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sábado, 31 de julho de 2010

Dos caipiras

 Dizia-me há tempo uma mocinha de liceu:
 - Tenho uma colega brasileira que diz que agora, com o Acordo Ortográfico, aquelas palavras brasileiras vão tornar a ser portuguesas.
 - Errado, menina - respondi-lhe. - O Português é que se vai tornar brasileiro.


Urtigão (HQ Maniacs)
(Imagem em HQ Maniacs.)

De certos privilegiados

 Há gente que tem o privilégio de escrever em jornais de grande tiragem e parece intocável. Por muito pouco sagaz que demonstre ser.
 Um certo Raposo investe desembestado contra a A.D.S.E. ("Os privilegiados da A.D.S.E.", Expresso.pt, 23/7/2010) e o primeiro mal que lhe acha é que vem do tempo do dr. Salazar. — Bom! O Portugalinho metropolitano de Abril vem inteirinho do tempo do Estado Novo… — Mas não se ponha ele em tantos cuidados que isso tira-lhe a saúde… Descanse. Portugal está pouco menos que extinto, não há pesada herança do fachismo que muito mais reste.
 Quanto aos privilegiados que lhe motivam a codícia nos dois restantes e confusos parágrafos do pobre texto, visse ele o número deles antes e depois de 74 num quadrinho facilmente achado na Internete, e intuísse ao menos o tempo e o modo em que a «aristocracia sindical» — como muito bem diz — se constituiu, talvez então investisse mais certeiro ao forcado que às tábuas.



Portugal. Efectivos da função pública (Pordata, 31/07/2010)

Fonte de Dados: D.G.A.E.P./M.F.A.P. Inquérito aos Recursos Humanos da Função Pública (1979; 1983; 1986); 1º e 2º Recenseamentos Gerais da Função Pública (1996 e 1999).
Fonte: PORDATA (última actualização: 2/3/2010). 


 Este sr. Raposo parece-me um bom produto colhido de raiz no terrunho português revolvido em 74: é vago, não sabe estudar, não faz o mínimo de trabalhos de casa, chegou tarde aos exames e provavelmente também não vai a tempo de chumbar. E instrui-se muito de ouvido pelos foles da propaganda vigente. Eu estaria como ele se não trabalhasse por aprender melhor. Serei privilegiado se o conseguir.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Campolide, 1980

Campolide Lisboa (Wood's Library, 1980)
Campolide, Lisboa, 1980.
Título original:Ancient transportin Wood's Library.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Pólo de animação ambiental

 O ex-ministro do ambiente do consulado de Guterres convocou hoje uma conferência de imprensa para dizer solenemente à nação qualquer coisa com que se animou...

Pólo de animação ambiental, Alcochete, 2008
Pólo de animação ambiental, Alcochete, 2008.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Jackpot 81

 Na Frineve do Areeiro custava 425$00. Fui desencantá-lo por 395$00 já não sei onde. Tinha eu um gira-discos com uma agulha que parecia um prego. Risquei-o na faixa da Bette Davis Eyes logo na primeira ou segunda vez que  o pus. As gémeas pediram-mo emprestado. Tiveram-no uma semana e quando mo devolveram os riscos tinham desaparecido. A capa parecia mais nova e tinha uma etiquetazinha da Frineve na contra-capa com o preço escrito a caneta: 425$00. Não sei o que se terá passado. Não sei se o riscaram elas mais ou se cuidaram ter sido elas a fazer os riscos que já tinha. Compraram-me um disco novo.

Jackpot 81


Jackpot. Os Superêxitos 81, Valentim de Carvalho.
(In miau.pt)

Junho de 81

 No começo [ou meados] de Junho de 81 - estaríamos para acabar as aulas - lembro-me que houve uma sucessão de dias acima dos 40º. Num ou dois parece-me que chegou aos 43º. Desde essa altura que me não lembrava de o chuveiro me deitar água quente pela torneira da água fria. Hoje isso sucedeu-me.
 Associado a esses dias do começo de Junho de 81 vem-me sempre à memória também aquela cantiga do Chico Anísio (*). Ouvia-a amiúde nos discos pedidos enquanto procurava alguma aragem fresca pela tardinha, à janela (e ao mesmo tempo que ia também catrapiscando as gémeas lá na janela delas).


