No Público de hoje publica-se a opinião dum cérebro que processa texto pela cartilha do brasileiro pretensamente em vigor. E embora tal grafia lhe mereça reparo (!) por ser parida da política e não da Linguística, acata a escriba de boamente a ordem dos donos, pois se não, não faria questão de redigir naquela maneira parva. A falta de coerência naquela mona é notória mas, enfim!, entende-se; há trabalho a fazer, mormente por quem se ache de licença sem vencimento da F.C.S.H. para... leccionar português e fazer traduções?... Na medida desses serviços o argumentário é coerente: dá uma no cravo outra na ferradura, como boa rolha, para se ir mantendo à tona. Há porém risco de assentar no lodo.
Diz-se a criatura sensível ao critério etimológico da grafia, mas acha vantagens óbvias (óbvias?!) na aproximação da fala à escrita (parece-me ser desejável uma relação tão clara e inequívoca quanto possível entre a(s) letra(s) e os sons que pretendem transcrever, e penso que no caso da supressão das consoantes mudas se faz um avanço nesse sentido). — Adeus sensibilidade à etimologia! Esqueça-se dos gês e dos guês e dos jotas, do «h», do «x», do «ç» e dos «ss», do «s» e do «z», do «o» e do «u», — Tome lá! — e vá ensinar purtugês aos meninos. Emigre para o Brasiu. Antes de abalar informe-se da taxa de analfabetismo nos dois lados do Atlântico (com e sem consoantes etimológicas) e confronte-a com as da Inglaterra e França em vésperas da primeira revolução industrial (antes da evolução ortográfica que elas devem ter entretanto feito). Caso se arrependa e se quede por cá evite, por misericórdia com a inteligência alheia, afirmar displicentemente:
A análise de algumas palavras que são por certas pessoas articuladas com c ou p (e por outras não: ex.: característica vs. caraterística, sectorial vs. setorial, corrupção vs. corrução) mostra que estamos perante uma mudança linguística (fonética) ainda em curso, que tem vindo a ocorrer provavelmente desde o princípio do século XX. A nova norma trazida pelo A.O. dá conta dessa mudança, que não é ainda completa, pelo que admite, com as desvantagens referidas, a possibilidade de uma dupla grafia (em muito poucos casos, diga-se, e com tendência a desaparecer).
A mudança linguística (fonética) [...] em curso — como a observa? — desde o princípio do séc. XX — ah, bom! talvez desde 1911, pois, pois!... — É dessa mudança, ainda não completa (e quando o estará, sabe dizer?) que havemos de chegar ao purtugês, não é verdade? Das duplas grafias característica/caraterística &c. fácil me é atinar com a que deve vingar; obviamente a que por imperativo ideológico der no goto aos arúspices acorditas tão prenhes do futuro que, como esta Elena (ops! caíu o agá), nos pastoreiam alegremente os filhos nos amanhãs que cantam. Pois do futuro, cuido, só Deus sabe; não me consta que tenha passado procuração a mortais. Por mim sei apenas da história que o pê de corrupção se não dizia em Portugal e por isso foi furiosamente obliterado pelos reformistas de 1911. Tornou ao português porque o diziam no Brasil; uma saída airosa acordada em 1945 (Base VI, 2.º) para — pegando o que diz a dama acordita — uma relação tão clara e inequívoca quanto possível entre a(s) letra(s) e os sons que pretendem transcrever sem cair numa chocante contradição de se ouvir corrupção (ou côrrupição) e aberrantemente se ver grafado corrução. Isto mesmo, sem o ditoso acordo de 1990, imagine-se. Pelo contrário, sabemos o que dispõe este último sobre isto...
Quanto ao desfazer do valor diacrítico das consoantes etimológicas nem devia eu já gastar mais cera com tal defunta que, sem nada demonstrar, dá dois exemplos pífios (tactear e exactidão) que só provam a força da metafonia em vogais pré-tónicas no português. Eliminem-se como é seu desejo em todos os casos e havemos de ver o resultado. Remeto-a sumariamente para Gonçalves Viana (Ortografia Nacional; Simplificação e Uniformização das Ortografias Portuguesas, Viúva Tavares Cardoso, Lisboa, 1904, p. 73) com a minha própria experiência de ter aprendido «fâturar» nos livros do Tio Patinhas em abono de prova; só em crescendo percebi que afinal era «facturar».
Deixo-lhe os hífenes — que, parece, têm regras disformes e obscuras (que o acordo de 90 «uniformiza» e aclara — ou «clarifica» — diz) — com um recadinho cor-de-rosa ou cor de laranja, à escolha. Fica mal a uma professora de português fugir de trabalhar por aprender as regras do hífen.
