| início |

domingo, 30 de novembro de 2008

Dr. João das Regras

[ Um verbetezinho pelo meu pseudónimo na enciclopédia livre em 17 de Fevereiro de 2005. Impedido de o eliminar de lá pelos senhores daquilo uso-o aqui mais enriquecido, com ilustração do Clube Filatélico de Portugal.]


 Dr. João das Regras. Postal ilustrado com a sua imagem, editado Sociedade Histórica da Independência de Portugal, com selo de 1$60 azul cinzento CE433 da 2.ª emissão Independência de Portugal, obliterados com carimbo de Lisboa (29.11.27 - 1.º dia de circulação).


 Jurisconsulto nascido em data desconhecida em Lisboa, onde faleceu em 3 de Maio de 1404. Filho de João Afonso das Regras e de Sentil Esteves e, após o segundo casamento da sua mãe, enteado de Álvaro Pais, perpetuou o seu nome em virtude da magistral representação da causa do mestre de Avis nas cortes de Coimbra de 1385 cujo corolário foi a aclamação de D. João I como rei de Portugal.


 De acordo com Fernão Lopes esteve em Bolonha, e é verosímil que tenha estudado na universidade daquela cidade de Itália. Foi professor da Universidade de Lisboa, onde mais tarde desempenhou o alto cargo de encarregado ou protector, equivalente, segundo alguns, ao cargo de reitor (Carta Régia de 25 de Outubro de 1400). Tal como o seu padrasto, teve uma acção importante no levantamento de Lisboa que alçou o mestre de Avis por regedor e defensor do Reino. Conselheiro e chanceler do mestre, a sua acção na crise de 1383-1385 culminou na inteligente argumentação em que, omitindo o nome do mestre, negou validade às prentensões dos outros candidatos ao trono.



  • A D. Beatriz, filha do falecido rei de Portugal, nega o dr. João das Regras quaisquer direitos por nulidade do casamento de D. Fernando com Leonor Teles, que era já casada com João Lourenço da Cunha quando o rei a desposou; por incerteza quanto à paternidade de D. Fernando, dado o comportamento irregular de Leonor Teles; por haver contraído um casamento com o rei D. João I de Castela, seu parente (a mãe do rei de Castela era tia-avó de D. Beatriz) sem a dispensa do papa legítimo Urbano IV, em vez do antipapa Clemente VII;

  • Ao rei de Castela, por ser herege, refuta João das Regras o direito a ser rei de Portugal pois reconhecera o antipapa e fora excomungado pelo legítimo papa; porque o seu parentesco com o rei D. Fernando se dava pela linha feminina (as suas mães eram irmãs), o que pelo direito consuetudinário hispânico não dava direitos de sucessão.

  • Os infantes D. Dinis e D. João, filhos de el-rei D. Pedro I e de Inês de Castro, portanto, irmãos de D. Fernando, não podiam ter direito ao trono porque eram ilegítimos: D. Pedro nunca casara com Inês de Castro; além disso fizeram guerra contra Portugal aliados a Henrique II e a D. João I de Castela.


 Inteligentemente, a sua estratégia demonstrara que o trono estava vago pois nenhum dos pretendentes tinha direito a ele. Pertencia assim às cortes escolher livremente um novo rei, sendo o mestre, «per unida concordança de todolos grandes e comum poboo» aclamado rei de Portugal.


 O rei concedeu muitas mercês ao dr. João das regras: fê-lo cavaleiro de sua casa, senhor das vilas de Castelo Rodrigo, Tarouca e Beldigem; senhor de Cascais e seu termo, do reguengo de Oeiras, das dízimas das sentenças condenatórias de Évora, da jurisdição da Lourinhã e das rendas da portagem de Beja. Fernão Lopes refere-se a ele «como notável barom, comprido de ciência [e] mui grande letrado em leis [...]». Jaz sepultado na igreja de S. Domingos de Benfica, em Lisboa.




Bibliografia:



  • Fernão Lopes, Crónica de D. João I, vol. 1, [s.l.], Civilização, imp. 1994.

  • Joel Serrão (dir.), Dicionário de História de Portugal, [s.l.], Iniciativas Editoriais, imp. 1963.

