claro! as minhas desculpas pelo erro.
    Cumpts

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