
« É [...] por espirito de imitação que o "Fado" se aristocratisou na guitarra dos marialvas e no piano das salas, como um producto exotico violentamente aclimado, uma planta d'estufa, que parece chorar pelo seu clima nativo — o clima dos bairros infamados e das ruas suspeitas.
[...]
Comprehende-se que o povo, no meio dos seus prazeres, não esqueça inteiramente a pesada fatalidade com que a sorte o subjuga; mas comprehende-se tambem que ache gosto em saborear o desabafo que a guitarra lhe proporciona, fazendo-o cantar, e dando-lhe pretexto para molhar a palavra com o vinho.
D'envolta pois com o sentido esmagador da palavra "Fado", que representa uma condemnação invencivel, vem associada a ideia de folga na taberna, da merenda nas hortas, do passeio ao luar emquanto a guitarra vai dizendo da sua justiça.
N'esses momentos, o povo, sem esquecer a dureza do destino, porque a sente como o condemnado ás galés sente o peso da corrente de ferro, experimenta os unicos parazeres que lhe são permittidos, e que todos parecem volitar, como um enxame de abelhas [ou quiçá "enchame de avelhas"], em torno da guitarra: o canto, a dança, o vinho [...]
Se o Padre Santo soubesse
O gosto que o "Fado" tem,
Viria de Roma aqui
Bater o "Fado" tambem. »
Alberto Pimentel, A Triste Canção do Sul; Subsidios para a Historia do Fado, Livraria Central de Gomes de Carvalho, Lisboa, 1904, p. 25 passim.