 



Kim Carnes, Bette Davis Eyes
(1981)


(*) She'll unease you, no 2º verso da 2ª estrofe da cantiga.


Texto revisto à 8h09 da tarde.

domingo, 25 de julho de 2010

Os domingos das corridas

 Não vou tão atrás quanto o Stewart e o Cévert ainda andarem nas corridas da Fórmula 1, mas recorda-me daqueles domingos domésticos que a Luísa conta. Recorda-me até de (é daqueles episódios de nada que por qualquer razão se nos gravam na memória e nunca mais esquecemos) certa vez, depois dum desses domingos de corridas certamente, no recreio do 1.º ou 2.º ano do ciclo andar eu sozinho a cogitar com os meus botões pouco mais duma dúzia de nomes de pilotos que o eco do locutor Adriano Cerqueira me deixara no ouvido: Niki Lauda, Mário Andretti, Ronnie Peterson, Carlos Reutemann, Clay Regazonni, Gilles Villeneuve, Patrick Depailler, Vittorio Brambilla, Jacques Laffite, Jody Sheckter, Jochen Mass, John Watson e, claro, o Fittipaldi. — A um brasileiro ouvi certa vez dizer que o Fittipaldi, desde que trocara a McLaren pelo Copersucar, cortava a meta sempre depois do último.
 Mas aficionado certo, seguindo fielmente os treinos e as corridas, foi só no Verão de 81, o melhor campeonato que me lembra.
 Meia dúzia de anos depois a Fórmula 1 perdeu todo o interesse, quando as corridas passaram a ser um contra-relógio de mecânicos mudando pneus nas boxes e o primeiro era sempre o invariável Schumacher.
 E já agora a propósito de locutores, creio que foi por essa altura que a R.T.P. lançou na Fórmula 1 aquele que é hoje  apresentador do TV Turbo. Na primeira vez que o mandaram às corridas saiu-se tão bem que o jornal Auto-Sport publicou uma caricatura com o Alain Prost e o McLaren n.º 1 num poster na parede, em que se via perguntar a um candidato a locutor:
 — Conhece este piloto? — e apontavam o Prost.
 — Não...
 — Conhece este carro? — e apontavam o McLaren.
 — Também não.
 — Muito bem! Está contratado para locutor da Fórmula 1.
 E claro que Monte Carlo é sempre fascinante.


 







Grande Prémio do Mónaco, 1972

«Iniciativa Novas Oportunidades»

Na escola (E. Soper)


 Por € 3,50 compra-se no Pingo Doce um livrinho que diz o óbvio. Pode parecer que não mas faz muita falta dizer o óbvio (embora canse a quantidade de vezes que vai de repeti-lo), dada a quantidade de mentecaptos incapazes de perceber que a neve é branca e que se não torna cor-de-rosa por decreto...


 Valorizando certamente um dado perfil, surgiu o «Curso de Jogador(a) de Futebol», com equivalência ao 9º ano, promovido pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional/Centro de Emprego e Formação Porfissional da Guarda, e iniciado em 2007. De acordo com o folheto, este curso destina-se a jovens entre os 15 e os 25 anos, com 6.º ou 7.º anos de escolaridade, e uma das actividades principais privilegia o saber «Utilizar a imagem pública na construção da carreira e do êxito pessoal, na divulgação da equipa e do clube que representa», alimentando a ilusão de um dia igualarem um dos muitos milionários do futebol, nacionais ou estrangeiros. Nada do que é exposto tem como objectivo a diminuição iliteracia ou o investimento na formação cultural dos candidatos, parecendo tudo resumir-se a «encontros de futebol, execução de exercícios físicos e tácticos, ou treinos de conjunto». Como é possível atribuir a este curso a equivalência ao 9.º ano, se, na realidade não se equivalem?


A resposta, desgraçadamente, é ainda mais óbvia:


 Vivemos, sem dúvida, em matéria de Educação e Instrução, no reino do Absurdo, deixando-nos manipular e seduzir por facilidades e contínuas ilusões que nos despojam das nossas próprias capacidades. Assistimos a um discurso do simulacro, que atinge a nossa dignidade humana, consentindo-o irresponsavelmente.




