Precisava ir buscar a sr.ª D.ª Maria Luísa à loja do cidadão. Ali chegado, aconteceu que o metropolitano se avariou e a sr.ª D.ª Maria Luísa ainda sequer chegara. Puxei então pela cabeça, vendo como haveria de aproveitar o tempo.
— O selo do carro — lembrei-me.
Fui à loja da Fazenda Pública e tirei uma senha com o número que era logo a seguir.
— O selo do carro, posso comprá-lo aqui?
— Sim! Qual o seu n.º de contribuinte?
— 191... - disse de cór cor.
O senhor da tesouraria da Fazenda perguntou-me o nome, a morada, se os carros eram este e aquele... Batia tudo certo. Disse-me quanto era. Quando me estendeu o recibo disse que os selos seguiriam no correio.
— Já está? — perguntei incrédulo: ali estava eu despachado em menos de 1 minuto.
— Sim. Está tudo. Os selos hão-de ir no correio — tornou.
— Isto assim está bom! — disse como para comigo de modo que fosse ouvido. Agradeci sorrindo e voltei-me para sair.
— Está satisfeito? — disse risonho um colega do que me atendera. — Ainda há bocadinho um senhor reclamou. Exigia que lhe déssemos os selos logo aqui ao balcão.
— Ah! Isso agora já não é comigo... — e levei a mão ao bolso da camisa onde tinha dobrado em quatro o recibo.
— Boa tarde, obrigado! — despedi-me.
E lá fui muito contente por me ter despachado na tesouraria da Fazenda num minuto e meio, incluindo a conversa fiada. E devo-o ao sr. ministro Coelho, que inaugurou aquela loja do cidadão.
Um mês depois recebi duas cartas da Fazenda: uma para cada selo.
segunda-feira, 31 de julho de 2006
Coelho mágico
Expesso
O Expresso pesa cerca de 2 kg e contém:
1 jornal, dito 1.º caderno;
1 jornal de Economia;
1 jornal de golfe;
1 jornal de gestão global;
1 revista Portugal&e Espanha;
1 jornal de imobliário;
1 revista de jogos e passatempos;
1 catálogo da Worten;
1 catálogo da Moviflor;
1 revista de finanças pessoais do bancoBesteBest;
1 jornal de empregos;
1 jornal Actual;
1 revista Única;
1 catálogo de Vodafone;
1 guia Portugal de Comboio;
1 catálogo de relógios.
Ah! E um saco de plástico.
A imagem é da periférica.org; o rol refere-se ao saco de plástico de 8 de Julho.
domingo, 30 de julho de 2006
Noites de Verão
As férias, o Algarve. uma curta passagem pelo Porto, e sobretudo, noites quentes de Verão [onda de calor, chamam-lhe agora], deram-me saudades desta cantiga.
Rui Veloso - A Ilha |
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| (Carlos Tê / Rui Veloso) Fiz-me ao mar com lua cheia A esse mar de ruas e cafés Com vagas de olhos a rolar Que nem me viam no convés Tão cegas no seu vogar E assim fui na monção Perdido na imensidão Deparei com uma ilha Uma pequena maravilha Meia submersa Resistindo à toada Deu-me dois dedos de conversa Já cheia de andar calada Tinha um olhar acanhado E uma blusa azul-grená Com o botão desapertado E por dentro tão ousado Um peito sem soutien Ancorámos num rochedo Sacudimos o sal e o medo Falámos de música e cinema Lia Fernando Pessoa E às vezes também fazia um poema E no cabelo vi-lhe conchas E na boca uma pérola a brilhar Despiu o olhar de defesa Pôs-me o mapa sobre a mesa Deu-me conta dessas ilhas Arquipélagos ao luar Com os areais estendidos Contra a cegueira do mar Esperando veleiros perdidos Rui Veloso ao Vivo (1988) |
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Mas já passou.
sábado, 29 de julho de 2006
O saco de plástico
Só quando estou de férias leio o jornal. O que na verdade gosto é comprar o jornal a caminho da praia, em que a antecipação de o ler me anima. A pobreza dos pasquins acaba por desencantar, mas enfim, é um hábito ligado ás férias que aprecio. No primeiro sábado a banhos deixei-me ficar refém do saco de plástico por causa duma colecçãozinha sobre os 150 anos do caminho de ferro em Portugal; por isso o continuo a comprar. Hoje, logo abaixo duma linda fotografia da Elisabeth Taylor, diz que os políticos vão a banhos e o combate ideológico arrefece: é a «silly season». |
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Elisabeth Taylor, Sarago, Espanha, 1959. |
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sexta-feira, 28 de julho de 2006
Despedida do comboio a vapor
Despedida do comboio a vapor — Via Larga, Porto, 1977.
