Iam alli implorar a protecção de S. Ex.ª. — De que se trata então? — Somos tres chefes de familia, tres honrados servidores do Estado que vimos... — Está bem; mas o que desejam? — Como V. Ex.ª sabe, acabaram as gratificações, e aquelle de nós tres que mais ganha não chega a ganhar trinta mil réis mensaes, sujeitos a descontos. — Perfeitamente; mas os senhores são empregados... — Saberá V. Ex.ª que da Alfandega. — Ora é isso mesmo, da Alfandega. Eu não posso augmentar-lhes o ordenado, e como a verba das gratificações foi supprimida. — Se V. Ex.ª dá licença... — Como a verba das gratificações foi supprimida, e não depende de mim restaural-a... — Se V. Ex.ª quizesse ter a bondade de se interessar por nós, mesmo sem nos augmentarem os ordenados e sem restabelecerem as gratificações... — A accumulação de serviços equivale a uma gratificação... — Queira V. Ex.ª desculpar, mas tudo se arranjaria facilmente se o sr. conselheiro quizesse ter a bondade de nos tomar sob a sua protecção... — É que não vejo maneira... — O que nós pedimos é muito pouco, e não é preciso tiral-o ao Estado, ou a quem quer que seja. — Em summa, o que é que os senhores desejam? — Nós desejávamos ser nomeados... gatos da Alfandega. — Gatos da Alfandega?!!... — É verdade, sr. conselheiro, gatos da Alfandega. Isso daria uns 9$000 réis por mez, a cada um, o que seria uma ajudasinha para a renda da casa. — Os senhores vieram aqui para se divertirem commigo? — Ó sr. conselheiro, pelo amor de Deus! Nós viemos aqui implorar a valiosissima protecção de V. Ex.ª, juramol‑o pela bôa saude das nossas mulheres e dos nossos filhos... — Gatos da Alfandega! Mas então os senhores perderam o juizo? — Não, senhor conselheiro; o que nós perdemos foi a gratificação. — Ou anda tudo doido, ou eu não sei onde tenho a cabeça. Mas o que vem a ser isso de gatos de Alfandega? — Saberá V. Ex.ª que havendo milhões de ratos na Alfandega, sem respeito nenhum pelas mercadorias que alli se acham depositadas, e havendo todos os dias reclamações por causa dos prejuizos que estes causam, foi creada a corporação dos Gatos da Alfandega, para a sustentação da qual ha uma verba de proximamente trinta mil réis por mez. — Está bem; mas se essa verba é para sustentação dos gatos... — Desculpe V. Ex.ª; mas se esses empregados cumprem rigorosamente o seu dever, apanhando os ratos, não precisam que os sustentem, porque arranjam elles proprios os seus sustentos; e se alli estão só para receberem o ordenado, deixando os ratos em liberdade, não é justo que se gaste com elles um dinheirão, ao passo que honrados chefes de familia... — Pois está bem; vou informar-me do caso e prometto-lhes interessar-me pelos senhores. — Muito obrigado, sr. conselheiro, muito agradecido a V. Ex.ª. Tinham dito a verdade os honrados chefes de familia, e porque o conselheiro não era homem que faltasse á sua promessa, foram os tres nomeados gatos da Alfandega, como poderiam ser nomeados secretarios do ministro, ou revisores do caminho de ferro. Os verdadeiros gatos emigraram, e uma commissão de ratos foi cumprimentar os tres honrados chefes de familia, quando viram as nomeações no Diario do Governo.»
Brito Camacho, Ao de Leve, Guimarães, Lisboa, 1913, pp. 84-88.
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Curiosamente, trabalhei na Alfândega de Lisboa, como praticante de despachante, nas Encomendas Postais, na rua da Palma.
ResponderEliminarMas isto a prpósito de que cada bilhete de despacho ir acompanhado de uma nota, daquelas do Banco de Portugal, como se os funcionários da Alfândega não ganhassem ordenado, e fosse "obrigatória" a gorgeta!!!
Era das coisas que mais impressão me faziam no início dos idos anos 70...
É que era tudo "dans le système", algo que redescobriria mais tarde no Zaïre...
Pois!...
ResponderEliminarCumpts. :)