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sábado, 24 de julho de 2010

Dos triunfos libertadores da pátria

Kssse! Pedro! Kssse Kssse! Miguel! (Daumier, 1833)


« Durante a noite tudo esteve sossegado em Lisboa; na verdade nem todos sabiam que os ministros e a tropa tinham evacuado a capital. Fizeram contudo apenar durante a noite carros de toda a qualidade para lhes conduzirem as bagagense as famílias [...]
   Os ministros de D. Miguel haviam forçosamente de saber pelo telégrafo que eu me achava próximo, e eles também sabiam que quase sempre reina no Tejo um vento fresco durante o dia; atrevo-me a dizer que eles tinham uma inquieta suspeita de que eu forçaria o rio, o que sem dúvida tinha efeito nos seus temores, porém isto nada diminui os louros do duque [da Terceira]. Se o governador de Almada tivesse permanecido firme no seu posto, e os ministros nos seus, é mais que provável que o duque ficaria perdido. Molelos estava próximo; podia ter sido reforçado de Lisboa. S. Julião, o Bugio, e as numerosas baterias no Tejo estavam em boa ordem, e bem guarnecidas; o duque teria sido rodeado de inimigos, e por causa do pouco vento, eu não teria penetrado no Tejo antes do dia 27. Se ele se sustentasse, e eu conseguisse aproximar-me da cidade, o que deveria ser acompanhado de grande perda, poderia então atravessar as suas tropas para Lisboa, e provavelmente o inimigo seria aniquilado; porém, se eu falhasse na empresa, não havia retirada, e ver-me-ia obrigado a deitar fogo à esquadra, e reunir-me ao duque com os marinheiros, e soldados da marinha, e então só Deus sabe como terminaria a guerra. Contudo, do modo que aconteceu foi muito melhor; e no seguimento da obra mostrarei que os ministros de D. Pedro eram tão capazes de dormir a sesta como os de D. Miguel; e que se isso dependesse deles ter-se-ia perdido Lisboa com a mesma facilidade com que se ganhou.
   O duque do Cadaval achava-se ainda nas vizinhanças da cidade, e eu tinha consideráveis receios de que, tendo-
-se certificado da pequenez da nossa força, ele voltasse atrás, e convertesse a nossa alegria em dor e em luto. Em ponto de facto, se ele tivesse mostrado o mais pequeno grau de decisão, teria chamado a divisão de Molelos, e, ou nos teria repelido de Lisboa, ou nos bloquearia no Castelo de S. Jorge, em menos de quarenta e oito horas; pois, ainda que havia grande entusiasmo entre o povo, este não tinha a mais distante ideia de ser atacado. E em lugar de as autoridades mandarem imediatamente obstruir e entrincheirar as ruas, e fazer cortaduras em todas as direcções, não se cuidou em nada mais que comer, e beber, e regozijar-se.»


Charles Napier, A Guerra de Sucessão entre D. Pedro e D. Miguel, Caleidoscópio/Centro de História da Universidade de Lisboa, 2005, pp. 120-122.



Moral da história: 24 de Julho, de sempre, é mais copos que outra coisa. 

2 comentários:

  1. Tem toda a razão, haja quem mande que não falta quem obedeça!

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  2. Acabei de tropeçar numa citação: "Obedecer é confessar que nada valho", Henri Thoreau.
    Cumpts.

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