| início |

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Dos nossos fados...

A. Pimentel, «A triste canção do Sul», 1904


« É [...] por espirito de imitação que o "Fado" se aristocratisou na guitarra dos marialvas e no piano das salas, como um producto exotico violentamente aclimado, uma planta d'estufa, que parece chorar pelo seu clima nativo — o clima dos bairros infamados e das ruas suspeitas.
   [...]
  Comprehende-se que o povo, no meio dos seus prazeres, não esqueça inteiramente a pesada fatalidade com que a sorte o subjuga; mas comprehende-se tambem que ache gosto em saborear o desabafo que a guitarra lhe proporciona, fazendo-o cantar, e dando-lhe pretexto para molhar a palavra com o vinho.
   D'envolta pois com o sentido esmagador da palavra "Fado", que representa uma condemnação invencivel, vem associada a ideia de folga na taberna, da merenda nas hortas, do passeio ao luar emquanto a guitarra vai dizendo da sua justiça.
   N'esses momentos, o povo, sem esquecer a dureza do destino, porque a sente como o condemnado ás galés sente o peso da corrente de ferro, experimenta os unicos parazeres que lhe são permittidos, e que todos parecem volitar, como um enxame de abelhas [ou quiçá "enchame de avelhas"], em torno da guitarra: o canto, a dança, o vinho [...]


Se o Padre Santo soubesse
O gosto que o "Fado" tem,
Viria de Roma aqui
Bater o "Fado" tambem. »


Alberto Pimentel, A Triste Canção do Sul; Subsidios para a Historia do Fado, Livraria Central de Gomes de Carvalho, Lisboa, 1904, p. 25 passim.

3 comentários:

  1. Alves Pereira8/12/11 18:04


    Comentários a esta notável peça de escrita:

    « É [...] por espirito de imitação que o "Fado" se aristocratisou na guitarra dos marialvas e no piano das salas, como um producto exotico violentamente aclimado, uma planta d'estufa , que parece chorar pelo seu clima nativo — o clima dos bairros infamados e das ruas suspeitas.»

    Hoje, o Fado como Património Cultural Imaterial da Humanidade aristocratizou-se novamente, não nas guitarras dos marialvas que são todos de Direita, mas nos areópagos dos politicamente correctos, quase todos de esquerda, como convém…


    « Comprehende-se que o povo, no meio dos seus prazeres, não esqueça inteiramente a pesada fatalidade com que a sorte o subjuga; »

    Se calhar não é a sorte, mas, muito mais prosaicamente, a imbecilidade dos políticos de pacotilha que temos, e não me refiro só aos de cá do burgo…


    « mas comprehende-se tambem que ache gosto em saborear o desabafo que a guitarra lhe proporciona, fazendo-o cantar, e dando-lhe pretexto para molhar a palavra com o vinho. »

    Atenção à “tacha de alcoolémia” que parece que andam por aí uns elementos da PSP a provocar…

    « D'envolta pois com o sentido esmagador da palavra "Fado", que representa uma condemnação invencivel, vem associada a ideia de folga na taberna, da merenda nas hortas, do passeio ao luar emquanto a guitarra vai dizendo da sua justiça. »

    Para lá caminhamos a Passos largos, já que a dívida não é para pagar (vidé os estudos do "outro". É o adeus ao centro comercial e, esperemos, também às armas…

    Resumindo: como estamos entregues a politiqueiros de ópera bufa, não é de pôr de parte a hipótese de, a breve trecho, estarmos de volta ao nível de vida dos anos 50 mas só com os seus defeitos e penúrias, mas sem as suas qualidades, como a honestidade, a amizade e a solidariedade (nasci numa aldeia beirã em que ninguém tinha carro, mas toda a gente tinha uma casa, com a ajuda de todos…e agora, quando o ciclo se fechar,será ainda assim?
    Cumpts





    ResponderEliminar
  2. Bic Laranja8/12/11 21:49

    Certíssimos comentários. E o corolário é que dês do grande acidente nacional Portugal se tornou tão imaterial como o seu fado.
    Cumpts.

    ResponderEliminar
  3. Alves Pereira10/12/11 09:06

    Caro Bic: é com reconhecimento, mas também com infinita tristeza que concordo com o que disse.
    Cumpts

    ResponderEliminar