« No sítio onde assenta a Escola [Faculdade de Medicina] existiu a Praça de Touros do Campo de Sant'Ana, de tradições na vida alfacinha, com a sua aura fidalga e popular a um tempo. Foi aquela Praça inaugurada em 3 de Julho de 1831, tempos do Senhor D. Miguel, que assistiu à «festa», sendo corridos dezasseis touros das manadas reais; à noite, com motivo no acontecimento tauromáquico, houve «luminárias» e «fogo de vistas». A Praça do Campo de Sant'Ana era pequena e quase tôda de madeira, sem o tipo clássico dos redondéis hispano-árabes, uma arena muito para «brinco de touros», mas que fêz as delícias dos nossos avós. Até 1915 uma «maquette» desta Praça encontrava-se no Club Tauromáquico, ao Chiado; foi por essa época destruída num assalto político àquele Club, e dela resta, apenas, a memória numa fotografia feita um pouco antes pelo Sr. J. A. Barcia [*]. A Praça do Campo de Sant'Ana, que sucedera á do Salitre, esta inaugurada em 4 de Junho de 1790, foi demolida em 1891, para dar lugar à do Campo Pequeno, inaugurada em 18 de Agôsto de 1892.»
Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, 2.ª ed., Vega, Lisboa, 1992, p. 33.
 Panorâmica do Desterro e do Campo de Santana tirada da Senhora do Monte, Lisboa, [ant. 1891].
A única fotografia da praça de touros do Campo de Santana que descobri no Arquivo Fotográfico da C.M.L. é esta. A qualidade não é famosa mas é uma fotografia muito antiga. Trata-se duma panorâmica tomada do Largo da Nossa Senhora do Monte sobre o Desterro; arrisco dá-la ao 3.º quartel do séc. XIX. A praça do Campo de Santana é aquele corpo negro no quadrante superior esquerdo; para a sua direita estende-se o casario ocidental do Campo de Santana (ou Campo dos Mártires da Pátria); ao fundo avisto nitidamente o Monsanto. Em baixo, à direita, o Hospital do Desterro. Em primeiro plano um pequeno largo onde confluem a Travessa da Bica do Desterro (hoje Rua Nova do Desterro) e a Calçada da Bica do Desterro (Calçada do Desterro), lugar onde hoje se encontra uma fonte monumental que foi removida do Largo do Intendente. Quase na base da fotografia apercebo-me da Rua da Palma entre muros e em traçado menos regular do que hoje no troço vindo do Socorro; no canto inferior direito lá segue ela para o Intendente, sem vislumbre da Av. Rainha D.ª Amélia (Almirante Reis). Além da fotografia sobra no Arquivo Fotográfico da C.M.L. a gravura a seguir, que é do espólio de Eduardo Portugal.
 Praça de Touros do Campo de Santana, desenho, Lisboa, [s.d.].
Este verbete dedico-o à Dona T., onde há mais pitoresco sobre as corridas nesta praça de touros.
[*] Sei hoje, Agôsto de 2022, de 4 fotografias no archivo da C.M.L.
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É, parece-me, a primeira vez que vejo uma foto de tal praça.
ResponderEliminarAbraço
Uma preciosidade rara.
ResponderEliminarParabéns pela descoberta!
Votos de um bom fim-de-semana.
Cumprimentos,
José Carreira
Muito obrigada Senhor Bic. Fiquei toda satisfeita por ler este post.
ResponderEliminarE quando escreve o livro???
Cenário de amores de Vimioso e Severa: ele toireando na rústica praça, ela cantando o fado nuns botequins manhosos que por ali havia. A foto é simplesmente extraordinária - mas lembro-me de em tempos ter visto num livro uma foto do próprio interior da praça, com uns cabrestos desembolados na arena. Onde é que andará o raio do livro?
ResponderEliminarPela primeira vez tive conhecimento de outras praças de touros em Lisboa para além da do Campo Pequeno....
ResponderEliminarObrigada
BF
Curiosamente, caro Bic Laranja, dez anos antes da inauguração da praça do Campo de Santana, a revolução liberal tinha tentado acabar com as touradas, consideradas pelos seus mentores como um espectáculo bárbaro. Mas não conseguiu senão erradicar os touros de morte (em 1826). Uns anos mais tarde, um decreto de Passos Manuel volta a tentar por fim às touradas, mas só é respeitado durante três meses. Lamentavelmente
ResponderEliminarE que bela chapa! Mas então, ficou no tinteiro do caro Confrade a descrição do topo? Ora vamos lá: ficamos a saber que toda a correnteza ocidental do Campo de Santana ainda parece lá estar mais ou menos intocada. A começar na esquerda, o palacete hoje fechado, que albergou serviços do M.da Eeducação, depois da boca da calçada do Moinho de Vento, como quem vai para o Instituto Camara Pestana, em direcção à calçada de Santana. Acá da mesma c. do Moinho, o casario parece o mesmo que persiste, incluindo (por esta ordem) o Instituto Alemão, a Embaixada Alemã, o antigo e avarandado prédio do Patriarcado (antes não sei de que Visconde), o prédio (também patriarcado) que foi da família Geraldes Barba, e penso só o último (hoje substituido por um de azulejo verde a fazer canto com a Alameda de S. António dos Capuchos, onde está o restaurante "Clara") desapareceu. Mas lá se vê por detrás a mole imponente do Convento e Igreja de S. António dos Capuchos, hoje hospital da mesma apelação.
ResponderEliminarNos "Embrechados" conta o conde de Sabugosa essa história. O Papa Pio V em 1566 tentou impedir esse espectáculo e em Portugal a rainha Maria Francisca de Sabóia tentou o mesmo. Todos sem grande sucesso, infelizmente. Ou melhor lamentavelmente, como diz a cara Luar.
ResponderEliminarMeu Caro Bic, andei dois dias a deitar livros abaixo, mas descobri. Conceda-me a esmola de visitar o Inferno e verá uma lembrança que tive o atrevimento de lá deixar. Abraço
ResponderEliminarUm abraço, Manuel! // Cumpts. José Carreira. // Continue a perguntar-me pelo livro Dona T. que eu incho de vaidade! :) // Bem lembrado caro confrade Jansenista: e agora aguçou-me a curiosidade. // Faz sentido isso que diz, Papoila; no tempo da nossa vida só essa existe e sempre lá esteve, não é? // Quanto aos toiros, concedo o par de bandarilhas que a Dª Luar II e a Dª T. cá deixam mas não partilho do lamento. // Obrgado caro confrade; prosseguiu para outro registo, não é verdade?! // Cumpts. a todos!
ResponderEliminarQual esmola?! É uma honra. O seu achado é formidável. Julgo ser a tal fotografia da maqueta do Club Tauromáquico que foi na vorgaem da 1ª República.
ResponderEliminarCumpts.