« A habitação primitiva é um cubo com uma porta e uma janela. Em cima a açoteia, para onde se sobe por degraus de tijolos, e muitas vezes sobre a açoteia o mirante. Entro num e noutro destes buracos com as telhas assentes em canas. Todos eles reluzem de cal. Dois compartimentos: a chaminé, que é o nome da cozinha, e a casa de fora. Uma esteira no chão, uma cama com uma colcha de seda, que só serve nos dias de festa, uma cómoda e um bancal de renda. A um canto um pote e o indispensável pincel. Caia-se tudo. Caia-se o lar e os degraus. Caia-se sempre. É um delírio de branco. Subo à açoteia - a melhor parte da casa. O homem de Olhão tem por ela uma paixão entranhada. Se um vizinho a ergue, ele nunca fica atrás - levanta-a logo mais alto. É que a açoteia é o seu encanto: sítio esplêndido para respirar, eira para a alfarroba e o figo, e quarto para dormir no Verão sob um pedaço de vela.»
Raul Brandão, in Pescadores (1923).
Casa de novíssimo tipo regional, Orada (marina de Albufeira), 2006.
[Quantos milímetros de literatura inspirará este novíssimo tipo regional?]
Alterado em 26/7 ao meio-dia.
Meu Caro Bic Laranja:
ResponderEliminarNestas coisas de arquitectura, duns diz-se «caia-se sempre»; doutros "cai-se sempre". Uma letrinha apenas!
Abraço.
A selvajaria com o betão já arruinara as formas. Agora, até o alvo casario das terras meredionais se vai. Está tudo perdido! Está tudo perdido!... Cumpts.
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