12 comentários:

  1. Refere muito bem o Sr. Bic: “Inteligentemente, a sua estratégia demonstrara que o trono estava vago pois nenhum dos pretendentes tinha direito a ele”.
    Se isso fosse transportado para os dias de hoje, para a "democracia", bem tramados estávamos… Não haveria ninguém em São Bento!
    Ah, esqueci-me... Estamos bem tramados na mesma!
    :-x

    Abraço


    PS- Sempre tive uma paixão pela História... duma forma “completamente livre” e autodidacta.
    Durante anos levei livros de História para a praia. E era bem gozada por isso!... :-)

    ResponderEliminar
  2. A questão põe-se em termos de tronozinhos, não democracia.
    Também aprecio História.
    Cumpts.

    ResponderEliminar
  3. Um dos períodos históricos mais aliciantes da vida de Portugal. É verdade ando às voltas com a Dona Madame Ratazzi:)

    ResponderEliminar
  4. Creio que teve uma má experiência na wikipédia. A qualidade do português - em qualquer das variantes -
    e de chorar e a wikipedia de lingua portuguesa está dominada pela ignorância tropical.
    Seria uma questão a tratar com algum cuidado, lutando para a versão da wikipédia de Portugal

    ResponderEliminar
  5. Sim. Tem muito interesse.
    Folgo em sabê-lo (da Ratazzi). Vi lá muita palha para o blogo. Mas depois passava adiante e esquecia-me. Pode ser que lá volte.
    Cumpts.

    ResponderEliminar
  6. Bic Laranja17/1/13 10:13

    1) A Quipédia serve para os meninos da escola treinarem os conceitos, quando muito. Mas os donos da quinta querem que faça escola (uma certa escola).
    2) O Português correcto jamais se situa em termos de variantes; se houver correcção é Português; se não, variante é um eufemismo para todos os crioulos que se queira.
    3) Melhor seria uma Quipédia em brasileiro. Acabaria logo certa confusão.
    Cumpts.

    ResponderEliminar
  7. É interessante receber uma resposta quatro anos depois.
    Sobre variantes, existem mesmo no português de Portugal (ouro, oiro).
    No entanto, são os especialistas - que eu não sou - quem as pode estudar.

    Considerações antes do crime do «acordo» e da sua criminosa imposição aos portugueses.

    ResponderEliminar
  8. A sua resposta estava lá desde então. Sucede que eu hoje a apaguei inadvertidamente. Felizmente consegui recuperar o texto, que entretanto repus. Daí a sua notificação com data de hoje.
    É-me grato receber tréplica passado tanto tempo tempo.
    Cumpts.

    ResponderEliminar
  9. Não havia qualquer censura no meu comentário que, noto agora, podia ter esse sentido. Não tinha e ao tempo devo ter visto a sua resposta.
    É agradável receber uma quadrúplica tão rápida.

    ResponderEliminar
  10. Pois podia mas não no interpretei assim.
    Tornando às «variantes», o caso que dá não espelha a semântica que procuram inculcar actualmente para integração de desvios a par da norma, por natureza, portuguesa. O que os portugueses fizerem do idioma, com todos seus matizes, não pode por definição deixar de ser «o português». Outros, em colidindo com o rumo que viermos a dar ao ao português hão-de ter de se decidir: ou nos seguem a regra ou se emancipam com a sua linguagem peculiar, podem fazê-lo livremente. Não têm é o direito de no-la impor como português, que não é. De modo que toda essa conversa de «variantes» portuguesa e brasileira em pé de igualdade não é de que um sofisma.
    Cumpts.

    ResponderEliminar
  11. Hugo X. Paiva27/7/13 23:27

    Excelentissimo Bic: vim aqui à procura de um dicionário e, à vista do nome de João das Regras, abri o texto, li, e surgiu-me uma duvida velha, que talvez com a sua habitual excelência me possa ajudar a esclarecer:Se Clemente VII casou D. Pedro com D. Inês?

    Grato pela atenção.

    Hugo X. Paiva

    ResponderEliminar
  12. Segundo consta, foi D. Gil Cabral, bispo da Guarda quem jurou ter casado D. Pedro e D.ª Inês. Mas, confesso que não estudei o assunto.
    Cumpts.

    ResponderEliminar