O Público atendeu-a, é sua obrigação. Triste é que os acorditas, que têm direito ao espaço no jornal como tanto outro insecto, não tragam vantagem ao saber nem aos leitores, antes pelo contrário: o paupérrimo acordo bicharo-malaquenho cerceia argumentos aos mais inteligentes, se os houvera, dispostos a vender aquela lama.
(Texto revisto.)
Caro Bic:
ResponderEliminarPenso que está mesmo a gastar cera com má defunta, sim, defunta porque inexistente intelectualmente.
Se a dama em apreço (sem qualquer apreço, diga-se) é professora de português (nem percebi o que é que leccionava antes da tal licença sem vencimento) deveria saber que uma língua é uma ciência normativa, e não o resultado insano duma arbitrariedade bichada e amacacada desde a génese, como este aborto, ao qual, como muito justamente salientou, ela aderiu alegremente, apesar das pseudo críticas timidamente ensaiadas... está, por certo, a preparar o seu acesso ao gamelo ... enfim (mais) uma invertebrada que ainda não se deu conta de que o bom Deus lhe concedeu apenas uma meia dúzia de neurónios, metade dos quais em licença sem vencimento.
Já se imaginou o que seria, se estas alimárias, ao invés de obrarem sobre a Língua Portuguesa, estivessem no pelouro do trânsito? A partir de Janeiro de 2012, data da aprovação da resolução da AR, a circulação rodoviária pelo lado direito ficará reservada apenas aos pesados e os ligeiros já poderão circular pelo esquerdo até 2015, data em que todo o tráfego se fará só por este último... genial, não?
Cumprimentos e parabéns pelo suculento naco de prosa com que nos presenteou neste verbete, mas que a dama não merece de todo em todo... é mais um caso de "dar pérolas à porca".
Topas, ou já perdeste o "h" do nome? e, já agora, quando chegares a 2015, não te esqueças do acento circunflexo na penúltima sílaba... a bem da conformidade sonora.
Azar do jornal que tem de se prestar a estes fretes por parecer plural. Mas o caso não é de debate, especialmente depois da maneira sinuosa de impor o «coiso». Melhor seria assumirem lá no jornal, em sã consciência, o dever de responsabilidade como jornal de referência na comunidade e passarem à campanha activa de recolha das assinaturas necessárias. Campanhas beneméritas de sempre dignificaram os periódicos que as levaram a cabo.
ResponderEliminarPor mim, fiz-me assinante por imperativo moral. D' «O Diabo» também.
Cumpts.
e continuam as alarvidades em "respeitosas" folhas da actualidade:
ResponderEliminarhttp:/ aeiou.expresso.pt jogador-atropelado-pelo-proprio-carro-para-seis-meses =f705667
Cumprimentos
Tem o caro Bic toda a razão... de facto, nem se percebe por que é que ainda o não fizeram... quando esta Peste Negra intelectual for erradicada (e há-de sê-lo) terá o "Público" a oportunidade de ser lembrado como um dos jornais da Resistência, e isso, por si só, já é de monta; seria óptimo que os seus directores pensassem nisso. E, já a gora: não será que a sua tiragem já aumentou? Se forem todos como eu, sim, que, mesmo sem assinatura, só leio o que se publica em Português.
ResponderEliminarCumpts
Caro Zepf:
ResponderEliminarQuere-me parecer que tem alguns problemas de hermenêutica: o que essas alimárias escreveram, é que os jogadores de futebol, por norma compram carros para 3 meses, e depois trocam-no; ora, neste caso, a notícia não é o atropelamento em si mesmo, mas o facto deste ter acontecido com um carro em véspera de abate, ou seja, para 6 meses de uso, o que indica que o atropelado não será dos que ganham mais...
Espero ter ajudado!
Cumpts
Eu gostei do comentário de um(a) leitor(a):
ResponderEliminar"Assim, há quem não pare para pensar e há aquele que para para pensar (o gago).... ou será que pára para pensar? (o sensato)"
Que fazer?!?!
:) Cumpts. a todos.
ResponderEliminarTemos de continuar a bater no ceguinho. Eu não desisto de combater o 'acordo' merdortográfico, aliás criminoso, aliás, abominável.
ResponderEliminarA Helena Topa que não topou nada...!
ResponderEliminarJá experimentou guglá-la?
ResponderEliminarCumpts.
Ninguém desiste. Os acorditas hã-de-se vergar à justiça da nossa razão.
ResponderEliminarCumpts.