Maria do Carmo Vieira, O Ensino do Português, Fundação Francisco Manuel dos Santos/Relógio d'Água, 2010, p. 97.
(Gravura: Na Escola, Eileen Soper, 1922.)

sábado, 24 de julho de 2010

Dos triunfos libertadores da pátria

Kssse! Pedro! Kssse Kssse! Miguel! (Daumier, 1833)


« Durante a noite tudo esteve sossegado em Lisboa; na verdade nem todos sabiam que os ministros e a tropa tinham evacuado a capital. Fizeram contudo apenar durante a noite carros de toda a qualidade para lhes conduzirem as bagagense as famílias [...]
   Os ministros de D. Miguel haviam forçosamente de saber pelo telégrafo que eu me achava próximo, e eles também sabiam que quase sempre reina no Tejo um vento fresco durante o dia; atrevo-me a dizer que eles tinham uma inquieta suspeita de que eu forçaria o rio, o que sem dúvida tinha efeito nos seus temores, porém isto nada diminui os louros do duque [da Terceira]. Se o governador de Almada tivesse permanecido firme no seu posto, e os ministros nos seus, é mais que provável que o duque ficaria perdido. Molelos estava próximo; podia ter sido reforçado de Lisboa. S. Julião, o Bugio, e as numerosas baterias no Tejo estavam em boa ordem, e bem guarnecidas; o duque teria sido rodeado de inimigos, e por causa do pouco vento, eu não teria penetrado no Tejo antes do dia 27. Se ele se sustentasse, e eu conseguisse aproximar-me da cidade, o que deveria ser acompanhado de grande perda, poderia então atravessar as suas tropas para Lisboa, e provavelmente o inimigo seria aniquilado; porém, se eu falhasse na empresa, não havia retirada, e ver-me-ia obrigado a deitar fogo à esquadra, e reunir-me ao duque com os marinheiros, e soldados da marinha, e então só Deus sabe como terminaria a guerra. Contudo, do modo que aconteceu foi muito melhor; e no seguimento da obra mostrarei que os ministros de D. Pedro eram tão capazes de dormir a sesta como os de D. Miguel; e que se isso dependesse deles ter-se-ia perdido Lisboa com a mesma facilidade com que se ganhou.
   O duque do Cadaval achava-se ainda nas vizinhanças da cidade, e eu tinha consideráveis receios de que, tendo-
-se certificado da pequenez da nossa força, ele voltasse atrás, e convertesse a nossa alegria em dor e em luto. Em ponto de facto, se ele tivesse mostrado o mais pequeno grau de decisão, teria chamado a divisão de Molelos, e, ou nos teria repelido de Lisboa, ou nos bloquearia no Castelo de S. Jorge, em menos de quarenta e oito horas; pois, ainda que havia grande entusiasmo entre o povo, este não tinha a mais distante ideia de ser atacado. E em lugar de as autoridades mandarem imediatamente obstruir e entrincheirar as ruas, e fazer cortaduras em todas as direcções, não se cuidou em nada mais que comer, e beber, e regozijar-se.»


Charles Napier, A Guerra de Sucessão entre D. Pedro e D. Miguel, Caleidoscópio/Centro de História da Universidade de Lisboa, 2005, pp. 120-122.



Moral da história: 24 de Julho, de sempre, é mais copos que outra coisa. 

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Acertando o tiro a uma chapa da Alameda

Ficha B091688, (A.F.C.M.L.)
 Há exactamente cinco anos publiquei um verbete "sem prédios" - uma ironiazinha sobre modos de edificar uma cidade, a propósito do assunto que devia ser candente na altura, a construção do novo aeroporto de Lisboa. - Pois bem, o que quero dizer não é sobre isso; é sobre a fotografia com que o ilustrei, cuja legenda tresladei do Arquivo Fotográfico da C.M.L. e cuja autoria é atribuída a Armando Serôdio com data de 1966. O autor até pode estar bem, caso tenha trabalhado no estúdio de Horácio de Novais na primeira metade dos anos 50, mas o ano está errado.
 Dei-me conta que publiquei a mesma chapa em Maio passado numa prosápia balofa sobre os primórdios da Alameda, desta vez colhendo a imagem doutra fonte (Biblioteca de Arte da F.C.G.) com muito melhor qualidade. O que mostra deixa circunstanciar a data da fotografia pela primeira metade dos anos 50 (cf. Dois prédios na Alameda). E obriga-me a 'corrigir o tiro' no verbete de há cinco anos.

