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domingo, 29 de novembro de 2009

Literatura portátil

  Em todo o Algarve a mulher é a prenda da casa. Trá-la muito bem tratada, muito bem  fechada, restos da vida moura. A de Olhão, trigueira, de olhos negros e um lindo sorriso reservado passa pela mais bela da província, pela vivacidade e pela fartura do cabelo. Já em S. Brás de Alportel, ali perto, as cabeças têm reflexos doirados e os peitos são desenvolvidos. Sentadas mas esteiras sobre os calcanhares, nas casas forradas de junco ou de palma, fabricam as alcofas, a golpelha em que se transporta a alfarroba e o figo e as alcofinhas mais pequenas, chamadas alcoviteiras. Ainda há pouco tempo usavam cloques e bioco. O capote, muito amplo e atirado com elegância sobre a cabeça, tornava-as impenetráveis.


Raul BrandãoAlgarve, Alma Azul, Coimbra/Alcains, 2008, pp. 12, 13.

 




(Capa: Alma Azul com Amendoeira em flor de Vicente van Gogh)

7 comentários:

  1. Numa daquelas noites em que olho para a tv e não me apetece ver, sento-me em frente ao portátil e nem sei o que me apetece... olhei para o site do sapo e pensei em ver um blog, coisa pouco habitual em mim.
    Ao ver "bic laranja" senti aquela melancolia do passado, de ouvir esse anuncio na RTP, talvez pela proximidade ao Natal ando mesmo chorona, melancólica e sensível.
    Gostei, gostei realmente do blog. Da forma simples e objectiva dos posts, dos temas. Parabéns e muito obrigado por este bocadinho em que me senti melhor.

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  2. De nada. Grato lhe estou eu pelo amabilíssimo comentário. Cumpts.

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  3. Será que é hoje que consigo 'comunicar' com o excelentíssimo autor deste Blog (aqui o problema é que os nossos servidores são diferentes)?
    Pois se sim, estas linhas têm, hoje por hoje, um único objectivo: felicitá-lo pelos momentos de grato prazer que os seus escritos proporcionam, a nós seus leitores e admiradores (a par das magníficas reproduções fotográficas de pura delícia visual), ora gustosamente irónicos ora contundentes que baste. Por tudo isto mas também pela preciosa informação que nos vai deixando sobre a cidade de Lisboa e arredores, o meu muito obrigada.

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  4. Estimada Maria: Obrigado sou eu pelo gentil comentário e pelo seu amável apreço.
    Cumpts. :)

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  5. "gostosamente", está claro.
    Maria

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  6. Enviei-lhe um comentário ontem (que não apareceu) só para dizer que não tem que me agradecer. Nós leitores é que temos que lhe estar gratos. Agradecer-lhe ainda as lindas fotos da, então, bem arejada Praça do Areeiro, algo majestosa como se pode observar e o era de facto pelos anos e mesmo após a altura em que foi fotografada. Não hoje em dia. Mal que se verifica pelo menos desde há 30 anos...
    Maria

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  7. Ainda bem que as algarvias já não são impenetráveis...coitado do Raul Brandão...

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