Fotografia: Comissão de Estudo para Instalação do Museu Ferroviário.
Claustro da Lavagem
quinta-feira, 27 de julho de 2006
Piso escorregadio
Desde 69 para cá já mudaram o asfalto e parece que também houve obras nos gasómetros. Mas continua-se a patinar por ali.
Av. Infante Santo, Lisboa, 1969.
Fotografia de Artur Inácio Bastos, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
Trabalhos na Av. de Roma
Em fundo, o Júlio de Matos. presidente da C.M.L. visita as obras do bairro de Alvalade, Lisboa, 1947.
Fotografia de Ferreira da Cunha, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
quarta-feira, 26 de julho de 2006
O gato do 2º esq.
Quinze dias a banhos e - vindos da praia - o bichano lá estava empoleirado no parapeito. Naquele canto da varanda, patinha estendida tocando o segundo varão.
Pinhal da Falésia, Algarve, 2006.
terça-feira, 25 de julho de 2006
Casa de tipo regional
« A habitação primitiva é um cubo com uma porta e uma janela. Em cima a açoteia, para onde se sobe por degraus de tijolos, e muitas vezes sobre a açoteia o mirante. Entro num e noutro destes buracos com as telhas assentes em canas. Todos eles reluzem de cal. Dois compartimentos: a chaminé, que é o nome da cozinha, e a casa de fora. Uma esteira no chão, uma cama com uma colcha de seda, que só serve nos dias de festa, uma cómoda e um bancal de renda. A um canto um pote e o indispensável pincel. Caia-se tudo. Caia-se o lar e os degraus. Caia-se sempre. É um delírio de branco. Subo à açoteia - a melhor parte da casa. O homem de Olhão tem por ela uma paixão entranhada. Se um vizinho a ergue, ele nunca fica atrás - levanta-a logo mais alto. É que a açoteia é o seu encanto: sítio esplêndido para respirar, eira para a alfarroba e o figo, e quarto para dormir no Verão sob um pedaço de vela.»
Raul Brandão, in Pescadores (1923).
Casa de novíssimo tipo regional, Orada (marina de Albufeira), 2006.
[Quantos milímetros de literatura inspirará este novíssimo tipo regional?]
Alterado em 26/7 ao meio-dia.
domingo, 23 de julho de 2006
O fundador!
Como muitos, tenho andado curioso acerca da fisionomia de D. Afonso Henriques. Inesperadamente, descobri a sua verdadeira figura no Largo João Franco em Guimarães: era branco, media cerca de 2,5m de altura, pesava bastante...
Largo João Franco, Guimarães, 2006.
Foto: Luísa Gonçalves.
quinta-feira, 20 de julho de 2006
Óbidos e os Castelãos
Na crise de 1383-85 o alcaide de Óbidos tomou partido por Castela.
Quando o Mestre levantou o cerco a Torres Vedras determinando ir-se com as suas gentes para Leyrea, em passando per amtre Obidos [...] se lamçou com os Castellaãos Alvoro Fernamdez Turrichaão, Comendador de Monte Moor o Novo, e outros (1). Apesar disso, sabemos como o Mestre venceu os de Castela, tornando-se por fim a vila de Óbidos e toda-las outras para Portugal. Por isso achei graça ontem ver mercadores castelãos arredados para fora dos muros da vila, vendendo tés e remedios caseros devidamente identificados em português lá de Castela.
Ou seria chás e mezinhas...?
Campo do mercado medieval, Óbidos, 2006.
Daquele Álvaro Fernandes Turrichão, e outros, não soube mais notícia…
(1) Fernão Lopes, Crónica de D. João I, vol. 1, [s.l.], Civilização, imp. 1994, p.388.