Os urbanos nunca teveram os saloios em boa conta. Raul Proença via-os assim:
« Quando Afonso Henriques tomou posse de Lisboa consentiu-se ao mouro que refluisse para os subúrbios da cidade, e ele aí se estabeleceu, entregue ao cultivo das hortas, com a água a escorrer da nora gemedora. É desta população consentida, mourisca e subalterna, que deriva o mais da gente que habita os contornos de Lisboa - o saloio. [...] Psicologicamente, caracteriza-o o espírito de rotina, a crueza de vistas, a avareza levada à sordidez, e essa sitemática atitude de desconfiança que, sob o nome de esperteza saloia, tomou foros de proverbial, e foi filão aproveitado por muita veia cómica nos teatros de Lisboa. O seu horror à árvore, tão rácico, não pouco tem contribuído para despoetizar grandes zonas de terra em que se fixou, dando a certos retalhos arrabaldinos esse aspecto escalvado, marroquino e carrancudo [...]
No mais, enverga jaqueta e calça abuzinada, na cabeça o barrete ou a carapuça, e em torno da cinta uma faixa negra. Elas usam saias curtas e botarras de cano baixo, com sola rijamente pregueada, e são as lavadeiras que o carreteiro traz todas as semanas à cidade em grandes cachos humanos [...] »Raul Proença, Guia de Portugal, 1.º v., Generalidades; Lisboa e arredores, 1ª ed., B.N., Lisboa, 1924, p. 464 [Reed. da Gulbenkian, imp. 1991].

Saloios [espécie de], Largo do Museu da Artilharia, 1913.
Fotografia de Joshua Benoliel, in Arquivo fotográfico da C.M.L...
Com roupagem mais moderna, alguns saloios evidenciam-se agora categoricamente como patos bravos. Os restantes, perdidas as hortas, terciarizaram-se; são saloios de 3.ª. Consente-se que refluam diariamente para os subúrbios em grandes cachos humanos... automovelizados.
O pato bravo é um saloio/bimbo do norte hehehhe nao confundir! :-0
ResponderEliminarEstou certo que os há saloios do termo de Lisboa. Tem que haver... E o blogo volúvel? Tornou-se solúvel?!...
ResponderEliminarCumpts. :)
Patos bravos para mim eram os construtores civis, sinónimo de novos ricos. Em Leiria existem os porqueiros da Boavista, também gente enriquecida da Boavista(perto da cidade). Muito mais sinónimos existirão, acho eu.
ResponderEliminarOra senhor Bic, os saloios sao por excelencia dos arredores de lisboa. O meu pai que é lisboeta de gema, sempre chamou às pessoas do norte patos bravos... heheheh de maneira que para mim um saloio é de lisboa da mesma forma que um pato bravo é do porto! :)
ResponderEliminarA gaveta era de madeira fraca... dissolveu-se.
Mas me aguarde... ;-)
Um saloio cuja horta em sendo loteada dê uma urbanização com nome de quinta disto ou daquilo torna-se um pato bravo? E deixa de ser saloio? E um pato bravo pode desistir duns loteamentos e pedir reclassificação dos terrenos como agrícolas? E tornar-se-á assim num saloio? E poderá acumular os dois cargos? Há saloios que têm vários cargos, inclusive o de pato bravo...
ResponderEliminarCumpts. :)
Patos bravos não têem a ver com zonas geográficas. O meu pai era do sul, vivia no norte e usava esse termo. Como eu uso, sou do norte e vivo em Lisboa há mais anos do que me lembro.
ResponderEliminarPodem ser saloios e acumular como diz o senhor Bic. Mas pode nada ter a ver com os arredores de Lisboa.
É um termo generalista.
Peço desculpa, erro meu! Não devia ter posto os patos bravos. Peço o favor aos benévolos leitores de lerem o parágrafo final assim: "Com roupagem mais moderna, os saloios, perdidas as hortas, terciarizaram-se; são saloios de 3ª. Consente-se que refluam diariamente para os subúrbios em grandes cachos humanos... automovelizados." Obrigado pela compreensão! :)
ResponderEliminarNão acho que tenha errado no que escreveu. Errado é pensar que patos bravos é só no norte:) E pronto é isso.
ResponderEliminarNão erro na afirmação. Nem erram a Scarlata ou a Dona T. na interpretação. Errado foi o acto de escrevê-lo desnecessariamente, pois pretendia o enfoque noutro lado. Cumpts.
ResponderEliminarUma achega mais: Sempre ouvi que os patos bravos eram de Tomar. Por de lá serem grande parte dos gaioleiros do início do século XX, terá tocado depois aos demais a brava designação. Mas não posso jurá-lo, é claro.
ResponderEliminarAbraço
Pegando na deixa, por mim sempre ouvi dizer que os patos bravos são de Tomar e/ou Abrantes. priovavelmente, por serem zonas de origem de muitos construtores civis que singraram em Lisboa.
ResponderEliminarPara obedecer aos desejos do Amuigo Bic, não abordarei a designação que os torna potenciais vítimas da epidemia em curso e, mesmo ao arrepio deles, pode passar por erudita citação de Ibsen; antes farei notar que o ódio à árvore continua a marcá-los: é o triunfo da Estrutura, suponho. Abraço.
ResponderEliminarCaros Manuel e Zé: Agradeço-vos a informação, que desconhecia. Parece-me que no essencial estais de acordo. Assim como assim, a designação 'pato bravo' comporta hoje uma evidente e desgraçada extensão semântica (e geográfica); julgo que saloio também. Une-os, como bem notou o amigo Cunha Porto (fico grato por vê-lo cá) o ódio à árvore... Cumpts. e obrigado aos três.
ResponderEliminarOlha que belo blogue eu descobri...
ResponderEliminarGrato pelo apreço.
ResponderEliminarCumpts.