« Teve el-rei D.Sebastião um chocarreiro que chamavam Couto, muito engraçado, o qual é natural do bairro de Alfama, sapateiro por ofício [...]
Este Couto, quando el-rei foi a Guadalupe ver-se com seu tio el-rei D. Felipe que chamaram o Prudente, detreminou-se que os fidalgos portugueses fossem todos bejar (1) a mão a el-rei de Castela, e os castelhanos a viessem bejar a el-rei D. Sebastião. Soube o Couto do que estava detreminado, e determinou também de enganar a el-rei de Castela, para o que se vestiu de gala, pôs um hábito de Cristo no peito, lançou um colar de ouro ao pescoço e foi-se com os fidalgos de cá para com eles lhe bejar a mão. Como el-rei de Castela não conhecia de cara os fidalgos de Portugal, tinha à sua orelha D. Cristóvão de Moura que lá estava em seu serviço, e foi depois comendador-mor de Alcântara, marquês de Castel Rodrigo e vizo-rei duas vezes de Portugal, o qual lhe dizia quem cada um era para que el-rei lhe fizesse honra e mercê segundo a sua calidade . Foram-lhe alguns bejando a mão e a eles se seguiu o Couto; perguntou-lhe el-ei a D. Cristóvão por acenos quem era, chegou-se D. Cristóvão à orelha de el-rei e disse-lhe que era um chocarreiro que chamavam o Couto; não estendeu el-rei então a mão, pediu-lha o Couto dizendo - "dê-me Vossa Majestade a mão" -, el-rei lhe respondeu - "andaos de ahí que sois el Cotto" - e o Couto lhe disse então - "bejar no cu a quem vo-lo disse".(2)»
(1) A ortografia e a pontuação foram actualizadas excepto quando se nota pronúncia diferente.
(2) Anedotas portuguesas e memórias biográficas da corte quinhentista, Coimbra, Almedina, 1980, LXX, p 117.
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Século Ilustrado, nº 152, 30 de Novembro de 1940.
Via Revista Antiga Portuguesa.
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