(Ficha do catálogo do A.F.C.M.L.)

Esta vida de turista!...

  Em 2002 rumámos à terra do Chanquete, em férias. O pacote incluía uma semana de alojamento a meio quilómetro da praia; refeições e estender as toalhas no cascalho era por nossa conta. Ora deslocações de 500 metros de ida e volta a pé para a praia, de manhã e de tarde, mais estender as toalhas, haveis de imaginar, são uma grande canseira!... Por isso não admira que de súbito começasse a ouvir à senhora:
 - Esta vida de turista!...
 Um suspiro que se tornou puma piada nossa e muito calhado para título dalgumas crónicas de praia que às vezes escrevo. Estas são de...


Sábado, 3 de Julho de 2010




Ainda antes de pegar nas toalhas


 Manhã de sábado. Os noticiários só dão secutes (auto-estradas s/ cuts para o utilizador). A 'investigadora' Felisbela comenta na TV o assunto. Ouço-lhe no meio da conversa que "muita a gente usa as secutes: para ir trabalhar, ou indo de férias, e mesmo quem está no desemprego..." (?!)
Tintol (in Blogo do Ligeirinho) Vou a pé para a praia.


Saco de plástico


  Acabei com isso. Põem-lhe letras a menos e ainda assim pesa mais que um garrafão de cinco litros.


A banhos


 Devo ter tomado o banho de mar mais longo numa data de anos. Água ainda melhor que no sábado passado. Céu limpo. Visibilidade do cabo de Santa Maria à ponta do Castelo. Há muita gente na praia mas não identifico caras daquelas que sempre reconhecemos de ano para ano. Devem achar-se perdidas na multidão. Ou metidas em baixo, à conquilha.

À conquilha, Algarve - (c) 2009
À conquilha, Algarve - (c) 2009

 Esquecia-me de dizer: não há vento.


Meio-dia e meia


 Está calor e deixamos a praia. Uma mulher à minha frente tem o nome tatuado nas costas, logo abaixo do pescoço. Chama-se Manuel.








quarta-feira, 21 de julho de 2010

Do sexo dos anjos

 Do fundo duma televisão ali ligada ecoou há pedaço o sr. ministro da presidência dizendo (por outras palavras) a bizantinice que é querer agora rever a Constituição.
 É pois! Tal como o foi a vil revisão semântica do instituto do casamento.
 Mas sobre Constituições vale mais o que disse o prof. Hermano Saraiva: a melhor Constituição não torna bom um mau governante, nem uma má Constituição impede um bom governante de governar bem.

A Choldra. Semanário republicano...
A Choldra. Semanário republicano..., nº 10, 3/4/1926.
In Hemeroteca Digital.

Um daqueles reclamos trajando de notícia séria

 Li no Sol (2 de Julho) um descarado anúncio requentado: "Edifícios do século XIX reconstruídos em Belém" (Casa.Sapo.pt, 22/6/2010).
 Estiveram estas casas ao abandono e à beira da derrocada. O IPPAR, ronceiro, fazia que classificava desde 1991. Queriam os donos lá um hotel — dito de charme, com charmoso incremento na volumetria. O plano director não deixava. A Câmara coagia a obras... E então arderam estas casas espontaneamente (O Carmo e a Trindade, 4/12/2006).
 Edifícios do século XIX reconstruídos em Belém. — Dito assim nem parece venda de andares.

Casa onde morou Almeida Garrett em 1852, Pedrouços (E. Portugal, 1940)
Casa onde morou Almeida Garrett em 1852, Pedrouços, 1940.
Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

terça-feira, 20 de julho de 2010

Dois chatarrões de primeira apanha

O Alegre e o Coelho não vão de férias?


 


Algarve (c) 2010
Algarve. (c) 2010

domingo, 18 de julho de 2010

Abastecendo... (postal não circulado)

Na Fonte, Algarve (César de Sá, s.d.).jpg
Na Fonte, Algarve, [s.d.].
(Ed. de César de Sá, Lisboa.)

sexta-feira, 2 de julho de 2010